Num certo sentido, o brasileiro Alok continua o mesmo: o ídolo da música eletrônica de massa, que no camarim do Rock in Rio Lisboa recebe com atenção e carinho Diego Gonzalez, portuguesinho de 8 anos de idade, considerado o DJ mais jovem do mundo. Mas é só subir ao Palco Music Valley (o segundo maior do festival), já no começo da madrugada de domingo (e pegando uma pequena parte do público de se dispersava depois de um show de Katy Perry no palco Mundo), que Alok vira outro: um DJ de som pesado, quase industrial, que se movimenta em meio a luzes puxadas para o vermelho e frases fortes, de autoquestionamento, que vão se alternando no telão.
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Este foi o artista que apresentou aos portugueses o Rave The World, seu novo projeto, que traz para a edição do festival no Rio, no Palco New World Order, em 12 de setembro, ao lado dos pais, os DJs Ekanta e Swarup (um dia antes, sozinho, ele é atração do palco Mundo, na noite do k-pop do grupo Stray Kids).
Com remixes pesados de sucessos do começo do começo dos anos 2000 (de “Don’t you worry child”, do Swedish House Mafia, a “Kids”, do MGMT), e muitos de hits dos anos 1990 (como um “Pump up the jam”, do Technotronic), o DJ conseguiu dar vitalidade extra até a de um de seus próprios sucessos do pop, “Hear me now”, e apresentar em primeira mão a sua aguardada colaboração com Jennifer Lopez, a faixa de house music “Everything is fine”.
Antes de aquecer a fria noite lisboeta, Alok conversou com o GLOBO e o primeiro assunto abordado foi a idade: ano passado, ele completou 34 anos. Não sem surpresas.
— Foi a primeira vez na vida em que eu percebi que não fazia mais parte de uma nova geração, que eu não era mais o Jay-Z. A minha geração é outra. E isso teve um impacto para mim. Aí eu falei: “Cara, eu preciso ouvir um pouco mais o que que essa geração tá falando para poder me conectar com ela, porque eu acho que essa é a forma que a gente tem de transformar esse mundo — diz ele, que pensou inicialmente no nome Save The World (“Salve o Mundo”) para o projeto. — Conversando com a filha do meu empresário, ela falou: “Vocês sempre querem trazer uma solução simples para salvar o mundo. A gente não acredita mais nisso. A gente acredita que as soluções são múltiplas, e a gente tá cansado desse papo. Vocês arrebentaram o mundo agora querem a gente salve!” Aí eu percebi que eu estava cringe mesmo!
Alok (na foto, em seu show no réveillon na Praia de Copacabana) se apresenta no Palco Mundo no dia 11 e no New Dance Order no dia seguinte
Marcelo Theobald
Ele achou a solução ao trocar uma letra e embarcar no projeto Rave The World, esse “resgate da minha essência, da cultura rave”.
— Por isso que eu falei: “Não vou fazer no Palco Mundo!”. No Rock in Rio do Brasil, o que eu vou fazer lá é o Keep Art Human (seu projeto anterior), que tem essa comunicação mais abrangente. Porque o Rave The World é um alicerce muito importante na minha carreira, é de onde eu vim, é a cena eletrônica em si. E compartilhar o palco com os meus pais era algo que eu não fazia desde o início da minha carreira. Porque a gente não conseguia se encaixar, eu tinha um som muito mais pop comercial, eles são muito mais underground. Agora, todo mundo está junto.
Alok fez a estreia de Rave The World no último dia 5 na O2 Academy Brixton, casa no bairro londrino onde o artista trabalhou, 16 anos atrás como barback (assistente de bartender), enfrentou decepção atrás de decepção e quase desistiu de tudo, até encontrar o caminho para tornar-se um dos maiores nomes da música eletrônica global. Sentiu-se vingado?
— Aquilo, na verdade, teve um sentido de uma cura, em um lugar que me dava vários gatilhos, foi um processo de ressignificar toda aquela minha experiência. Porque foi uma experiência que me que me que me fez crescer muito, fundamental para o meu crescimento, mas também foi uma experiência um pouco traumática. Tanto é que eu não aguentei, mano, eu voltei e desisti — conta. — Quis voltar para Brixton, para aquele lugar tão icônico onde sempre quis ir, mas nunca consegui ir, porque era caro. Era de onde todo mundo saía de lá e ia para o meu pub. Eu nem imaginava na real que um dia ia tocar lá. Se eu tocasse num pub, já estava lindo.
Passado tudo isso, Alok hoje consegue olhar para trás e ver o quanto ele colaborou para que a figura do DJ fosse popularizada (e entendida) no Brasil.
— No começo, tiveram outros DJs com uma grande visibilidade no Brasil. Você teve o Fatboy Slim, você teve o (David) Guetta e também alguns brasileiros. Mas era muito engraçado quando eu ia a um programa de televisão, um Faustão, e ele perguntava “Mas, como assim? Cadê o cantor? Você não canta? Como é que é isso?” Foi muito desafiador para a gente conseguir imprimir essa parada. Lembro que o Faustão falou: “Para, para, para! Faz ao vivo aí”. E eu falei: “Pô, mas eu estou fazendo ao vivo!” (risos) É isso mesmo, apertando botão — recorda-se. — Agora, a gente está vivendo um momento bem legal da música eletrônica, de brasileiros lá fora. Talvez seja o melhor momento que a gente já viveu.
Alok diz querer que o público entenda que Rave The Wave the World é seu projeto focado nas suas origens na música eletrônica — em breve, promete lançar um EP com músicas voltadas para essa vertente mais pesada.
— Se tocar na rádio, o pessoal vai cortar na hora, não tem nada a ver. Mas a gente tem que deixar as coisas claras. Existe uma dificuldade na nossa comunicação, porque o Alok você entende em múltiplos universos. Tem um Alok que toca no BBB, um que toca no Burning Man, um que toca no Tomorrowland, um que toca no São João e um que toca no Rock in Rio. Como é que você consegue comunicar isso tudo? O Rave The World me dá essa clareza — aposta. — Inclusive, ele acaba aprimorando o Alok do Palco Mundo, a gente a gente se nutre muito ali. Porque é minha essência, é a minha raiz, é de onde eu vim.
Silvio Essinger viajou a convite da organização do festival
