Numa festa recente em Los Angeles, perguntei a um veterano das premiações o que ele achava da corrida ao Oscar deste ano. Antes que eu terminasse a frase, ele já estava balançando a cabeça. “Será que temos sequer dez filmes este ano bons o suficiente para Melhor Filme?”, respondeu.
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Não compartilho desse desânimo, já que todos os anos temos muitos filmes ótimos, basta saber onde procurar. (Vale procurar produções independentes como “Reconstrução”, “Lurker” e “Urchin” para comprovar isso.) Ainda assim, pensando no formato mais tradicional para o Oscar, há uma preocupação entre votantes e especialistas: a ideia de que temos apenas cinco fortes concorrentes este ano, e depois uma queda brusca no nível seguinte de aspirantes.
O que fez essa leva do Oscar ser mais fraca do que o esperado? Alguns filmes que pareciam fortes candidatos da crítica receberam reações frias em suas estreias. Embora os votantes do Oscar frequentemente se inclinem para os sucessos de bilheteria, foram tantos dramas com desempenho abaixo do esperado — como “Coração de lutador – The Smashing Machine” e “O bom bandido” — que a lista final de concorrentes inevitavelmente incluirá alguns fracassos financeiros.
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Mas quais são os cinco filmes que devem conquistar a maior parte das indicações este ano? Os prováveis favoritos incluem dois sucessos de bilheteria com ótimas críticas e elencos estelares (“Uma batalha após a outra” e “Pecadores”), dois dramas emocionantes (“Hamnet” e “Valor sentimental”) e o ainda inédito “Marty Supreme”, com uma atuação brilhante de Timothée Chalamet.
Fora isso, é impossível prever o resultado.
As recentes listas de indicados a Melhor Filme têm dado mais espaço para produções internacionais, então o escandinavo “Valor sentimental” pode ter bastante concorrência. A tensa fábula moral de Jafar Panahi, “Foi apenas um acidente” deve entrar na disputa por Melhor Filme e Melhor Diretor, impulsionada pela prestigiosa Palma de Ouro em Cannes. (O filme também levou três prêmios Gotham na segunda-feira.)
Os brasileiros esperam que “O agente secreto” supere as expectativas, como aconteceu ano passado com “Ainda estou aqui”, embora este drama político possa se sair melhor na categoria de Melhor Ator com Wagner Moura.
E embora os votantes do Oscar nunca tenham se afeiçoado ao diretor sul-coreano Park Chan-wook (“Decisão de partir”, “Oldboy”), ele concorrerá novamente com “No other choice“, que parece uma versão excêntrica de “Parasita”.
“Wicked: Parte II” e “Avatar: Fogo e Cinzas” seguem franquias indicadas a Melhor Filme, mas já ficou para trás o tempo de “O Senhor dos Anéis”, quando uma série tinha força para premiações ao longo de sua trajetória. Sequências recentes como “Duna: Parte 2” e “Pantera Negra: Wakanda para sempre” tiveram menos indicações do que seus filmes de estreia. As críticas mistas a “Wicked: Parte II” podem mantê-lo na disputa por Melhor Filme, mas sua força estará em categorias como Melhor Atriz Coadjuvante e Figurino.
A Netflix tem quatro filmes com ambições a uma vaga de Melhor Filme, mas nenhum deles é considerado favorito. “Frankenstein”, de Guillermo del Toro, pode ser o mais forte do grupo: o diretor vencedor do Oscar é uma figura carismática e o filme certamente receberá indicações em categorias técnicas. “Casa de dinamite“, de Kathryn Bigelow, e a comédia “Jay Kelly” (estrelada por George Clooney) têm seus fãs, mas muitos votantes reclamam que deveriam ser melhores. Talvez isso abra espaço para “Sonhos de trem“, um drama de elegíaco que vem conquistando apoio discretamente (e tem o brasileiro Adolpho Veloso como possível indicado em Melhor Fotografia).
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Alguns concorrentes esperam trilhar o mesmo caminho de favoritos anteriores ao Oscar. “Springsteen: Salve-me do desconhecido” lembra a cinebiografia de Bob Dylan do ano passado, “Um completo desconhecido” (mas com críticas e bilheteria medianas). E a dupla de “Pobres criaturas”, Emma Stone e Yorgos Lanthimos, se reuniu para “Bugonia“, com menos alarde.
No final deste mês, membros da equipe por trás de “O brutalista” apresentam seu musical Shaker, “O testamento de Ann Lee“, enquanto Bradley Cooper tem seu terceiro trabalho como diretor a comédia dramática sobre casamento “Isso ainda está de pé?“. E devemos sempre ficar de olho na veterana Sony Pictures Classics, que mira o público mais velho com filmes como “Nuremberg” e “Blue Moon”.
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Se os votantes do Oscar não tiverem medo de ousar um pouco, por que não “A hora do mal“? O sucesso de terror tem em Amy Madigan uma candidata legítima ao prêmio de melhor atriz coadjuvante e também pode competir na categoria de roteiro original — um combo que costuma indicar força para a categoria principal.
Embora “A hora do mal” não tenha a mesma ressonância de “A substância”, o sangrento indicado do ano passado, tem energia de sobra. E quem não gostaria de ver a Tia Gladys enfrentando o apresentador do Oscar, Conan O’Brien, em uma batalha épica entre ruivos?

