Citado como um dos nomes de uma lista apreendida em 2022, durante a Operação Smoke Free, o delegado da Polícia Federal Felício Laterça foi nesta sexta-feira (03/07) à sede da Superintendência da Polícia Federal para dizer que foi ele o responsável por denunciar a máfia dos cigarros. Segundo investigadores, a relação trazia nomes de políticos e do pastor Márcio Poncio, achado que passou a ser investigado e desencadeou a quinta fase da Operação Unha e Carne, de quinta-feira (02/07), ou seja, quatro anos depois.
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Laterça contou que, dois anos antes da apreensão da lista, enviou um ofício à PF com um dossiê sobre a atuação do bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, em bairros como Madureira e Parada de Lucas, na Zona Norte do Rio, além do município de Caxias, na Baixada Fluminense, reduto do contraventor. Segundo o delegado, o documento teria dado origem à própria Operação Smoke Free, conduzida pela PF e pelo Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público Federal do Rio. Aliás, o nome de Laterça consta nos autos como testemunha.
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) chegou a anular a denúncia resultante da Smoke Free, mas manteve as investigações da Polícia Federal em curso — o que permitiu que a apuração avançasse até a quinta fase da Operação Unha e Carne, deflagrada. A lista com nomes e codinomes foi encontrada na mesa de cabeceira da cama de Adilsinho, em sua casa na Barra da Tijuca, na Região Sudoeste, em 2022, quando o contraventor estava fora do país e cancelou o retorno previsto para o dia da operação.
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Poncio, um dos citados na lista, foi preso anteontem (02/07) pelos agentes. Os investigadores encontraram indícios de pagamentos, doações eleitorais e movimentações financeiras ligadas à lavagem de dinheiro da máfia dos cigarros.
— Se meu nome estiver em alguma lista, é a de extermínio, porque quem denunciou a máfia do cigarro fui eu. Agora, se alguém pediu alguma coisa em meu nome, vou descobrir quem foi. E esse canalha vai ser preso. Há ainda a possibilidade de essa mentira ser obra de algum político corrupto que eu denunciei e que agora está se vingando. Seja como for, sou o maior interessado nessa investigação. Vou atrás das respostas da PF. Isso não vai ficar assim — disse Laterça ao blog.
Laterça contou ao blog Segredos do Crime que, em outubro de 2020, recebeu um dossiê de 40 páginas da Guarda Municipal do Rio com a denúncia contra Adilsinho. O documento traz o monitoramento de veículos nos pontos de venda e fábrica do bicheiro, além de pessoas supostamente ligadas aos negócios dele, com fotos. Há inclusive um levantamento de placas de caminhões e vans usadas pela organização criminosa. Na época, como Laterça era deputado federal, ele encaminhou o dossiê em anexo a um ofício de seu gabinete na Câmara dos Deputados, ao então superintendente da Polícia Federal, Tácio Muzzi.
— Conversei até com o colega encarregado do caso, que me perguntou se poderia anexar o dossiê à investigação da Smoke Free. Eu disse que não havia problema. Como é que agora aparece essa informação de que meu nome está numa lista achada na casa do Adilsinho? Só pode ser represália. Eu não sou corrupto. O Adilsinho deve ter deixado essa lista lá de propósito — ninguém deixa um negócio desses na cabeceira da cama — afirmou Laterça, atualmente filiado ao partido Novo.
A quinta fase da Operação Unha e Carne teve como alvos Adilsinho, Poncio e o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Rodrigo Bacellar. Os três tiveram mandados de prisão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da ADPF 635, conhecida como “ADPF das Favelas”. Os agentes só prenderam Poncio, já que os outros dois já estavam presos. Bacellar foi transferido para um presídio federal fora do estado, e Adilsinho, já custodiado em unidade federal, teve decretado seu sexto mandado de prisão.
Ainda na Operação Unha e Carne, foi cumprido mandado de busca e apreensão no apartamento de Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador Sérgio Cabral.
Laterça afirmou já ter recebido informações sobre os vínculos entre Adilsinho e Poncio, ambos ligados ao ramo de cigarros:
— Já havia informações de que os dois alvos, Adilsinho e o pastor Poncio, se tangenciavam. A investigação da Polícia Federal, embora eu ainda não tenha tido acesso aos autos, deve ter corroborado isso. Agora, essa lista deve ter sido preparada com nomes seletivos, verdadeiros e falsos. Só posso enxergar dessa forma. Tenho certeza de que tudo será elucidado, porque acredito na minha instituição — comentou.
Em nota, a defesa de Rodrigo Bacellar, nega que seu cliente “tenha atuado, de qualquer forma, para inibir ou embaraçar qualquer investigação, direta ou indiretamente, ou para proteger e beneficiar organizações criminosas e seus integrantes”. O texto diz ainda que “conforme extensa documentação acostada aos autos próprios, está cabalmente demonstrado que Rodrigo da Silva Bacellar não possui mínima vinculação com os fatos apurados, sendo certo que a instrução probatória apoiará as conclusões defensivas e comprovará aquilo que há muito é bradado”.
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A defesa de Adilson Oliveira Coutinho Filho “rechaça a alegação de pagamento de vantagens indevidas a políticos ou agentes públicos” e afirma confiar “no Poder Judiciário e no devido processo legal”.
Já a defesa do pastor Márcio Poncio disse que não teve acesso ao conteúdo do processo e por isso não vai se manifestar.

