Na Praia do Recreio, na Zona Sudoeste do Rio, crianças e adolescentes atípicos aprendem a surfar com apoio dentro d’água e atenção ao tempo de cada um. Desde julho, o Cades Rio Parasurfe, projeto do Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento do Surfe (Cades), oferece aulas gratuitas às terças e quintas-feiras, na altura do Posto 12. Planejada inicialmente para 16 alunos, a iniciativa precisou se adaptar à alta demanda: agora, já reúne 36 matrículas e ajusta o ensino para que as dificuldades ou o medo do mar sejam trabalhados de forma a ajudar no desenvolvimento e no bem-estar dos estudantes.
Nicolas Cronembauer, de 14 anos, conhece esse medo. Com paralisia cerebral, ele chegou ao Cades há dois anos, depois de conhecer a iniciativa na escola. Na época, tinha muito medo de água e evitava até mesmo banho de piscina. Hoje, combina as aulas do Parasurf com as do Rio Surfe Social, outro projeto da instituição, e surfa quatro vezes por semana. Se dependesse da vontade dele, seria de domingo a domingo.
— Eu tinha muito medo do mar, de água em geral, e isso criava bloqueio para muitas experiências. Foi com o pessoal daqui, caindo para dentro do oceano e pegando onda que fui vencendo o medo. Hoje não imagino minha vida sem surfar — revela o aluno.
Embora more no Recreio atualmente, Nicolas é de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Precisou ser ressuscitado na hora do parto e foi diagnosticado com paralisia cerebral. Ele conta que a equipe médica disse à sua família que jamais andaria ou falaria. Mas o menino superou as expectativas e agora se torna cada vez mais independente e próximo do esporte que é seu “presente de Deus”, define.
Parceria. Nicolas Cranembauer caminha para a água com a sua prancha nova, acompanhado pelo professor Ramone Matias
Fabiano Rocha
Este mês, o adolescente ganhou de um parceiro do Cades a sua primeira prancha, e agora aprende os cuidados necessários para mantê-la com ao professor Ramone Matias, surfista profissional. Nicolas descreve a relação deles como de pai e filho, e revela que o cuidado vem acompanhado de cobrança: para surfar, precisa estar se dedicando aos estudos.
— Com alegria, empatia e dedicação, vamos ajudando um por um com suas questões e a ganhar confiança, autonomia — diz Ramone Matias. — Nosso trabalho acontece na praia, mas sempre pensando em desenvolver os alunos para vida.
No caso de Nicolas, que já participou quatro vezes de campeonatos de parasurfe e diz que quer manter o esporte na rotina, há um outro grande plano. Apaixonado por caminhões, ele sonha abrir uma empresa de transportes.
Respeito ao tempo de cada aluno
Prática. A aluna Liah Gangá praticao movimento de ficar em pé na prancha, antes deentrar no mar
Fabiano Rocha
O projeto Cades Rio Parasurfe tem como embrião um outro trabalho da entidade, o Rio Surfe Social. Voltado ao público de baixa renda, já contava com a presença de alunos atípicos. O convívio revelou a necessidade de um atendimento específico para eles.
Professor de educação física e mergulhador profissional, Michel Vieira, de 54 anos, explica que uma turma numerosa dificultava a atenção individualizada. No projeto de parasurfe, o trabalho inclui aprender com os responsáveis como se comunicar com cada um dos participantes; às vezes, pelo olhar.
— Cada um tem o seu tempo. Tem dias em que você precisa conter a animação de entrar no mar, mas tem dias em que não se quer fazer aula de jeito nenhum. A gente tem que aprender com os responsáveis e com o dia a dia a ir lidando com cada aluno, porque são diversas particularidades — diz Michel.
A organização busca distribuir os 36 matriculados em turmas de seis alunos, com aulas de cerca de uma hora, entre 8h e 11h e entre 14h e 17h. A duração pode variar, conforme a dinâmica das atividades. Na água, cinco profissionais se revezam em funções que permitem acompanhar o aluno desde a saída para pegar a onda até o retorno à areia.
As aulas do parasurfe são sempre realizadas com uma equipe de cinco professores no mar
Divulgação/ Gerson Filho
O lançador ajuda o estudante a entrar na onda. Mais perto da faixa de areia fica o goleiro, que auxilia na chegada e nas quedas para prevenir colisões com pranchas e outros surfistas. Ainda existe o atravessador, que conduz o aluno de volta ao lançador, passando pela arrebentação. A preparação inclui treinamento em segurança aquática com a Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (Sobrasa), parceira do Cades.
