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cresce o movimento para se desconectar da internet em casa ou até em um retiro

BRCOM by BRCOM
agosto 10, 2025
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Fábio Assef após o término do retiro de 3 dias em Minas Gerais — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Já sentiu que passar horas rolando o feed te jogava em um vórtice sem fim de comparação com a vida dos outros? Beatriz Souza, de 32 anos, se viu nessa situação e percebeu que esse uso desenfreado de redes sociais deteriorava sua saúde mental.

A arquiteta, natural de Sergipe, também chegou à conclusão que quanto mais tempo passava online, piores eram suas crises de ansiedade. Por isso, a saída encontrada foi ficar sem a rede social Instagram por três meses.

— Achava que estava sempre atrasada, que não era capaz de chegar onde eu almejava, mas, ao mesmo tempo, passava muito tempo acompanhando a vida dos colegas e não fazia as coisas acontecerem na minha — relata.

Para aqueles que decidem priorizar a saúde mental, o detox digital tem se consolidado e ganhado novas facetas. Muitos jovens e adultos estão decidindo se afastar das redes sociais e aplicativos para dar um passo em direção à desconexão consciente, chegando a se isolar em retiros para se livrar da dependência de internet.

Apesar da popularização recente, o termo “detox digital” e a busca pela mudança de hábitos relacionada não são de hoje. Ele foi descrito pela primeira vez em 2012 para designar a ação de “desintoxicar” a mente dos conteúdos online através do afastamento consciente e temporário das redes sociais (ou da internet como um todo).

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  • Observar os próprios hábitos
  • Como não se isolar em meio ao detox?
      • cresce o movimento para se desconectar da internet em casa ou até em um retiro

Observar os próprios hábitos

Uma pesquisa recente realizada com beneficiários da empresa Pluxee mostrou que 67% dos adultos e jovens adultos entrevistados já decidiram reduzir o tempo de uso ou desativaram suas contas em redes sociais em algum momento. Além disso, 82% dos participantes afirmam passar no máximo duas horas por dia conectados, enquanto 56% procuram limitar esse tempo de uso em até uma hora.

Do total, 68,6% tomaram a decisão motivados principalmente pela percepção de perda de tempo e 20,8% devido à sensação de ansiedade e estresse provocada por conteúdos online.

Enquanto outro estudo, encomendado pelo Instituto Cactus, divulgado no ano passado, indicou que 45% dos participantes relataram que as redes sociais afetam negativamente sua saúde mental. Dentre eles, o impacto do uso frequente é muito negativo para 10%.

Fábio Cantinelli, psiquiatra-chefe do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), explica que a preocupação com as consequências que estímulos demais podem causar ao cérebro está em pauta desde a invenção da televisão.

— É comprovado que o cérebro passa a operar com um estímulo excessivo, além do que ele pode suportar, quando começamos a passar muito tempo no telefone. Assim, o “detox” vem como uma resposta a essa intoxicação generalizada de informações, que estão muito ligadas à ansiedade e à depressão — explica.

O barulho de notificações, as postagens chamativas e um turbilhão de informações (sejam úteis ou inúteis) fazem parte da rotina corriqueira de quem utiliza redes sociais e plataformas de vídeo no celular. Como consequência, muitas pessoas se sentem sobrecarregadas ao serem bombardeadas diariamente com estímulos provindos do mundo digital.

Para Letícia Tavares, de 23 anos, o tempo gasto no feed do Instagram estava roubando, para além da sua autoestima, o seu tempo produtivo e a sua concentração para atividades que requerem foco — como a leitura de textos para a faculdade.

Durante uma consulta com sua psicóloga, a estudante de História da Universidade Federal de Sergipe (UFS) chegou à conclusão de que deveria dar um tempo das redes sociais.

— Resolvi desinstalar o aplicativo do meu celular e ver quanto tempo conseguiria ficar sem ele — conta.

O distanciamento, que começou sem tempo limite para acabar, durou cinco meses ao todo. E a decisão de retomar a conta se deu, principalmente, quando ela percebeu que havia desapegado.

— Não fazia mais falta. E logo quando voltei a usar comecei a filtrar as informações mais relevantes, no intuito de evitar a sobrecarga mental. Às vezes nem entro mais, mesmo instalado — afirma.

De acordo com Bianca Kuhn, especialista em saúde mental do Instituto Cactus, a discussão sobre a necessidade de repensar a relação com as redes sociais voltou à tona após o lançamento recente do livro “A geração ansiosa”, de Jonathan Haidt, que aponta as consequências da utilização da internet para a saúde mental de crianças e adolescentes.

