Maisa Byington já estava completamente fascinada com a ideia de uma exposição dedicada às obras de Darel Valença Lins, num momento em que se celebra o centenário de seu nascimento. Mas, ao entrar numa das salas da mostra no Centro Cultural Correios, no Centro do Rio, teve certeza de haver motivo concreto para seu deslumbre. Seu olhar para as telas revelava tudo. Fato é que tal admiração se deve muito à relação que tinha com o autor das telas: seu ex-marido e, posteriormente, um grande amigo, morto em 2017, aos 92 anos.
Parte das 93 obras, entre litografias, gravuras e colagens que compõem a exposição “Darel — 100 anos de um artista contemporâneo”, saiu da coleção particular de Maisa. A curadoria é assinada por Denise Mattar, que já era grande amiga da paulista, hoje com 95 anos. Elas reforçaram tal ligação a partir do artista pernambucano.
— Eu sabia que ele era um bom artista, mas ainda não sabia que era um grande artista. Eu não sabia desses caminhos dele — admira-se Maisa, que foi casada por 15 anos com Darel.
A exposição, de fato, nasceu 20 anos atrás. Denise tinha um desejo antigo de realizar uma mostra sobre Darel, mas o projeto acabou não indo para a frente. Entretanto, foi naquele ano de 2005 que a relação com Maisa despertou uma admiração em comum pela produção artística do gravador.
A mostra não é uma retrospectiva da produção de Darel, frisa a curadora. Ainda assim, os trabalhos reunidos oferecem um amplo e sensível panorama de sua trajetória — desde obras dos anos 1950 até uma série de videoartes realizadas em seu ateliê, em São Conrado, Zona Sul do Rio, nos anos 2000, apresentadas por meio de um curta de Allan Ribeiro.
— Para fazer uma retrospectiva de fato do Darel, a gente teria que ter muito espaço, porque ele produziu muito. Não seria justo com ele fazer uma retrospectiva dessa maneira — afirma Denise, acrescentando que o artista nasceu em condições difíceis na cidade de Palmares (PE). — Darel, na verdade, tem uma história extraordinária, nasceu num lugar completamente rudimentar. Mas ele já tinha tão forte dentro dele essa necessidade de pintar, que, com 13 anos de idade, foi trabalhar como desenhista técnico em uma usina.
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Ainda perseguindo o sonho de ser artista, Darel se mudou para Recife e passou a estudar na Escola de Belas Artes da cidade. Mas a experiência não deu muito certo. Ele rejeitava os moldes das artes gregas que recebia dos professores e preferia desenhar mulheres, uma marca que seria observada em sua produção décadas depois e que também ganha grande destaque na mostra.
— Ele queria desenhar as artistas de cinema das revistas que ele pegava. Antes mesmo disso, nas aulas de catecismo, Darel foi encontrado com uma revista vendo as fotos, e o padre falou com a mãe dele. A mãe chorou — diverte-se Maisa sobre as histórias que o ex-marido lhe contava.
O primeiro encontro com Maisa aconteceu na década de 1960. Nessa época, ele já fazia desenho, gravura em metal, óleo, guache e pastel. Fazia obras com uma mesma matriz de metal, mas inseria cor apenas numa delas (como as que estão na mostra, em que a tinta vermelha conduz a interpretações diversas). Era um artista com algum renome, tendo ganhado um prêmio de viagem ao exterior com uma tela — e que pode ser vista na exposição.
— Darel foi o artista que deu à litografia o status de arte. Até então, era vista como um processo industrial — acredita Denise. — Hoje em dia, a gravura não é valorizada, porque não tem interesse para o mercado de arte por ser barata. Na verdade, os artistas dos anos 1950, principalmente, são muito bons. O Brasil teve grandes gravadores, expusemos muito fora do país.
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Darel havia entendido o que fazer. Já em seus últimos anos de vida, ao ter contato com a videoarte, disse à filha, Mariana Byington Valença Lins, como confeccionava seus trabalhos:
— Ele dizia: “É preciso ultrapassar a técnica. Você tem que esquecer que existe uma técnica quando está olhando uma obra. Um artista bom é aquele em que você não vê a proeza técnica. Você esquece até do que é feito o quadro.”
Mariana teve essa percepção ao olhar o conjunto panorâmico do trabalho de Darel:
— Conhecia meu pai de quadros que eu vi em casa. Isso tudo é um outro lado do meu pai que, realmente, eu não sabia que existia. Tive muito mais acesso ao lado pai dele, não o lado artista. Agora, estou entendendo mais a obra de uma maneira completa.