De ventilador a cesta básica e material escolar, pedidos de presentes escritos à mão por crianças do país todo chegaram em cartas cadastradas no site da campanha “Papai Noel dos Correios”. O projeto, que existe há 36 anos, permite realizar o sonho de milhares de crianças. Na campanha deste ano, mais de 320 mil cartas foram disponibilizadas para adoção e quase 200 mil já foram adotadas no país inteiro até o início de dezembro. O prazo para se tornar um “Bom Velhinho” para esses pequenos varia de acordo com o estado. O cronograma do projeto está disponibilizado no site dos Correios.
- João Pessoa: Leoa que matou jovem em zoológico volta para a jaula após observação por ‘estresse’
- Veja o que muda em 2026: ciclomotores terão licença, capacete e placa, e bicicletas elétricas também ganham novas regras
No site da campanha, ao navegar pelos estados brasileiros, esbarra-se com diversas realidades retratadas em letras recém-aprendidas e desenhos coloridos. No estado de Alagoas um menino de 8 anos pediu de presente de Natal um ventilador, pois onde mora é muito quente e os pais não têm condições de comprar o equipamento.
Já no Piauí, uma menina de 11 anos escreveu que queria ganhar de presente um fone de ouvido e uma cesta básica “para passar o Natal mais alegre”.
Pedidos de bicicleta são dos mais comuns. Mas os motivos variam. Para um menino de 10 anos do Amapá, o meio de transporte é necessário para ele ir à escola, que é longe de casa. Na cartinha, ele explica: “Eu quero uma bicicleta porque minha escola fica longe da minha casa. Não importa se ela seja nova, usada ou seminova”.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/k/s/o97kC1QgqTTbwz2EEGcA/certificado-convidados-controversas-2025-3-.png)
O menino conta que os pais estão desempregados e não têm como lhe dar o presente.
Algumas crianças escreveram cartinhas para pedir presentes para outras. É o caso de uma menina de 10 anos, também do Amapá, que pediu roupas usadas para os primos. “A minha tia não tem condições de comprar roupa para eles”, escreveu.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/1/E/8NKv23Qyajpw1nBsiUtA/whatsapp-image-2025-12-05-at-08.51.31.jpeg)
Além de pedidos, as cartinhas se tornam também um desabafo das crianças. No Maranhão, uma menina de 9 anos escreveu ao Bom Velhinho que desejava a volta das avós que perdeu, mas, entendendo que isso não poderia ser atendido, acabou pedindo um par de patins.
No mesmo estado, um garoto de 8 anos revelou um drama familiar ao contar que não tem o pai presente. “Ele me abandonou quando eu nasci, fui criado pela minha mãe e pelos meus avós. O presente que eu quero é uma bicicleta”, desabafou.
Há 36 anos proporcionando essa experiência natalina, o projeto atravessa gerações que mantêm a tradição de ser o Papai Noel de crianças de famílias desfavorecidas. É o caso de Ana Luiza Oliveira, de 22 anos, de Minas Gerais e da Rita Gimenez, de 19, de São Paulo. A influenciadora digital e modelo Ana Luiza Oliveira, por exemplo, participa do projeto pela segunda vez, influenciada pela mãe.
— Eu via minha mãe apadrinhando algumas cartinhas quando eu era criança, não entendia muito bem, mas hoje consigo ver o quão linda é essa campanha — disse.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/R/1/WXlR79QuyL0qxDvBdGAQ/certificado-convidados-controversas-2025-7-.png)
A modelo afirma que em uma das cartinhas que escolheu apadrinhar, a criança pediu um kit de material escolar e uma barra de chocolate.
— É impossível a gente não se emocionar. Podendo escolher qualquer coisa, uma criança de sete anos pediu um kit de material escolar e uma barra de chocolate, e ainda falou que poderia ser de qualquer marca. Essa cartinha me tocou bastante — falou.
A estudante de Pedagogia Rita Gimenez conta que já foi uma das crianças beneficiadas por esse projeto durante sua infância.
— Participar da campanha me marcou muito, não pelo presente em si, mas pelo gesto. Lembro da expectativa que eu sentia em dezembro, quando passava um carro dos Correios pela rua e, a cada vez, surgia a esperança de que fosse na minha casa — relembrou.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/w/5/Lnmv0cQsercZcuk9czng/whatsapp-image-2025-12-05-at-08.23.17.jpeg)
Para a jovem, que participa do projeto pela primeira vez como “Bom Velhinho” neste ano, as cartas que mais lhe tocaram foram as que pediam presentes simples.
— São pedidos muito humildes, e pensar que muitas vezes esse pode ser o único presente que elas vão ganhar no ano me tocou profundamente — disse Rita. — A que mais me chamou atenção foi a de uma criança que escreveu na carta as coisas boas que havia feito durante o ano e, na hora de escolher o presente, não especificou o que realmente queria e apenas disse: um brinquedo e uma roupa.
Grupo de amigos adota 100 cartinhas
A iniciativa surgiu em 1989 quando os funcionários dos Correios passaram a receber cartas escritas por crianças em situação de vulnerabilidade endereçadas ao velhinho de gorro vermelho. Comovidos com os relatos, os empregados da empresa resolveram atender os pedidos voluntariamente. Logo depois, a ação foi institucionalizada e, desde 2010, funciona em parceria com escolas da rede pública, instituições sociais, creches e abrigos.
Segundo a organização do projeto, cerca de 7 milhões de pedidos foram atendidos em mais de três décadas.
O projeto que nasceu de forma voluntária e solidária continua com a mesma premissa. A analista de 33 anos Elly Dayanne Aragão adotou 10 cartas quando participou da campanha pela primeira vez, em 2023. No ano seguinte, resolveu divulgar a ação entre amigos, e cerca de 50 crianças tiveram seus pedidos atendidos. A ação ganhou força e, em 2025, os pedidos atendidos mais do que duplicaram.
— Este ano, ultrapassamos a marca de 100 cartinhas adotadas e tudo graças às divulgações feitas apenas entre amigos e contatos próximos — disse a paulista. — Muitas pessoas dizem que não devemos expor o bem que fazemos, mas foi justamente vendo uma reportagem e o relato de alguém que havia adotado uma cartinha que me inspirei.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/v/O/SdZ14eT9GS2CfsFZG5WA/certificado-convidados-controversas-2025.png)
Em meio a tantos pedidos, Elly fala sobre um que lhe chamou atenção.
— Muitas sempre chamam atenção, mas uma me doeu o coração. Um menino de Taboão da Serra, São Paulo, me pediu um ventilador, pois sua casa é muito quente e de telha e ele queria passar o Natal feliz com seus irmãos. Vou mandar dois ventiladores e brinquedos a ele — contou.
As cartinhas escritas à mão são enviadas aos Correios pelos pais das crianças ou pelas instituições parceiras. Após serem lidas e selecionadas, ficam disponíveis no blog da campanha ou nos pontos de coleta, disponibilizadas pelos Correios.
Para adotar o pedido, basta acessar o blog, escolher quantas cartinhas desejar, comprar o presente e entregar em uma agência dos Correios. De acordo com a organização, cada estado tem o seu cronograma.
*Estagiária sob supervisão de Daniela Dariano

