Estreia da Netflix, “Dept Q” é um daqueles raros exemplares do gênero policial que conseguem fugir das fórmulas gastas que dominam o suspense no streaming. Criada por Chandni Lakhani e Scott Frank (roteirista e diretor de “O gambito da rainha”), a produção escocesa aposta em uma narrativa que não tem pressa — e que sabe exatamente para aonde está indo. Não espere concisão. O ritmo é deliberadamente lento, mas não arrastado. O roteiro evita atalhos fáceis e conduz a história confiando na inteligência do espectador. A história anda para a frente e para trás na cronologia, mas (ufa, que alívio) faz isso livre daqueles letreiros explicativos que se generalizaram nas séries e nos filmes. Ao fim do primeiro episódio — são nove —, o leitor vai entender do que estou falando. É quando várias tramas estarão armadas com requinte de carpintaria. Recomendo.
A ação se desenrola em Edimburgo, mas fora do ambiente jovem da cidade, que tem uma universidade importante e festivais de música e de teatro famosos. A câmera dá preferência às ruas dos bairros da classe trabalhadora, silenciosos, com pouca vegetação, e ao céu invariavelmente cinzento. A melancolia e o sentimento de opressão que emanam da paisagem têm uma equivalência perfeita com a trama.
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O protagonista, o inspetor chefe Carl Morck (Matthew Goode), é a expressão concreta do anti-herói. Sujeito desagradável, se acha um gênio com capacidades muito acima dos demais. Além disso, é socialmente inepto e mau colega: maltrata todos na delegacia. Somos apresentados a ele durante uma operação malsucedida que termina com um oficial morto e outro, Hardy (Jamie Sives), paraplégico. Meses mais tarde, volta ao trabalho amargurado, traumatizado, com crises de pânico e ainda mais agressivo.
Sua chefe, Moira (Kate Dickie, atriz maravilhosa), o despacha para o degredo. Carl é deslocado para um subsolo imundo e recebe uma missão aparentemente de segunda categoria: reabrir casos arquivados. Com ajuda do imigrante sírio Akram (Alexej Manvelov) e de uma jovem policial, Rose Dickson (Leah Byrne), ele vai reinvestigar o desaparecimento da promotora Merritt Lingard (Chloe Pirrie). As desgraças de Merritt e as de Carl têm simetria. São dois tipos antipáticos e, ao mesmo tempo, vítimas de alguma situação cruel. Ambos são assombrados por traumas íntimos.
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Embora essa não seja uma série de espionagem, é impossível não lembrar de “Slow Horses” e de Jackson Lamb, papel de Gary Oldman, um ex-agente brilhante exilado numa espécie de purgatório do M15 (clique aqui para ouvir um comentário sobre ela que fiz na Rádio CBN). Há mesmo uma semelhança entre as narrativas. No entanto, seria uma tremenda injustiça reduzir “Dept Q” a esses pontos coincidentes. Ela compõe seu mundo próprio e faz isso por meio de personagens densos e bem construídos. A série tem suspense, mas também mergulha no drama humano. O elenco é sólido e a história, envolvente. Não perca.