Hawkins, pequena cidade de Indiana, Estados Unidos, ano de 1987. Uma criança desaparece misteriosamente e um grupo de adolescentes se junta para descobrir seu paradeiro. Parece familiar? Pois é a quinta — e última — temporada de “Stranger things”, cujos quatro primeiros episódios estreiam nesta quarta-feira (26) na Netflix. Mais três entram no ar no dia 25 de dezembro e o derradeiro, no dia 31, sempre às 22h. O final traz de volta elementos semelhantes àquela longínqua estreia, em 2016, quando uma série com um elenco infantil, mas não somente voltada para crianças, era uma grande ousadia.
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Tão longínquo que os fãs da série precisaram voltar no tempo nos últimos dias. Por isso, todas as quatro temporadas anteriores reapareceram no Top 10 Global da plataforma nos dados divulgados na terça-feira (25). É um claro esforço da audiência de relembrar a enxurrada de detalhes sobre Vecna, Demogorgons, Mundo Invertido e do léxico todo próprio do universo maligno que atazana a vida de Eleven (menina com poderes especiais, frutos de um experimento sinistro do governo americano) e seus amigos.
Os gêmeos idênticos Matt e Ross Duffer, criadores da produção, atribuem à pandemia e às greves de roteiristas e atores, em 2023, essa longevidade de “Stranger things”, mas também à proporção que as ideias ganharam no caminho. Em 2016, o programa começou com um orçamento de US$ 6 milhões por episódio. Hoje, como um dos carros-chefe da plataforma, especula-se que cada um chegue a custar US$ 50 milhões.
— Em certo momento, percebemos que tínhamos histórias demais — disse Matt em entrevista ao GLOBO por videochamada. — Uma história contínua, ao longo de dez anos, muda e evolui de maneiras que nos surpreendem o tempo todo.
Com isso, deu tempo de o elenco espichar pessoal e profissionalmente. A protagonista Millie Bobby Brown (Eleven), de 21 anos, casou-se e adotou recentemente uma filha. Sadie Sink (Max), de 24, entrou para o Universo Cinematográfico Marvel (ela está no elenco de “Homem-Aranha: um novo dia”) e Finn Wolfhard (Mike), de 22, dirigiu um filme.
— No fim das contas, foi bom escrever para os atores conforme eles iam crescendo, porque isso nos obrigou a fazer a série evoluir — disse Matt. — Não podíamos simplesmente nos repetir, porque toda vez que íamos gravar uma nova temporada, eles estavam diferentes, mais velhos e mais maduros. Tivemos realmente que levar isso em conta, o que obrigou a série a mudar.
Tanto tempo no ar deu para levar o universo fantástico para além de Hawkins, uma prova de que a cidade não vai desaparecer do mapa no dia 31 de dezembro. Em 2023, estreou em Londres “Stranger things: the first shadow”, um musical com a história pregressa da família Creel, na qual nasceu o Vecna de carne e osso. O espetáculo agora também está na Broadway, em Nova York. Desde 2019, no Brasil, também saem os livros oficiais da saga — o quarto volume, “De um jeito ou de outro”, chega em janeiro de 2026. E, na própria Netflix, estreia, ano que vem, a primeira animação, “Histórias de 85”, ambientada entre a segunda e a terceira temporadas. “Quando começamos a conversar sobre outras coisas que queríamos fazer com esse universo, esta foi uma das nossas primeiras ideias”, disse Ross no teaser de lançamento.
Este e outros projetos os Duffers vão apenas avalizar de longe, porque a partir de abril de 2026 a dupla se despede da Netflix. Os irmãos assinaram um contrato com a Paramount, seduzidos pela possibilidade de fazer cinema.
“‘Stranger things’ é uma carta de amor ao cinema” disse Ross à revista Variety. “Quando Matt e eu estávamos falando sobre o que queríamos fazer, a conclusão foi: um grande filme original para o cinema. É algo que sonhamos desde pequenos.”
Ícones da cultura pop dos anos 1980 e filmes que eram campeões de bilheteria no videocassete dos Duffers, como “Os Goonies”, “Poltergeist” e “A hora do pesadelo”, serviram de inspiração para a onda nostálgica que eles incentivaram. Desta vez, conta Jamie Campbell Bower, ator que interpreta Vecna, a lista dos irmãos cresceu até os anos 1990.
— Eles me mostraram um filme inesperado chamado “Cidade das sombras”, feito pouco antes de “Matrix”, e os dois são visualmente bem parecidos porque usaram os mesmos cenários — diz o ator, que esteve em São Paulo no fim de semana passado, num evento para fãs. — Para meu personagem, “O Iluminado” (1980) foi uma grande referência nesta quinta temporada.
Pode anotar: Diana Ross e Linda Hamilton são as divas da quinta temporada. A primeira por causa de “Upside down”, hit de 1980 que leva o nome do “Mundo invertido” em inglês, finalmente incluído na trilha sonora da série como os fãs pediam há tempos. A segunda, inesquecível em “O exterminador do futuro” (1984), entra no elenco como a cientista-chefe da base que Exército americano instalou em Hawkins.
— O que torna esta temporada única é que ela começa um pouco caótica — disse Ross. —Normalmente, mostramos a vida normal dos personagem e só depois introduzimos o elemento sobrenatural.
Os Duffers prometem uma quinta temporada menos violenta do que a quarta, mas guardaram para o final a “morte mais sangrenta” de toda a história.
— O final mesmo da série é algo que temos em mente há muito tempo — disse Matt ao GLOBO. — O que sempre foi um alívio, porque isso nos deu uma espécie de estrela-guia. Então, ela termina do jeito que sempre imaginamos que terminaria.
O ator Noah Schnapp, o Will, garante muita emoção no capítulo final e respostas para todas as perguntas. Sadie Sink, protagonista da cena da temporada quatro que levou a música de Kate Bush “Running up the hill” ao Top 10 Hot Billboard pela primeira vez, disse ao GLOBO que os fãs terão exatamente aquilo que desejam. Jamie Campbell Bower concordou:
— O final é incrivelmente apropriado para uma história que eu também adoro como fã. E quando eu peguei o roteiro, fiquei pensando: como é que eu vou fazer isso?

