A cena é descrita no epílogo. Um mês após o acidente que tirou a vida de Milad, filho do palestino Abed Salama, uma equipe de TV israelense tentava entender o que levou adolescentes judeus a comemorarem a morte de crianças de uma turma de jardim de infância na Cisjordânia. Para o escritor Nathan Thrall, judeu americano vencedor do Pulitzer de 2024 com o livro “Um dia na vida de Abed Salama” (recém-lançado no Brasil pela editora Zahar), o processo de exclusão e segregação dos palestinos facilitou a desumanização, que ele diz estar enraizada por todo o espectro político do país, onde ele vive há duas décadas. Veja os principais trechos da entrevista exclusiva ao GLOBO.
- Contexto: Israel autoriza maior expansão de assentamentos judaicos na Cisjordânia em décadas em meio à guerra em Gaza
- ONU: ‘Indivíduos armados’ roubam equipamentos e suprimentos de hospital em Gaza
A trama gira em torno de um acidente de ônibus em que morrem alunos palestinos. No epílogo, você escreve que jovens israelenses comemoraram as mortes nas redes sociais, o que apontou como um sinal de radicalização. Alguma ideia do porquê desta questão geracional?
A principal explicação para esses jovens terem celebrado a morte de crianças inocentes do jardim de infância, sabendo que não haveria repercussões nem ostracismo social, é que eles viviam em um período de relativa calma. Eles não se lembravam de alguns dos piores períodos que as gerações mais velhas viveram, uma realidade de muito mais segregação e menos contato com palestinos. Em grande parte, o que permite que a desumanização aconteça, é ter o outro grupo de pessoas atrás de muros e não em sua vida cotidiana. A desumanização não depende da segregação, mas a segregação a torna mais fácil. E, hoje, vemos que essa desumanização dos palestinos está completamente generalizada em Israel.
- Ameaça: Ministro israelense de extrema direita afirma que é ‘hora de usar força total’ em Gaza após Hamas criticar proposta de trégua
O que o senhor aprendeu sobre a dinâmica dos palestinos na Cisjordânia em meio à apuração do livro, escrito a partir do drama vivido por uma família palestina?
Quando comecei a escrever, eu já trabalhava como analista. Eu conhecia os detalhes do sistema de controle de Israel: os postos, as rodovias segregadas, os confiscos de terras. O que eu aprendi é que há uma grande diferença entre saber esses fatos e o lado emocional de vivê-los. Compreendi como esse sistema afeta a vida de pessoas como Abed ao definir qual emprego elas podem ter, para onde podem ir, mas também com quem vão se casar, se podem ou não ser advogados ou até mesmo cursar uma faculdade. São esses detalhes íntimos da vida familiar que fazem você sentir que o sistema permeia cada aspecto da vida deles.
Em várias partes do livro o senhor descreve um processo de ocupação da Cisjordânia por meios como expulsão de palestinos de suas terras. Essas cenas oferecem uma visão do plano para Gaza, com o governo falando em tomar o controle do enclave?
Sim, não resta nenhuma dúvida. O que estamos vendo hoje é uma aceleração e uma intensificação de velhas práticas. Não são apenas os membros da extrema direita israelense que estão falando em “transferir” — essa é a palavra que eles usam — os palestinos de Gaza. É o que tem dito também o favorito da centro-esquerda israelense, Benny Gantz, em quem boa parte das pessoas contrárias a Benjamin Netanyahu deposita suas esperanças. Em uma coletiva de imprensa recente, Gantz falou da importância de promover o plano do [presidente americano, Donald] Trump para expulsar as pessoas de Gaza. Isso aconteceu em 1948, em 1967 e desde então ocorria em menor número. Agora, esse ritmo é mais rápido do que nunca: Israel confiscou mais terra na Cisjordânia no ano seguinte ao atentado de 7 de outubro de 2023 do que nos 20 anos anteriores somados.
- Thomas Friedman: Os sinais de mudança que vi em Israel; leia o artigo
Vários personagens retratados criticam os Acordos de Oslo, que julgam ter piorado suas vidas, embora até hoje sejam apontados pela comunidade internacional como o caminho para a pacificação…
Oslo é um acordo que não ofereceu sequer a promessa de um Estado palestino. O termo Estado palestino não aparece nele. Israel foi muito cuidadoso em nunca dizer que o acordo levaria a um Estado palestino — nas famosas palavras do próprio [Yitzhak] Rabin: “O que estou imaginando é menos que um Estado para os palestinos”. Os críticos o chamam de uma autonomia glorificada: manter os palestinos em bantustões [termo que designa os territórios segregados na África do Sul durante o apartheid] e chamar isso de coexistência. Mas não dar aos palestinos uma verdadeira liberdade e independência. E essa é uma crítica válida.
Eles veem espaço para a coexistência?
Alguns deles são a favor de dois Estados. Outros gostariam de ver um Estado único democrático, com direitos iguais para todos, mas que se chame Palestina, e não Israel — e essa também é uma visão de coexistência. E, assim como do lado israelense, há pessoas que gostariam de ver o outro lado simplesmente desaparecer.
- ‘Dia de Jerusalém’: Marcha nacionalista em Jerusalém é marcada por tumulto e provocações de israelenses a palestinos
Outra crítica presente é à Autoridade Nacional Palestina (ANP), que julgam ser uma ferramenta de Israel para mantê-los sob controle. Atualmente, ela é apontada pela comunidade internacional como parte da solução para Gaza e Cisjordânia…
Quando a Autoridade Nacional Palestina foi criada, houve críticos que disseram que seria uma espécie de Regime de Vichy [estabelecido pela Alemanha para administrar parte da França ocupada durante a Segunda Guerra Mundial], e que viam esse aparato como um mecanismo de ocupação indireta de Israel. Essas vozes não eram as mais fortes naquela época mas, ao longo dos anos, o que aconteceu foi que a ANP continuou a existir e trabalhar em estreita colaboração com Israel para fazer algo extraordinariamente desafiador para qualquer povo ocupado e subjugado: prender seus próprios irmãos, primos e filhos, inclusive torturá-los e matá-los. Essas pessoas que foram presas são vistas por muitos palestinos como pessoas que lutam por sua liberdade. Não se pode manter esse tipo de sistema por três décadas sem perder a legitimidade diante dos olhos do povo. Arrastar isso por 30 anos, retirar qualquer tipo de legitimidade dessas pessoas e agora dizer que são elas que deveriam se sentar à mesa para negociar um Estado palestino, obviamente tem muito menos chance de sucesso, embora seja possível.
Como foi manter contato por três anos com a família Salama?
Não foi um processo normal de reportagem. Foi algo muito íntimo, em particular com Abed. Em alguns momentos, pareciam sessões de terapia, e muitas vezes nós dois ficamos com lágrimas nos olhos. Frequentemente eu me desculpava quando isso acontecia, e todas as vezes ele me mandava parar e dizia para eu não me desculpar, já que, por meio das nossas conversas, ele se sentia mais perto do filho. Dizia que Milad estava ali entre nós.
Como estão Abed e Haifa hoje?
Eu estive com eles na semana passada [retrasada], jantei na casa deles com a minha família. Como todos os palestinos na Cisjordânia, eles foram profundamente afetados pela situação dos últimos 19 meses. Eles têm parentes que foram presos e libertados da prisão tão magros que estavam irreconhecíveis; outros foram mortos em Gaza e na Cisjordânia. Eu estou desesperado com a situação na Cisjordânia, mas eles, em geral, estão mais esperançosos e otimistas do que eu.