O professor de educação física Henry Ajdelsztajn, de 55 anos, um dos fundadores e diretores do Cades, explica que vento, correntes e ondulação são observados durante a aula. Quando o mar está impróprio para o trabalho, os alunos seguem para a sede, que tem pista de skate e sala de atividades.
O Cades, criado por Henry Ajdelsztajn e Pedro Robalinho, que contaram três anos depois com a chegada de Luiz Antonio Azevedo, começou há 28 anos como um projeto pago. Há cerca de 15 anos, abriu sua frente social, que hoje tem apoio da Shell, inicialmente para atender crianças da comunidade do Terreirão que assistiam às aulas mas não podiam pagar por elas. O parasurfe, especificamente,foi implementado com patrocínio do Itaú, via Lei de incentivo ao Esporte.
— Olhar para a sociedade e ver como o esporte pode levar melhorias é um dos nossos focos. O que não faltam são pessoas que não têm oportunidade. E quando falamos de famílias atípicas, é muito difícil ter projetos dessa antureza. Existem, mas ainda são poucos — diz Ajdelsztajn.
Mudanças no comportamento
Entre os familiares que acompanham as aulas no Posto 12, no período da manhã, está a psicanalista clínica Helena Gangá, de 54 anos, moradora do Terreirão. Ela conheceu o projeto nas idas à praia com a neta Liah Gangá, de 6 anos, que está no espectro autista, além de ter diagnósticos de transtorno de ansiedade e transtorno opositor desafiador (TOD). A menina fica com ela durante a semana, um acordo momentâneo feito com a filha, visando à saúde familiar, explica Helena, e pratica parasurfe há dois meses. Nesse período, diz a avó, houve mudanças significativas no modo como ela se relaciona com colegas, professores e também dentro de casa.
— Ela hoje divide a prancha com os coleguinhas, entende quando começa e termina o horário dela. Antes do projeto, ninguém podia encostar nela, porque parecia uma guerra. Agora ela toma a iniciativa de abraçar o outro — relata a avó.
Esse resultado não acontece fácil e nem sempre a mudança é rápida. Muitas vezes, é preciso ter paciência antes mesmo de o aluno entrar no mar. Helena conta que, em alguns dias, os professores passam metade do tempo de aula conversando e interagindo com Liah na areia ou no calçadão até que ela aceite participar da aula. Segundo a avó, a menina também está com mais coordenação motora e demonstra melhora nas outras atividades que pratica. Além do surfe, ela faz jiu-jítsu, balé e acompanhamento terapêutico.
Cuidado também para quem cuida
Família. Helena Gangá pega onda ao lado de Liah, de 6 anos: desejo de aprender surgiu ao ver a neta no mar
Fabiano Rocha
O convívio com a areia e as ondas do mar despertaram na avó o desejo de aprender a surfar. Helena começou a praticar o esporte há menos de um mês e espera poder praticar muito ao lado de Liah. Além de um novo hobby, descobriu a vontade de oferecer, como psicanalista, um espaço de escuta aos familiares do projeto. Ela quer ajudar quem acumula tarefas de cuidado, trabalho e organização da casa e nem sempre encontra com quem dividir o cotidiano.
A atenção a esse entorno faz parte do trabalho da assistente social Juliana Chagas no Rio Surfe Social. Na inscrição, ela busca conhecer renda, moradia, escolaridade, acesso a serviços e dificuldades de deslocamento e cotidiano de cada família. O diagnóstico social orienta o acompanhamento e os encaminhamentos, em parceria com a psicologia. A participação no projeto, ressalta, precisa ser percebida como importante por todos os envolvidos.
— Todo aluno é uma família inteira. E quem cuida, muitas vezes, esquece de ser cuidado — diz Juliana, que também é mãe de uma criança autista.
Como se inscrever
As inscrições para o parasurfe estão abertas e são presenciais, na sede do Cades, localizada na Rua Raymundo Vera, número 2.000, no Recreio dos Bandeirantes. No entanto, conforme a disponibilidade de vagas, é possível que seja preciso esperar para efetivar a matrícula.
A faixa etária que se pretende atingir começa aos 7 anos — mas há exceções — e vai até os 17. Henry Ajdelsztajn explica que, se for necessário estabelecer prioridade para novas matrículas, ela é dada às famílias de baixa renda. Mais informações podem ser encontradas pelo instagram @cadesrioparasurfe.
A proposta de escuta de alunos atípicos e de suas famílias ainda será desenvolvida. Mas, para Helena, o acolhimento dos responsáveis é essencial e responde a uma necessidade que ela resume ao falar dos desafios enfrentados no cotidiano:
— A mãe tira a criança da crise, por exemplo. Mas quem tira a mãe?
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Criado em julho, projeto de surfe gratuito para crianças e jovens atípicos dobra vagas para atender à demanda
