Um caldeirão que conta uma história de 70 anos muito particular sobre o Leblon: essa é a Cruzada São Sebastião, um conjunto com dez prédios de sete andares, escondido entre o luxuoso clube Monte Líbano e o shopping mais caro do Rio. Esse território é palco de uma disputa histórica, e abriga hoje apenas algumas poucas “relíquias”, como são chamados os primeiros moradores da Cruzada. Eles vieram da favela Praia do Pinto, localizada às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas e extinta em 1969 após sucessivos incêndios.
— Viemos remanejados de barracos sem saneamento, sem água, em muita vulnerabilidade. Foi maravilhoso a gente se deparar com água dentro de casa, com um vaso sanitário, foi a realização de um sonho — afirma Joel Luís Nonato, 72, que mora na Cruzada desde a sua inauguração e hoje é presidente da Associação de Moradores. — Agora, temos aproximadamente cinco mil habitantes lá, sendo que quem veio da favela é minoria. Muitos são emergentes. O propósito do local mudou muito — completa.
Durante muito tempo, os moradores do Leblon enxergaram o espaço como uma favela. Mas Soraya Simões, professora do Instituto de Planejamento Urbano e Regional (IPPUR – UFRJ) e doutora no assunto, afirma que ele sempre foi um conjunto habitacional:
— O que define a favela? É uma questão estética, fundiária? Depende da perspectiva. Porque no próprio asfalto existem elementos que poderiam caracterizar favelas, mas estão no asfalto. Ali é diferente: a Cruzada recebeu moradores de favela, mas foi pensada como um lugar de habitação de pessoas de baixa renda — explica a professora.
Atualmente, a associação ainda luta contra essa estigmatização. Joel vê o espaço como um conjunto residencial e sonha que, um dia, seja um condomínio do Leblon.
A Cruzada foi idealizada no 33º Congresso Eucarístico, em 1955, durante as obras do Aterro do Flamengo, aceleradas para receber o evento com autoridades do alto clero, como o Cardeal Montini, que viria a ser o Papa Paulo VI. Foi nesse contexto que Dom Helder Câmara, então bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro, se inspirou em experiências de urbanismo católico mundo afora — como as iniciativas de Abbé Pierre, nas periferias de Paris — e articulou, com o Banco da Providência, a criação da Cruzada São Sebastião.
A proposta era oferecer dignidade a parte dos moradores da Praia do Pinto, mantendo-os próximos ao trabalho e ao lazer, e — com base em critérios morais cristãos — formar uma nova comunidade urbana.
— Malandro não morará no Bairro de São Sebastião. Procedemos a uma seleção rigorosa, contando com a valiosa cooperação de militares e senhoras da nossa sociedade — declarou Dom Helder ao Globo, em 1956.
Moradores que não foram escolhidos para se manter no Leblon acabaram removidos para conjuntos habitacionais em bairros distantes, como Cordovil, Penha, Cidade de Deus e Cidade Alta. No terreno da antiga favela foi construído o conjunto Selva de Pedra, com 2.251 apartamentos destinados prioritariamente a militares.
O objetivo da Cruzada era ambicioso: mais do que um abrigo, o conjunto deveria ser símbolo de superação da luta de classes, contrariando a lógica de “varrer o pobre para longe do patrão”. Apesar da proposta progressista, porém, desde o início a Cruzada é um espaço de disputa. Fisicamente inserida no coração do bairro mais valorizado da cidade, nunca escapou do isolamento simbólico e do preconceito social. Ainda assim, como destaca Joel, a comunidade se reinventa.
— Antigamente a coisa era feia. As pessoas tinham muito preconceito. E os moradores tinham baixa autoestima, revolta. Hoje está muito diferente. Temos universitários, procuradores de Justiça, advogados, médicos. Houve um crescimento no nível de educação — relata o presidente da associação.
Soraya lembra que, durante sua pesquisa, criou com a PUC e a associação de moradores o jornal Visão Cruzada, que durante seis meses retratou a vitalidade local sem menções à violência. Diferentemente do que costumava mostrar a imprensa, ali a Cruzada aparecia como promotora de cultura, esporte e vida comunitária.
— A violência que reportamos era a da entrada violenta da polícia. Em uma habitação com recorte de baixa classe social, majoritariamente negra, o Estado entra mesmo. O jornal branco olha para a Cruzada como espaço de ameaça. Quando um comete um delito, todos estão estigmatizados. Cansei de ouvir: “Meu filho não sai de casa sem documento no Leblon. Qualquer coisa que acontecer, vão colocar a culpa no menino” — afirma a professora.
Área privilegiada à sombra do boom imobiliário
Nos últimos anos, o bairro passou por um boom imobiliário — com a chegada do metrô, do Shopping Leblon e da revitalização do Jardim de Alah. Soraya alerta que a regularização fundiária tem servido de ponte para a entrada do mercado imobliário, esvaziando a proposta de habitação de interesse social.
— Se esses imóveis entram no mercado comercial, quem tem menos recurso não vai conseguir mais se sustentar ali. É bom que os moradores saibam disso. Esse mercado não é de interesse coletivo, é de interesse individual — ressalta.
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Ela destaca ainda os vínculos comunitários como parte essencial da Cruzada:
— Entre os moradores existe uma grande articulação, um cuidado. A Cruzada tem muitos olhos que se ocupam do cotidiano. Todos são amigos. As mulheres cuidam do corpo umas das outras. É diferente dos condomínios do entorno.
Para Joel, porém, o boom também trouxe benefícios:
— Gerou empregos, renda, valorizou os imóveis, aumentou a autoestima. Atraiu empresas como a Hashtag, que equipou um espaço da associação com computadores. Outra parceria com uma professora da UFRJ trouxe francês para as crianças — aponta.
Hoje, Joel conta que os aluguéis no conjunto variam entre R$ 1.200 e R$ 3.000, dependendo do tamanho dos apartamentos.
À margem dessa disputa, a Cruzada segue cultivando sua memória e sua identidade. Joel cita o forró, o pagode, as feiras gastronômicas e de artesanato como formas de manter vivas as raízes do território.
— Não pode perder a identidade, não! — resume Nonato.
Soraya destaca que a história da Cruzada está pintada nos muros, nos nomes dos prédios, nos eventos culturais e esportivos promovidos pela comunidade:
— Lugar muito vivo, animado, com vários coletivos. Tem uma memória muito cultivada ali, diferente dos outros condomínios do Leblon. Talvez a mais importante contribuição seja essa: a memória de lutas sociais. Direito ao lugar, direito à cidade — afirma.
A Cruzada foi palco da primeira Parada LGBT do Leblon, recebeu a mostra “Dom Helder Vive” e abrigou o projeto Museu dos Grandes Personagens da História do Brasil, com nomes como Zumbi, Betinho e Vinicius de Moraes. Também revelou atletas e artistas, como a atriz Zezé Motta.
O futuro do conjunto, como lembra Soraya, depende da preservação dessa memória, dos vínculos e do compromisso com a permanência dos moradores que ajudaram a construir sua história.
— O futuro possível é que as pessoas não se esqueçam de tanta luta, que conseguiu fazer com que a Cruzada existisse e permanecesse — conclui.