Este conteúdo faz parte da newsletter Meus Filhos, Minhas Regras?, que responde a perguntas de pais, mães e cuidadores todas as semanas. Inscreva-se gratuitamente para receber toda quarta-feira no seu e-mail. Veja como enviar sua pergunta ao final desta reportagem.
- Todas as dúvidas: veja a lista de perguntas de pais e mães já respondidas nesta newsletter
- E mais: Quando posso deixar meu filho ter um perfil nas redes sociais?
“Criança pode usar maquiagem? Mesmo aquelas de brincadeira? Isso é saudável do ponto de vista psicológico e também dos cuidados com a pele?”
Ao ouvir as especialistas que trazemos nesta edição da newsletter, percebi que a conversa sobre maquiagem e infância é mais complexa do que parece à primeira vista.
As respostas me surpreenderam especialmente quando falamos dos possíveis impactos à saúde das crianças, que vão de irritações a riscos ao sistema hormonal.
São informações que muitos de nós simplesmente não conhecemos. E é justamente por isso que são tão importantes. Antes de dizer “sim” ou “não” para os filhos, precisamos entender melhor o que está em jogo.
Por isso, aqui vai a minha recomendação: vale compartilhar esse conhecimento com as próprias crianças e mostrar que nossas decisões não são arbitrárias. Eu fiz isso em casa com o que aprendi sobre maquiagem.
Deixo o meu convite: se você tem dúvidas sobre a educação dos filhos (crianças ou adolescentes), envie sua pergunta ao final desta reportagem. Muitas vezes, a sua angústia é a mesma vivida por outras famílias.
- Divergências: O que fazer quando os cuidadores divergem sobre a educação da criança?
Palavra das especialistas 👩🏫👨🏫
Flávia Haikal – Dermatologista com mestrado pela Sociedade Brasileira de Dermatologia e UFRJ
💄 Nos últimos anos, junto com a onda de “skin care” para crianças, o uso de maquiagem pelo público infantil aumentou muito. Abaixo dos 3 anos, é completamente proibido. Acima dessa idade, há alguns produtos liberados. Ainda assim, do ponto de vista médico, a recomendação é ter cautela máxima antes dos 12 anos.
🧴 O principal problema está na composição. Muitas maquiagens, inclusive as infantis, podem conter metais pesados como chumbo, mercúrio e níquel. Esses componentes estão associados a risco neurológico, alergias e intoxicação. Além disso, é comum encontrar parabenos, fragrâncias artificiais, formaldeído, talco contaminado e corantes, substâncias que podem provocar dermatites de contato, irritação ocular e reações alérgicas.
⚠️ O ponto mais preocupante são os chamados disruptores endócrinos. Algumas dessas substâncias têm potencial para interferir no sistema hormonal da criança. Isso significa que podem provocar desregulação hormonal, com impactos no desenvolvimento, seja por estimulação excessiva ou insuficiente. Como o sistema endócrino ainda está em formação na infância, a exposição frequente merece atenção redobrada.
👶 A pele da criança também é mais vulnerável. A barreira cutânea ainda não está completamente formada, o que faz com que os produtos sejam mais absorvidos do que na pele de um adulto. Quanto menor a criança, maior a absorção e maior o risco. Soma-se a isso o fato de que o organismo infantil ainda não está plenamente preparado para metabolizar determinadas substâncias.
📅 Frequência importa e muito. Usar maquiagem de forma ocasional, em contexto lúdico, como uma festa ou brincadeira específica, reduz bastante os riscos. O problema está no uso diário. Há relatos de crianças que se maquiam todos os dias para ir à escola. A exposição repetida favorece a toxicidade cumulativa, ou seja, o acúmulo de substâncias potencialmente prejudiciais ao longo do tempo.
🏷️ Nem tudo que é “infantil”, “orgânico” ou “vegano” é seguro. Esses rótulos não garantem ausência de substâncias irritantes ou alergênicas. Da mesma forma, receitas “naturais”, como passar beterraba no rosto para dar cor, também podem causar irritações, especialmente com exposição ao sol.
🔎 Se for usar, alguns cuidados são indispensáveis: escolher produtos hipoalergênicos, sem fragrância, com registro na Anvisa e de marcas confiáveis. Em casos muito raros e ocasionais, um produto adulto de boa procedência pode ser menos arriscado do que uma maquiagem infantil de baixa qualidade usada com frequência.
💅 O mesmo raciocínio vale para esmaltes: prefira apenas os que são à base de água, que saem facilmente e têm menor potencial de agressão.
🧪 Em resumo, o que mais se observa são dermatites de contato, alergias, irritações e possíveis problemas respiratórios associados a talco contaminado. Em casos de exposição frequente a determinadas substâncias, há ainda o risco de efeitos hormonais e neurológicos.
- Entenda: Como falo sobre sexo e sexualidade com crianças e adolescentes?
- Leia também: Posso deixar meu filho jogar Roblox?
Esther Fialho – Psicóloga clínica com formação em Gestalt Terapia e Neurociência do Desenvolvimento
👧 E lá vai a criança… Senta-se na mesinha de maquiagem da mãe, olha deslumbrada as caixinhas coloridas e cheirosas, pega um pincel e mergulha no mundo de fantasia experimentando um pouco deste tão misterioso mundo dos adultos. Aqui experimenta ser um pouco como a mamãe, experimenta para conhecer. Crianças, por sua natureza curiosa e investigativa, brincam com tudo aquilo que habita seu universo e, assim, aprendem sobre a vida.
