Desde que me entendo por gente, a intuição dizia que dirigir não era, pra mim, uma habilidade natural. Não fui aquela criança cheia de entusiasmo pelo dia em que poderia sentar no banco da frente — na verdade, não queria nem ocupar a posição de carona. Até que a maioridade chegou e, com ela, um carro de presente do meu pai. Era como a continuidade do legado do meu avô, que teve o mesmo gesto com o filho no início dos anos 90. E era, também, a repetição do estigma de que todo homem deseja ter um carro e que isso significa um traço primordial de masculinidade.
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Com o carro na garagem, fiz todo o processo da autoescola e marquei a prova prática, que acabou adiada por sete meses devido ao início da pandemia da Covid-19. Se já havia um desinteresse pela direção, o período de isolamento me afastou ainda mais do desejo de dirigir. Por outro lado, acho que a falta de empolgação relacionada à habilitação fez com que eu chegasse tranquilo ao exame, em Sepetiba, na Zona Oeste do Rio. Não perdi nenhum ponto e saí de lá com a carteira de motorista provisória.
Devidamente habilitado, dizia para mim mesmo que não deveria dirigir muito porque ainda não tinha a técnica necessária e, caso levasse multas, poderia perder o documento. Acreditar que adotava essa postura por questão de segurança era, porém, uma forma de mentir para mim mesmo: eu só tinha medo de dirigir. Era mais fácil dizer que não fazia por não ser prático naquele momento do que admitir que minha perna tremia quando estava próximo de uma ladeira ou precisava passar por um cruzamento, por exemplo.
De lá pra cá, dirigi no máximo 20 vezes em cinco anos. O saldo foram duas batidas e muitas situações em que a ansiedade dizia para mim que era o carro quem tinha o controle, não eu. Nesse meio tempo, me mudei para a casa da minha avó para facilitar o deslocamento de transporte público para o trabalho ou faculdade — ganhando, assim, um motivo para justificar o porquê de o carro ficar parado na garagem.
Ainda assim, a pressão para que eu dirigisse era forte na família. Decidi estabelecer uma meta com a minha namorada: ela faria a autoescola, e eu voltaria a dirigir. Um ajudaria o outro. Enrolei o quanto pude, achando que ela desistiria antes de conseguir a habilitação. Até que, na quarta prova prática, ela passou faltando um dia para o vencimento do Registro Nacional de Consultores Habilitados (Renach). Caso o prazo vencesse, ela teria que recomeçar todo o processo. Depois que ela conseguiu a carteira, a consciência começou a pesar e decidi que, se ela não desistiu, eu também não poderia. Mas sabia que precisava entender o meu medo para conseguir superá-lo.
O primeiro passo foi renovar a carteira de motorista, vencida em novembro do ano passado. E já veio o primeiro sinal vermelho: fui reprovado no exame de vista do Detran. Entrei na clínica com um sonho e saí com uma recomendação para uma consulta com um oftalmologista. Meus óculos com apenas meio grau para astigmatismo já não eram mais úteis. Quando refiz o teste — e passei —, usava um novo, para dois graus de miopia.
Em busca de alternativas, encontrei nas redes sociais o perfil de Valéria Aguiar, que soma 355 mil seguidores no Instagram, onde ela promete ajudar a “vencer o medo de dirigir em 21 dias”. Embora o trabalho seja voltado sobretudo para mulheres, iniciamos um acompanhamento de mentoria em Programação Neurolinguística (PNL) em maio.
Ao longo de seis reuniões, ela me ensinou exercícios para mostrar ao meu cérebro que a direção poderia ser encarada como uma oportunidade de me fazer feliz. Desde a respiração até a postura, tudo influencia a superação do medo. As técnicas combinam os cinco sentidos para reprogramar os sentimentos negativos.
Foi necessário jogo de cintura para conciliar o trabalho e as aulas de mestrado com a execução diária dos exercícios propostos pela Valéria. Em muitos ocasiões, fiz as técnicas no metrô, a caminho da redação do GLOBO. Era o tempo possível. Superar esse medo era algo que eu precisava enfrentar, apesar de muitas vezes uma voz sabotadora dizer que eu não seria capaz. Mas não abri a possibilidade de me paralisar para pensar “e se não der certo?”. Entrei nessa experiência com o pensamento de que faria o que fosse possível.
Durante esse percurso, entendi que a raiz dos meus temores não estava no ato em si de encarar o trânsito, mas sim em aspectos relacionados à ansiedade. Receava enfrentar situações que eu não soubesse resolver ou que me fizessem sentir vergonha da minha (falta de) habilidade ao volante. Percebi que a virada de chave — na ignição — só ocorreria quando eu dissesse para mim mesmo: “Eu tenho controle do carro”. E que dirigir me faria feliz.
Enquanto aprofundava as reflexões, foi muito importante uma tarde de troca de vivências com outras alunas da Valéria no curso Mulher do Volante. Os motivos pelos quais elas decidiram encarar o medo eram variados, desde levar o filho autista ou com síndrome de Down na terapia até a busca por independência para sustentar uma separação. Ouvir histórias de sucesso me fizeram acreditar que eu também poderia chegar lá.
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O passo final foram sessões práticas com o Espaço Libertas, que oferece aulas para habilitados. Logo na primeira, a chuva caiu. Nunca tinha dirigido com as vias alagadas, mas estava confiante. Àquela altura, já sentia segurança na minha habilidade e também confiança no instrutor, Rafael, que teve uma abordagem paciente e didática, algo que nunca havia vivenciado durante meu tempo no volante. Foi um espaço seguro para errar, questionar e insistir até acertar.
Com todo o preparo psicológico, iniciei as aulas sem os tremores nas pernas ou nas mãos. Tive momentos de ansiedade antes de sair de casa, mas chegando lá, quando segurava o volante e baixava o freio de mão, sentia que estava no controle. Encarava a minha imagem no retrovisor: eu me via como motorista.
Meu maior receio foi enfrentado na terceira aula, a pedido meu: a tão temida ladeira. Levei o carro até uma via inclinada no Humaitá, a aproximadamente 10 minutos da autoescola. Subi na primeira marcha até que o Rafael me disse para parar o carro e, depois, avançar sem deixar que ele caísse. Era para ir liberando a embreagem até começar a sentir uma pressão. Nesse momento, eu precisaria soltar o freio e contar que a embreagem seguraria o carro paralisado, até que eu pisasse no acelerador e continuasse a subida. Peguei rápido a técnica. Talvez, se eu tivesse sido ensinado desta forma quando aprendi a dirigir, teria evitado uma batida com o carro da minha madrinha enquanto tentava sair de uma vaga numa ladeira.
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O último dia de treino foi numa segunda-feira. Fiz o trajeto da autoescola, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, até a redação do jornal, no Centro. Pensar nessa possibilidade antes de começar esse desafio era impossível. Um trajeto longo e que passasse por túneis era algo de que eu certamente fugiria. Mas consegui, e sei que dirigi bem.
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Hoje, tenho certeza da minha capacidade ao volante e não tenho mais medo de dirigir. Ainda preciso de prática, claro, mas estou animado para me aperfeiçoar. E não me sinto mais paralisado. Posso dizer que o caminho até aqui trouxe reflexões para além dos dilemas da direção. Ao fim, saio dessa experiência com a sensação de que preciso confiar mais nas minhas habilidades e com um novo par de óculos.
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*Luis Felipe Azevedo é repórter do jornal O GLOBO