Com eles, cada viagem é uma experiência única e também uma oportunidade de criar conteúdo. Em mais uma frente da onda da “instagramização” das profissões, motoristas de aplicativos como Uber e 99 têm chamado atenção nas redes sociais com apostas inusitadas, que vão da oferta de karaokê à presença ilustre de pets no carro, e relatos de histórias curiosas presenciadas no dia a dia ao volante. Os “ubers influencers” contam com uma ajudinha dos próprios passageiros para fazer registros que geram uma enxurrada de likes e visualizações. Os vídeos garantem sucesso digital e, em alguns casos, até uma renda extra, mas demandam cautela para não ferirem a privacidade e levarem a processos judiciais.
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Motorista de aplicativo há nove anos, Armênio Pipa transformou há quatro meses o carro em karaokê, com direito a microfone, luzes coloridas e tela para acompanhar a canção. Diariamente, o motorista roda cerca de oito horas pelas ruas do Rio e quem topa entrar na brincadeira tem seu vídeo publicado no Instagram.
— Decidi fazer o karaokê porque via que as pessoas ficavam no telefone e falavam pouco, estavam sempre desanimadas. Nunca imaginei que ia tomar a proporção que tomou — conta.
Pipa estima que 900 passageiros já soltaram a voz em seu carro e garante que é muito raro alguém se recusar a cantar. Para evitar problemas com as postagens, faz questão de pedir a autorização para filmar e postar:
— Nunca tive problema. Pelo contrário, ficam me mandando mensagem perguntando a hora que vou publicar.
A terapeuta e criadora de conteúdo Fernanda Cristina da Silva conheceu o Pipa na rede social e solicitou uma corrida particular para se divertir no karaokê junto com uma amiga. Kelly Key e Anitta foram algumas das cantoras homenageadas na viagem:
— Quis conhecer porque gosto de cantar e me surpreendi com a experiência, foi mais legal do que imaginei. A energia dele é muito contagiante.
Em Teresina, o Uber do servidor público Ariano Silva também faz sucesso, mas o mérito é do Bruce, o buldogue francês de 2 anos de 9 meses que o acompanha nas corridas. A presença do pet é anunciada de surpresa ao passageiro no momento em que entra no carro — e ele pode escolher se quer passar o resto da viagem interagindo com o bichano.
— Ele começou a me acompanhar por acidente, quando tinha 4 meses e ainda não podia ficar sozinho. Minha esposa foi para um aniversário em um local que não podia levá-lo e decidi ficar com ele quietinho no carro. Os passageiros gostaram tanto que nunca mais parei de levá-lo — diz o motorista, que tem quase 600 mil seguidores nas redes.
Para dar ainda mais charme, Bruce está sempre fantasiado, com figurinos que vão de cangaceiro e atendente do McDonald’s a Pikachu. No dia em que a estudante de enfermagem Estelle Sarádia pediu a corrida, ele estava de torcedor do Palmeiras, vestido com uma blusa do time paulista.
— Estava indo ao shopping com minha filha, que na época tinha 1 ano e 10 meses. Foi uma surpresa e, como amo animais, uma alegria. O Bruce é extremamente dócil, inclusive foi dormindo quase a viagem toda, amando o carinho que estava recebendo — lembra a estudante.
Já a motorista Michelle Guerra compartilha “causos” das viagens nas redes. Ela viralizou ao narrar a história da namorada de um passageiro que teve uma crise de ciúmes ao ouvi-lo sendo chamado por Michelle pelo primeiro nome — identificação que aparece registrada no aplicativo.
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A partir daí, seus relatos se tornaram quase diários, como o do dia em que buscou uma passageira casada que estava fugindo de um motel ou quando precisou levar um passageiro baleado para o hospital. Com o sucesso dos conteúdos, a motorista começou a investir na carreira de influenciadora e a fazer parcerias e divulgações, principalmente para empresas automotivas.
— A internet virou uma vitrine. Quem sabe se comunicar e mostrar seu trabalho abre portas que antes não existiam. Para mim, é sobre transformar minha rotina em oportunidade e inspirar outras mulheres a serem independentes — diz Michelle.
O advogado Fabio Manoel explica que não há irregularidade na criação de conteúdo, mas alerta que é preciso pedir autorização para gravações e postagens, caso os passageiros apareçam. O cuidado deve ser redobrado se o motorista contar histórias ou mostrar imagens de dentro do carro no estilo “câmera escondida”.
— Mesmo tapando o rosto, se tiver algum elemento que possa identificar a pessoa, e dependendo do que o motorista contar, pode gerar uma ação por difamação ou calúnia.
A visibilidade se estende ainda aos motoboys. Entre os perfis que mostram o dia a dia da profissão, o do condutor da 99 Wagner Duarte Constâncio se destaca. Seu diferencial é um só: se chegar no local de início da viagem e o passageiro demorar, vai ter seu nome chamado em um megafone.
— A ideia surgiu quando fui fazer uma entrega e a cliente não atendia o telefone. Vi um carro vendendo peixe e pedi para usar o alto-falante. Ela logo apareceu. Decidi comprar um megafone — lembra Wagner, que atua como motoboy desde os 18 anos.
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