Professor de Antropologia da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Ciências, com pesquisas sobre catolicismo, o antropólogo Rodrigo Toniol avalia que o grupo de 135 cardeais que elegerão o sucessor do Papa Francisco — morto nesta segunda-feira — pode se converter em “um legado muito duradouro” de seu papado. Além de mudar o perfil da Cúria Romana pelas próximas décadas, um impacto imediato pode ser um conclave mais longo, segundo Toniol.
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Os processos de escolha dos últimos antecessores de Francisco, os Papas Bento XVI (2005-2013) e João Paulo II (1978-2005), duraram dois e três dias, respectivamente, e estão entre os conclaves mais curtos da Igreja.
Toniol, que presidiu entre 2018 e 2022 a Associação de Ciências Sociais das Religiões da América Latina, enxerga ambiguidades no legado “reformista” do Papa Francisco, e afirma que um desafio que seguirá na ordem do dia do próximo Pontífice é o combate a abusos sexuais envolvendo lideranças da Igreja, chaga que veio à tona ainda no papado de Bento XVI.
O pesquisador, por outro lado, avalia que Francisco conseguiu “recuperar a imagem da Igreja Católica de maneira positiva e empática”, com acenos relevantes à pauta ambiental e à ciência. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
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Uma das últimas imagens do Papa Francisco terá sido seu encontro com o vice de Trump, JD Vance. O quanto esta atuação como um “player” geopolítico, por vezes de forma antagônica a outros líderes, o diferencia de seus antecessores papais?
Por um lado, o Papa Francisco fez uma inflexão em termos de circulação internacional, não apenas viajando dentro da Europa, como era o caso do Bento XVI. Curiosamente, não viaja para a Argentina, seu país natal, o que é uma das ambiguidades de seu papado. O Papa João Paulo II foi chamado de “Papa peregrino”, mas não necessariamente isto mudou a maneira das escolhas para a Cúria Romana. Francisco foi um “Papa desbravador”, que cria outras redes de relações políticas da Igreja Católica e faz acenos concretos dentro da Igreja, transformando, por exemplo, a escolha de cardeais.
Francisco fez a Cúria Romana ser mais internacional, e isso talvez seja um legado muito duradouro de seu papado. Os próximos Papas vão conviver com um Colégio Cardinalício colocado lá quase todo por Francisco, com os critérios e relações políticas deste momento.
Isto sugere que o próximo papado será de continuidade?
Francisco tomou para si a ideia de escolher cardeais de diferentes lugares. Isto significa que o atual colégio é menos europeu e mais do que chamamos de Sul Global, mas não necessariamente que eles sejam alinhados com sua perspectiva política ou que farão continuidade. Há uma série de concessões que precisam ser feitas nessas escolhas, como a relevância de determinados lugares.
De todo modo, é algo diferente da escolha do Papa João Paulo II, quando a maioria dos cardeais eram italianos, ou seja, as relações vinham sendo costuradas desde o seminário. Já no próximo conclave, é razoável esperar que seja mais demorado, justamente porque esses cardeais não se encontram o tempo inteiro.
O senhor compilou dados do Vaticano que mostram que o catolicismo tem crescido mais na África e na Ásia. Qual será o peso disto no conclave?
Não necessariamente a escolha de um Papa está associada a critérios como esse. Pode ser que optem por um Papa europeu para fazer um aceno frente ao processo de secularização da Europa, e países como Espanha, Polônia e Portugal mantêm taxas altíssimas de católicos. Mas se o critério for acenar à distribuição de fiéis, além da expectativa de ainda mais crescimento na Ásia, há hoje um fluxo bastante significativo de doações, sobretudo do catolicismo sul-coreano. No caso da África, o catolicismo cresce três vezes mais do que o pentecostalismo no Brasil, o que não é pouca coisa.
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O avanço evangélico sobre “mercados religiosos” onde o catolicismo predomina há séculos, como a América Latina, tende a ser um desafio prioritário do próximo Papa?
Um desafio já colocado, e que atravessou os dois últimos papados, é o de escândalos envolvendo abusos sexuais por parte de sacerdotes pelo mundo. Faltam respostas à altura, e isso abala a confiança na Igreja. No caso do crescimento evangélico, acredito que o desafio do catolicismo latino-americano, mais do que conter outras religiões, é ser capaz de reter fiéis. E me parece que o Papa Francisco, ao recuperar uma imagem empática da Igreja Católica, conseguiu de alguma maneira atualizar a Igreja para os próprios católicos.
O Papa Francisco foi tão reformista quanto esperado?
As reformas necessárias na Igreja dependem de reuniões conciliares e de algumas confluências internas que não ocorreram nesses 12 anos. Mas como figura individual e líder global, ele conseguiu se colocar de forma muito objetiva em temas como ecologia, crise migratória e contra o negacionismo na Covid. E fez com que a Igreja Católica não perdesse relevância no século XXI, o que é uma marca importante de seu papado.
