O Cine Ipiranga vai reabrir, mas apenas por um dia (para a tristeza dos interessados e apreciadores da sétima arte). Depois de duas décadas abandonado no Centro Histórico de São Paulo, o espaço recebe neste sábado (12) a 1ª Mostra Angústia de Cinema, idealizada pelo ateliê de arte experimental Angústia. Entre 14h e 23h, a reocupação do histórico prédio inclui a exibição de seis curtas-metragens inéditos, painéis de discussão com especialistas, exposição de fotografias, performances artísticas e outras atrações. A entrada é gratuita para todas as ações.
Inaugurado em 1943, o Cine Ipiranga, localizado na esquina das avenidas Ipiranga e São João, era um ponto de efervescência cultural paulistano. Concebido por Rino Levi, um dos expoentes do modernismo brasileiro, era famoso por seus balcões e marquises em curva do lado de dentro, além das grandes luminárias e escadarias. Em 2005, porém, o edifício fechou suas portas. Nove anos depois foi oficialmente tombado como patrimônio histórico, junto do prédio vizinho, o Hotel Excelsior (reaberto em 2021 sob batuta da Monreale Hotels).
Mesmo com um projeto anterior à pandemia do Covid-19, que planejava transformar o cinema em um espaço voltado para a cultura pop, nada avançou. Desde então, os escombros do Cine Ipiranga aguardam renascimento.
Produzida pela MyMama Entertainment, a mostra traz filmes que exploram o conceito e o sentimento de “angústia”. Para abordar questões sociais distintas, os temas vão desde a violência contra a mulher às crises socioambientais na Amazônia. As produções foram realizadas pelo ateliê Angústia em parceria com a MyMama e com outras produtoras.
A programação abre as exibições às 15h, com a montagem “As 7 Mortes de Pedro”, única das seis que já foi exibida em cinema, em um festival de curtas na capital paulista. De 2012, ele explora a ideia de um menino que acredita que existem apenas sete formas de morrer. Depois, o público poderá assistir “Brasil Impossível”, que aborda a divisão do país entre amor e ódio, e “Meu Coração Já Não Aguenta Mais”, que estreou no Festival do Rio e fala sobre sonhos destruídos por um futuro corrompido. O dia ainda segue com “Cativeiro”, que retrata as prisões criadas pelos indivíduos em suas próprias vidas.
Todos os filmes foram dirigidos por Fabrício Brambatti — conhecido como Urso Morto —, diretor de cena da MyMama e fundador da Angústia.
— Por serem filmes experimentais com linguagens e formatos diferentes, eles não se encaixam muito bem em circuitos comerciais ou em festivais. Então, exploramos a possibilidade de fazer uma mostra para apresentar esses trabalhos. Não fomos para um cinema comercial porque queríamos gerar uma experiência sensorial completa e nessa encontramos o Cine Ipiranga. Vamos revivê-lo por 24h — diz o diretor.
O público ainda pode assistir a mais dois curtas no dia. “Terra Vermelha: Uma Vida e Morte na Amazônia Brasileira” deriva de um trabalho de dez anos de Brambatti e do fotógrafo Tommaso Protti — com quem divide a direção da montagem — sobre crises sociais e ambientais na Amazônia. Já “Maldito Darién”, dirigido pela dupla e pela roteirista Carol Pires, acompanha um grupo de migrantes que cruzam o Darién Tapon, região das Américas conhecida como “selva da morte”.
— Todos eles são intensos e realistas, além de muito subjetivos. Ninguém quer estar na angústia, ficar angustiado. Mas ela gera ação, porque você precisa se movimentar para sair desse lugar. A angústia é nossa aliada nesses trabalhos, para que de alguma forma (o tema) te incomode e você faça algo a respeito — afirma Brambatti.
Ao final das projeções, que variam entre três e 25 minutos, serão realizados painéis de discussão sobre os temas retratados. Participarão nomes como Vera Iaconelli, doutora em psicologia pela USP; Maria Beatriz Nogueira, chefe do escritório do ACNUR, Agência da ONU para os Refugiados, em São Paulo; Auá Mendes, artista visual indígena do Povo Mura; Marcos Callia, médico psicanalista; os próprios diretores e outros convidados.
Além das sessões, haverá uma exposição fotográfica com trabalhos de Fabrício Brambatti, Tommaso Protti e de outros membros do coletivo Angústia.
A entrada no evento é franca. Para as sessões, os ingressos gratuitos podem ser reservados pelo Sympla ou retirados no Cine Ipiranga no sábado. Mesmo que as entradas no site estejam quase esgotadas, a produção afirma que haverá ingressos disponíveis no dia. As exposições e demais atrações não exigem inscrição prévia.
Onde: Cine Ipiranga (Avenida Ipiranga, 786, Centro Histórico). Quando: sábado (12) das 14h às 23h. Entrada gratuita.
