Houve um tempo em que achavam que Di Melo estava morto. O músico pernambucano sofreu um acidente de moto no começo dos anos 1990 e ficou mesmo ainda mais afastado dos “holofotes”. Mas Di Melo, no auge dos seus 76 anos, com a agenda cheia e já tendo sido cantado por Liniker, Emicida e Pretinho da Serrinha, entre outros, está vivendo o seu “melhor momento” — ele garante, fazendo valer a alcunha de “imorrível”.
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Na estrada celebrando os 50 anos do disco homônimo de estreia, aquele com “Kilario”, “A vida em seus métodos diz calma”, “Indecisão” e cia, Di Melo colhe os frutos de uma obra atemporal. No último fim de semana, em Salvador, o clima foi quente e mágico.
— Se tirasse os pés do chão, não conseguia recolocar — conta o músico, que se apresenta esta sexta-feira (30) no Circo Voador.
Sua expectativa é de que o clima se repita, pois o disco é “atualíssimo”.
— É como se tivesse sido gravado ontem. A linguagem é muito boa, e marcou também pelas figuras que participaram da gravação: Hermeto Pascoal, Heraldo do Monte, Cláudio Beltrame… — diz o músico. — Eu dei muita sorte, porque esse trabalho é uma dádiva divinal. Quantas coisas aconteceram nesses 50 anos? É mais que uma vida. Mas estamos aí. Jacaré que não batalha vira bolsa de madame (risos).
No palco, acompanhado pela filha Gabi di Abade como backing vocal (a mesma que fez com que ele voltasse à música, anos atrás, e largasse os tempos de “doideira”), Di Melo, além de cantar, também pede paz:
— Peço um minuto de silêncio pela paz mundial. Mando reciclar, mando plantar. O mundo precisa se conscientizar de que deve haver paz, paz e paz. Saúde, paz, amor e alegria. Costumo dizer que, na vida, o importante é amar e ser amado. O resto é papo furado.
Além do disco de 1975 na íntegra e de alguns outros sucessos da carreira, ele também vai mostrar algumas novidades do próximo trabalho — ainda sem data de lançamento definida.
— Tenho música a dar com pau, graças a Deus. Tem gente que falta música, eu tenho é música demais — comenta. — É uma confusão de pensamento e sentimento.
Nessa “confusão”, Di Melo também tem uma troca bastante verdadeira com o público:
— Ouço muitos relatos. Têm pessoas que estavam até pensando em se suicidar e de repente ouviram “A vida em seus métodos diz calma” e passaram a viver. São coisas muito gratificantes. Tem criança de 3 anos cantando as minhas músicas.
Fora do estúdio e dos palcos, de pazes com o mercado musical (“agora que as músicas saíram da editora ladra e estão na Warner, me sinto muito mais confortável. Antes, o dinheiro não era repassado, agora recebo direitinho”), o que Di Melo quer mesmo é ser feliz.
— Não me arrependo (de ter “rompido” com a indústria fonográfica). Faria tudo novamente. A única coisa que me arrependo foi quando o Gonzaguinha me convidou para me produzir no Rio de Janeiro e eu, muito louco, “xarope”, não fui — diz. — Hoje não estou de guerra com ninguém e estou em paz comigo mesmo. Isso é glória. Estou muito adestrado e lúcido. Quero fazer o meu som e dane-se o mundo que eu não me chamo Raimundo.

