Um único dente preservado por cerca de 1.600 anos pode ajudar a reescrever parte do que se conhece sobre as práticas mais extremas do cristianismo primitivo. Encontrado junto a restos mortais envoltos por correntes em um antigo complexo religioso próximo à Cidade Velha de Jerusalém, ele forneceu indícios de que o indivíduo submetido àquela forma radical de penitência poderia ser uma mulher.
A descoberta contraria uma interpretação que predominou durante décadas entre pesquisadores: a de que práticas ascéticas extremas, como carregar correntes permanentemente sobre o corpo, teriam sido realizadas quase exclusivamente por homens nos primeiros séculos do cristianismo.
A evidência foi apresentada em estudo publicado em 2025 no “Journal of Archaeological Science”. Os pesquisadores recorreram a uma técnica de análise de proteínas preservadas no esmalte dentário depois que o estado dos outros restos mortais impossibilitou a identificação pelos métodos arqueológicos tradicionais.
O material foi encontrado em um antigo mosteiro bizantino nas proximidades de Jerusalém, utilizado aproximadamente entre os anos 350 e 650. Criptas existentes no complexo guardavam sepultamentos de homens, mulheres e crianças.
Entre eles, um conjunto chamou especialmente a atenção: o corpo havia sido sepultado envolvido por pesadas correntes metálicas.
O uso desses objetos é associado a formas extremas de ascetismo cristão. Alguns religiosos buscavam uma aproximação com Deus por meio da renúncia a confortos e prazeres, recorrendo a jejuns, isolamento e diferentes formas de privação. Em situações mais radicais, penitentes submetiam o próprio corpo a sofrimento contínuo.
O problema para os arqueólogos estava em descobrir quem havia carregado aquelas correntes.
Cerca de 16 séculos de decomposição e a ação de raízes de árvores destruíram grande parte do esqueleto. Entre as perdas estavam justamente alguns dos ossos mais úteis para determinar o sexo biológico de restos humanos, especialmente a pelve.
Do indivíduo cercado pelas correntes restaram apenas três vértebras e um dente em condições adequadas para análise.
Sem material suficiente para recorrer aos procedimentos convencionais, os cientistas encontraram a resposta possível no esmalte dentário.
A técnica utilizada procura proteínas chamadas amelogeninas. Elas participam da formação do esmalte dos dentes e podem sobreviver durante períodos muito maiores do que o DNA em determinados contextos arqueológicos.
Há versões da amelogenina associadas aos cromossomos X e Y. A identificação de proteínas relacionadas ao cromossomo Y aponta para um indivíduo biologicamente masculino. Quando apenas a variante associada ao X é detectada, aumenta a probabilidade de que os restos sejam de uma mulher.
No dente encontrado em Jerusalém, os pesquisadores não identificaram sinais da proteína relacionada ao cromossomo Y.
A conclusão exige cautela. Os próprios autores ressaltam que a ausência da proteína não constitui uma comprovação absoluta, já que ela poderia ter se degradado ao longo dos séculos. Ainda assim, a análise indica como hipótese mais provável que os restos pertençam a uma mulher.
Se confirmada por novas pesquisas, a descoberta acrescenta uma dimensão importante à compreensão do ascetismo no cristianismo antigo.
As correntes encontradas junto ao corpo não eram apenas objetos funerários. Há registros históricos de ascetas que as carregavam em vida como uma forma permanente de penitência, submetendo o corpo a peso, desconforto e limitações físicas como demonstração de devoção religiosa.
Até agora, esse universo esteve associado principalmente a figuras masculinas.
Um dos exemplos mais conhecidos é Simeão Estilita, asceta cristão do século V que se tornou célebre por passar décadas vivendo no topo de uma coluna na região da atual Síria. Outros religiosos adotaram jejuns prolongados, isolamento e diferentes formas de mortificação corporal.
As fontes históricas contribuíram para construir uma imagem predominantemente masculina desses penitentes. O sepultamento encontrado perto de Jerusalém sugere que mulheres também podem ter participado das manifestações mais severas dessa tradição.