⚠️ Mas nem tudo acaba em brincadeira… Vivemos tempos preocupantes que nos convidam a muitas reflexões. O perverso enraizamento da indústria do consumo infantil e a nossa crônica dependência das redes sociais, impactam a saúde física e emocional das crianças numa delicada fase de desenvolvimento. Os produtos cosméticos possuem substâncias que provocam a puberdade precoce, enquanto o hábito de se maquiar como rotina cultiva uma autoimagem idealizada de beleza, altamente ansiogênico, incompatível com as necessidades da infância.
🧠 É nesta fase que a criança está construindo sua identidade, autoestima e suas formas de se relacionar com o outro. Quando a brincadeira de maquiar ultrapassa os limites saudáveis e passa a ser uma busca constante por corresponder à forma imposta pelos padrões adultos de beleza, a criança constrói inconscientemente a ideia de que para ser aceita socialmente precisa performar neste padrão. Esta adultização precoce se desdobra em sofrimento psicológico profundo, estruturante de uma autoestima insegura baseada em valores estéticos inalcançáveis.
🛡️ O desafio dos pais e da sociedade é proteger esta curiosidade natural, saudável da criança para que não seja capturada pelos estímulos abusivos, nocivos e perversos promovidos de forma explícita ou velada nas redes sociais. Uma infância saudável precisa garantir à criança seu direito de brincar, aprender e conviver, fortalecendo suas características únicas, livre das comparações que fomentam o sentimento de ser insuficiente.
❤️ É nas pequenas atitudes do dia a dia que os pais podem fortalecer a autoestima dos seus filhos, investindo intencionalmente no vínculo de afeto e segurança. As crianças precisam aprender num clima emocional de acolhimento, sem medo de não serem aceitas pelos seus “erros”, por não atender às expectativas muitas vezes incompatíveis com a fase do desenvolvimento da criança.
Além de cuidarmos das estratégias que garantam o afastamento das crianças das telas e redes sociais, precisamos também:
🪞 Prestar atenção em nossos exemplos, atitudes e falas que são como espelho para o comportamento emocional dos nossos filhos.
🤝 Cultivar uma postura empática com os desafios próprios da infância.
🌟 Valorizar as habilidades e características únicas dos nossos filhos.
🎲 Compartilhar seus interesses para que se sintam vistos e importantes.
💬 Validar seus sentimentos, que são legítimos mensageiros de suas necessidades diante das experiências.
🔄 Naturalizar o erro como parte do processo de aprendizagem, estimulando assim sua autoconfiança.
🧩 Focar na resolução de problemas e não em punição.
💡 Muitas vezes nos sentimos inseguros nesta difícil tarefa de educar em tempos com informações abundantes. Por outro lado, nunca tivemos tanto conhecimento de qualidade que nos apoiam a superar as adversidades naturais da vida. Hoje sabemos que a saúde emocional na infância impacta diretamente as etapas seguintes da adolescência e da vida adulta. Precisamos cuidar.
- Autonomia: Qual o momento certo para os filhos andarem sozinhos na rua?
- Amizades: O que fazer quando a criança diz que não tem amigos?
Dicas importantes na hora da escolha dos cosméticos para crianças, segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária):
A escolha de marcas confiáveis que tenham histórico como fabricantes de cosméticos infantis é fundamental. É importante ainda verificar se o produto apresenta o número de registro ou número do processo na embalagem. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, é responsável pela regularização de produtos cosméticos, incluindo os infantis. Veja alguns cuidados recomendados pela Anvisa abaixo de acordo com o boletim emitido pela agência em 2016.
MAQUIAGENS INFANTIS 🎨👧
Um requisito essencial para a maquiagem infantil é ser facilmente removida da pele pela simples lavagem com água, sabonete, xampu ou produtos semelhantes e a destinação única permitida é colorir a pele ou lábios. Cada produto deve ser submetido a testes específicos antes de sua comercialização para comprovar que não irrita e não causa reações alérgicas na pele. A Anvisa define a faixa etária permitida, portanto, é importante verificar na rotulagem para qual idade destina-se cada produto.
ESMALTES INFANTIS 💅🧒
Esmaltes permitidos para crianças devem ter a indicação de que eles servem unicamente para colorir as unhas. Devem, ainda, ser removidos com água e sabonete. Por não possuírem solvente, o cheiro dos esmaltes infantis é bem diferente do cheiro dos esmaltes para adultos. O fabricante de cada produto deve realizar testes para avaliar o potencial de irritação e sensibilização. Deve também testar se os ingredientes são tóxicos se levados à boca. O rótulo deve possuir orientações e advertências de uso, e o produto só deve ser utilizado por crianças a partir de 5 anos.
BATONS E BRILHOS LABIAIS 💄💋
Os batons e brilhos labiais não são recomendados para o uso diário. Como nos demais produtos infantis, a fórmula deve ser composta por ingredientes seguros. Antes de comercializar esses produtos, a empresa deve comprovar, junto à Anvisa, a ausência de irritabilidade e sensibilização da pele e avaliar se os ingredientes são tóxicos. O rótulo deve possuir indicações de segurança específicas incluindo a indicação da faixa etária de uso do produto. Não é permitido indicar os produtos para crianças menores de 3 anos. A partir dessa idade, o produto deve ser aplicado por um adulto, e para crianças maiores de 5 anos o uso deve ser supervisionado.
Maquiagens para boneca e outras comercializadas como brinquedos não podem ser utilizadas em crianças, pois não são formuladas com ingredientes próprios para a pele infantil e não são seguras.