Segundo ela, as plataformas hiperestimulam o sistema da dopamina, o “hormônio do prazer”, o que cria a necessidade de conexão constante.

— O formato dos reels do Instagram e do feed do TikTok acaba enfraquecendo a capacidade de focar e faz com que sempre fiquemos em um estado de espera por recompensas — afirma.

O jejum digital pode criar novas brechas de atenção e energia dedicadas a outras atividades. Passados os meses em que esteve longe do seu perfil no Instagram, Beatriz finalmente conseguiu focar nos próprios projetos.

— Tive um grande processo de autoconhecimento nesse tempo que passei longe das redes. Procurei me entender melhor e a pôr limites no uso das redes, além de conseguir ver com mais clareza que as pessoas só postam o que querem que os outros vejam — explica.

Mas a abstinência digital nem sempre é vivida individualmente. Uma das tendências em alta são as experiências imersivas que pregam a restrição de acesso a telas, comandadas por movimentos que incentivam a ioga e a meditação.

Fábio Assef, de 31 anos, participou de um “retiro detox” de três dias promovido pelo Instituto Max Tovar — conhecido por ser o destino de famosos como Anitta, Angélica e Juliette. Nele, são incluídos no valor (que pode chegar a mais de 5 mil reais) acomodação, refeições e massagem.

Para viver a experiência, o morador de Belém, no Pará, viajou até a cidade de Monsenhor Paulo, no interior de Minas Gerais. Segundo o arquiteto paisagista, o tempo passado totalmente offline, acompanhado de períodos de meditação, conversas entre os participantes do retiro e também a proximidade com a natureza foram necessários para que ele pudesse se conectar consigo mesmo.

— Por conta do retiro, percebi que o mundo não vai acabar por ficar um tempo sem usar o celular. Não há nada que seja tão urgente quanto o meu bem-estar e minha saúde mental alinhados. Aprendi a estar mais presente nos momentos, olhar sempre nos olhos das pessoas e prestar atenção genuína no que elas estão falando. Valorizar mais momentos de conexão real — conta.

Os resultados da experiência também o levaram a procurar novas oportunidades de estar completamente desconectado.

— No ano passado fiz um trekking no monte Roraima, onde fiquei oito dias sem celular e também foi uma experiência maravilhosa de conexão comigo mesmo. Minha saúde mental está muito melhor. É um processo, que não muda do dia pra noite, mas tem valido muito a pena — diz.

Fábio Assef após o término do retiro de 3 dias em Minas Gerais — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Cantinelli diz que a decisão pode dar outra dimensão aos comportamentos impensados.

— Em vez de seguir no automático, podemos analisar criticamente nosso hábito de não desgrudar do celular. E, assim, nos perguntar: por que eu não consigo me desconectar? Qual é a necessidade real de estar online em todos os momentos do meu dia? O que eu perco com esse hábito? — questiona o psiquiatra.

Nos Estados Unidos, algumas iniciativas, como a Digital Detox, também oferecem experiências imersivas de uma a três noites em que o propósito é ficar completamente longe do celular ou de qualquer outro aparelho com acesso à internet.

“Os campistas não usam seus nomes verdadeiros, não podem falar sobre trabalho e deixam todos os seus dispositivos eletrônicos para trás, do lado de fora da porta”, afirma a descrição de um acampamento de três dias oferecido pela empresa.

Outro evento promovido pela empresa é a chamada “Noite desconectada”, um jantar para curtir os amigos ou conhecer pessoas novas em que obrigatoriamente não há telefones na mesa.

Como não se isolar em meio ao detox?

Quando o detox digital e o eventual afastamento do mundo online ocorre na forma da exclusão de um perfil em uma rede social, um aspecto que pode se tornar negativo é a perda da sociabilidade.

No mundo atual, para muitas pessoas, estar online representa estar atualizado com o que acontece na vida de pessoas próximas. Assim, se isso se perde, existe a possibilidade de isolamento social.

— Se alguém for optar pelo detox, essa pessoa deve avisar aos amigos íntimos e aos familiares com quem mantém contato. Com essa preparação, a pessoa consegue fortalecer esses laços de outras formas, seja mantendo encontros presenciais ou fazendo ligações — aconselha Kuhn.

Outra dica é definir momentos para se desconectar, porque o detox também pode ser feito de forma gradual.

— Você pode separar uma hora do dia para desligar a tela ou ter zonas dentro da própria casa em que não se usa o celular. Para evitar a utilização na cama logo ao acordar, por exemplo, uma recomendação que tem sido feita é optar pelo uso de alarmes antigos — recomenda Cantinelli.

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