Quando soube que o ídolo e amigo Milton Nascimento estaria de fora da cerimônia do último Grammy, Esperanza Spalding não queria mais ir à premiação — que aconteceu no último dia 2 de fevereiro, em Los Angeles.
Indicados na categoria de “Melhor álbum vocal de jazz” por “Milton + Esperanza” (2024), os dois foram convidados para a cerimônia. Enquanto Esperanza estaria em uma das mesas principais, no entanto, a organização do evento destinou a Milton um lugar nas arquibancadas da arena, “desconsiderando não só toda a sua trajetória e prestígio em todo o mundo, como a sua idade avançada e impossibilidade de subir ou descer escadas”, segundo comunicado oficial divulgado nas redes do artista, que optou por se ausentar da cerimônia.
- ‘As bruxas de Salém’: peça com Carmo Dalla Vecchia e Vannessa Gerbelli liga perseguição do século XVII a temas políticos atuais
- Em Curaçao: Ricky Martin, Snoop Dogg e mais agitam festival que comprova a força da música latino-caribenha
— Ele deveria estar lá com todos os maiores nomes da música porque, para mim, ele é o maior nome da música. Um dos maiores. Então, eu estava decidida a não ir e ficar com o Milton e o seu filho (Augusto Nascimento) para assistir ao Grammy pela TV — conta a artista, que volta ao Brasil este mês para uma série de três shows, entre Belo Horizonte (14), Rio de Janeiro (18) e São Paulo (20). — Mas meus amigos e família diziam: “Protestar não indo não muda nada”. E tive essa ideia: “Se eles não deram um lugar para o Milton, eu vou levá-lo comigo para o meu lugar” (risos).
Dito e feito. Esperanza fez uma placa com a foto de Milton e os seguintes dizeres: “This living legend should be seated here!” (“Essa lenda viva deveria estar sentada aqui!”). Quem acabou levando o troféu de “Melhor álbum vocal de jazz” foi a americana Samara Joy (que, em 2023, venceu como “Melhor artista revelação”, categoria em que concorria com Anitta).
Amigos há mais de uma década (os dois se apresentaram juntos no Rock in Rio, em 2011), Esperanza e Milton não escondem a admiração que nutrem um pelo outro.
— Ele está sempre falando a verdade — responde prontamente, ao ser perguntada sobre o que mais admira no brasileiro. — Seja na escrita, na música, na presença, no canto. É uma combinação. Ele é uma pessoa muito verdadeira. É autêntico e fiel a si mesmo e aos outros.
Agora, depois de se apresentar no The Town, em 2023, e de dar uma palinha no “Samba do Pretinho (da Serrinha)”, no final do último ano, a cantora volta ao país para os primeiros shows em solo brasileiro depois do lançamento do álbum com Bituca. As expectativas são as melhores possíveis.
— Quando formos ao Brasil, com certeza vamos tocar mais canções do “Milton + Esperanza” do que estamos tocando em outros lugares — comenta. — Eu amo muito todas as músicas (que estão no show). É por isso que as estou tocando (risos). A gente nunca sabe quais serão, naquela noite, as que realmente vão se conectar com alguém na plateia. Nunca se sabe. Mas todas são lindas e se complementam. São como personagens em uma peça de teatro.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/g/P/s7poK5R8Ct59FfJscpGQ/107725589-sc-rio-de-janeiro-rj-17-07-2024-entrevista-com-os-musicos-milton-nascimento-e-espera.jpg)
Entre um show e outro, Esperanza (que tem ouvido bastante as músicas da mineira Luiza Brina) deve visitar os muitos amigos que tem espalhados pelo Brasil. Sobre a relação com as terras brasileiras, a americana comenta que “é abstrato demais falar sobre a conexão com uma nação”. Ao invés disso, ela diz que consegue se identificar com as semelhanças “das nossas histórias coloniais”.
— Como alguém que é cidadã dentro de um projeto colonial muito parecido (com o do Brasil), eu sinto muita familiaridade, sabe? — afirma. — Os Estados Unidos e o Brasil têm “sistemas de castas” baseados, claro, em renda e cor, e isso é muito parecido com o que temos nos EUA. Então, de um jeito meio estranho, acho que os nossos países funcionam como espelhos interessantes um do outro.