Nenhuma modalidade experimentou um salto — sem trocadilho — tão grande nos dez anos seguintes à Rio-2016 como a ginástica artística. Se, antes, o Brasil contava com desempenhos individuais de destaque isolado, como os de Daiane dos Santos ou dos irmãos Daniele e Diego Hypolito, hoje o cenário é de força coletiva e de protagonismo olímpico, depois das quatro medalhas vencidas em Paris-2024.
Naquela edição em casa, três brasileiros subiram no pódio: Arthur Zanetti, prata nas argolas; Diego, prata no solo; e Arthur Nory, bronze na mesma prova. Os torcedores também testemunharam o surgimento de Rebeca Andrade, 11ª colocada no individual geral e que se tornaria, anos depois, uma estrela da ginástica mundial.
— Eu era uma menina, ainda me entendendo dentro daquele círculo competitivo e grandioso. Corri o risco de não estar lá, porque havia me lesionado no ano anterior, minha primeira de LCA (lesão do ligamento cruzado anterior). Então, na minha cabeça era: “Meu Deus, não acredito, estou na Olimpíada” — relembra Rebeca, também finalista por equipes. — Estava tão feliz que, no primeiro dia, nem senti o nervosismo.
Rebeca Andrade em sua estreia em Jogos Olímpicos: em casa, há dez anos
Marcelo Pereira/Exemplus/COB
Números turbinados
Henrique Motta, ex-atleta e hoje presidente da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG), considera a Rio-2016 um “divisor de águas”. Não apenas pelo crescimento da cultura esportiva no país, mas também pelas oportunidades de investimento e pela profissionalização que vieram a reboque do megaevento:
— Existe outro olhar sobre a gestão esportiva no Brasil. Não são só atleta e treinador. Existe toda uma equipe multidisciplinar por trás, que passou a ser vista, compreendida e capacitada. Mudou ainda a forma de se comunicar com a comunidade — analisa o dirigente, que destaca ainda o trabalho de formiguinha feito por anos nos vários cantos do país. — Não é só a medalha que faz um esporte crescer.
No caso da ginástica brasileira, a descentralização começou ainda em 2009. Mas decolou mesmo após os Jogos do Rio. Hoje, a CBG realiza cinco edições do Torneio Nacional, uma em cada região do país, além de 14 etapas do Brasileiro por ano.
O número de esportistas em ação também cresceu. Em 2021, quando a confederação começou a planilhar os dados, os eventos nacionais reuniram 575 atletas da ginástica artística. No ano seguinte, foram 916. E, em 2025, chegou-se a 1.884. Também houve expansão na quantidade de Centros de Desenvolvimento, cujo foco está na inclusão social. No ano da Rio-2016, eram dez unidades que atendiam a cerca de mil crianças. Uma década depois, já são 31 polos, espalhados por todos os estados, com mais de 3.500 contemplados. Atletas consolidadas, como Julia Soares (artística) e Bárbara Domingos (rítmica) foram descobertas nesses centros.
Rebeca Andrade em ação no Pan-Americano de 2026, no Rio: ouro no salto
MeloGym/CBG
Temos uma gestão que sabe o que quer. E vai continuar a fazer da ginástica o esporte que mais cresce e vence no Brasil
Até o momento, porém, apenas as mulheres embarcaram no bonde da renovação. O naipe masculino, que viu Zanetti, Diego e Nory brilharem no Rio, mergulhou em um período de carência logo depois. Em Tóquio-2020, a equipe masculina não foi à final e Zanetti terminou em oitavo na decisão das argolas. Quatro anos mais tarde, em Paris, o cenário foi pior, já que o Brasil não classificou a equipe e teve Diogo Soares e Nory como os únicos representantes.
Henrique se queixa da fuga de treinadores para o exterior, onde receberão em dólar ou euro, e argumenta que, caso eles ficassem por aqui, poderiam ajudar a formar ginastas promissores. Ainda assim, acredita que o cenário será revertido e que é uma questão de tempo até que os homens passem a ostentar resultados melhores:
— No masculino, o processo de desenvolvimento dos atletas é mais longo, e o auge normalmente acontece quando os ginastas estão mais velhos. Por isso, a renovação exige tempo, continuidade e trabalho consistente de formação. Tivemos um período de transição após Tóquio, mas já enxergamos resultados importantes dessa nova geração.
Aparelhos modernos
Para além do material humano, há investimento em estrutura. Ainda em 2014, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) e a CBG importaram equipamentos mais modernos, de marcas usadas nos torneios. No ano seguinte, inauguraram um centro de treinamento de referência, com 2.500m² e áreas para preparação e recuperação física, além de espaços de fisioterapia e ciência do esporte. Também está à disposição um sistema de revisão em vídeo que permite que atletas e técnicos observem em telas os movimentos e séries logo após a execução.
— Dá mais segurança treinar nos aparelhos da mesma marca, para saber a tensão, se são duros, como vai funcionar com a paralela, se o solo “joga”… Neste nível, tudo faz diferença — opina Rebeca, atenta às minúcias decisivas no alto rendimento.
Diogo Soares, “veterano da seleção”: medalhista de prata nas barras paralelas, no Pan-Americano de Ginástica Artística, no Rio, em 2026
RICARDO BUFOLIN / PANAMERICA PRESS
Receber eventos também faz parte da estratégia, já que países-sede podem adquirir novos aparelhos com 80% de desconto, em acordo com a União Pan-americana de Ginástica (UPAG). Não à toa o Rio foi a casa do Pan-Americano da modalidade deste ano e voltará a realizar o evento daqui a dois, como classificatório para os Jogos de Los Angeles-2028.
— A gente terá a possibilidade de comprar mais sets de equipamentos. Porque os nossos conjuntos, que viajam pelo Brasil para os nacionais, haviam sido adquiridos em 2014. E alguns deles estavam com data de vencimento do certificado da FIG próxima. É preciso tê-los dentro do prazo para que a competição seja validada — explica Ricardo Resende, o Cacá, diretor-geral da CBG.
A ginástica é a modalidade que mais recebe repasses do COB, via Lei Agnelo Piva, tem contratos extensos com empresas como a Caixa Econômica Federal e a Vale, toca projetos via Lei de Incentivo do Esporte e goza de parcerias com governos estaduais e municipais para a realização de torneios. A confederação é a mais seguida nas redes sociais e tem quatro dos dez atletas olímpicos mais acompanhados.
Diego Hypólito e Arthur Nory. medalhistas na Rio-2016
Ana Patrícia/COB
— Temos uma gestão que sabe o que quer. E vai continuar a fazer da ginástica o esporte que mais cresce e vence no Brasil — diz Cacá.
Rebeca é hoje a cara da ginástica do país, mas sua missão é replicar a “magia” entre as próximas gerações:
— Toda a equipe tem o poder de levar mais meninos e meninas à ginástica. A gente conseguiu, mas não é fácil… Quando vou competir, represento a mim e a minha nação. E junto comigo quero levar todos, o máximo de pessoas para a ginástica.

