Poucos dias após as comemorações do Dia do Cinema Brasileiro, na última sexta-feira (19), um documentário sobre os pioneiros do cinema no país começa a ser exibido em festivais pelo Brasil. O filme em questão é “Os irmãos Segreto”, coprodução entre Itália e Brasil dirigida por Federico Ferrone e Michele Manzolini, que integra a programação do 8 ½ Festa do Cinema Italiano e da CineOP — 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
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O doc acompanha a trajetória de Pasquale, Gaetano e Alfonso Segreto, três irmãos imigrantes italianos que se tornaram os primeiros entusiastas do cinema no Brasil. Pasquale foi responsável por fundar o Salão de Novidades Paris, primeira sala de cinema fixa do país, estabelecida em 1897 na rua do Ouvidor, no Rio. No ano seguinte, Alfonso chegaria ao Rio com novos filmes comprados em Paris e Nova York e equipamento para produzir seus próprios curtas, na época chamados de “vistas”. Antes mesmo de desembarcar, ele registrou imagens da entrada da baía de Guanabara, se estabelecendo, pela história, como o primeiro cineasta do Brasil.
— Espero que as pessoas vejam “Os irmãos Segreto” como um conto de fadas e uma declaração de amor ao cinema e à imigração italiana no Brasil, que é um país muito importante na memória da história da Itália — conta Federico Ferrone, de 45 anos, que está no Brasil para apresentações do longa em Brasília, São Paulo, Ouro Preto e Rio. — Mais do que um documentário sobre histórias e entrevistas, é um filme de emoções e memórias.
Esta não é a primeira vez que Ferrone trata da imigração italiana no Brasil no cinema. Em seu longa de estreia, “Merica” (2007), também com codireção de Michele Manzolini, o italiano faz um paralelo entre a vinda de italianos para o Brasil no século XIX e ida de brasileiros para a Itália no século XXI.
Ferrone lembra que a ideia do documentário nasceu no Brasil, a partir de Hernani Heffner, diretor da Cinemateca do MAM/RJ, entidade que é produtora associada do projeto, que tem narração do ator Paulo Betti.
— O Hernani conhecia bem a história e achava os irmãos Segreto uma espécie de irmãos Lumière da história do Brasil. Ele conhecia o meu trabalho com Michele, que é muito dedicado ao cinema de arquivo, de história, então achou que seria uma boa oportunidade fazermos esta pesquisa sobre estes três irmãos que são totalmente desconhecidos na Itália e também pouco valorizados no Brasil. Tivemos um interesse muito grande desde o início — diz o diretor.
Referência na preservação audiovisual no país, Heffner é creditado como coordenador de pesquisas do documentário. Ele destaca, na obra, a presença de imagens raríssimas do Rio descobertas no exterior, como uma cena de arquivo de 1900, dos arquivos da Pathé, que permite ver a cidade antes das transformações urbanas advindas da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco) em 1905. Este seria o registro mais antigo do Brasil em filme.
— “Os irmãos Segreto” é um trabalho que demonstra o poder da arte e os novos caminhos da história ao reimaginar a vida de personagens tão importantes para o cinema brasileiro e que não deixaram quase nenhuma documentação ou filme. Com a criação de Ferrone e Manzolini podemos agora fazer uma primeira aproximação poética às nossas origens cinematográficas — celebra Heffner.
Cinema italiano em foco
Em sua 13ª edição, o 8 ½ Festa do Cinema Italiano acontece entre 25 de junho e 1º de julho, de forma simultânea, em 16 cidades brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Niterói, Búzios, Aracaju, Recife, Maceió, Fortaleza, Salvador, João Pessoa, Belém, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, Caxias do Sul e João Pessoa.
Dentre os destaques da programação estão “Caro diário” (1993), clássico de Nanni Moretti que rendeu a ele o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes, “Modi — Três dias nas asas da loucura”, longa dirigido por Johnny Depp inspirado na vida de Amedeo Modigliani, e “Fuori”, de Mario Martone, exibido na mostra competitiva de Cannes no ano passado.
Completam a programação: “A última rodada”, de Francesco Sossai; “Primavera”, de Damiano Michieletto; “O negociador’, de Alessandro Tonda; “O menino da calça rosa”, de Margherita Ferri; “Três vezes adeus”, de Isabel Coixet; e “Agnus Dei”, de Massimiliano Camaiti.
Nas ladeiras mineiras
Já a CineOP acontece entre 25 e 30 de junho, na tradicional cidadezinha mineira. Em sua 21ª edição, a mostra reúne 135 filmes, de 18 estados e seis países. Em 2026, o evento prestará uma homenagem à cineasta Helena Solberg, com a exibição de alguns de suas obras mais marcantes, como “Carmen Miranda: Bananas is my business” (1995).
“Os irmãos Segreto” integra a mostra preservação da CineOP ao lado do clássico nacional “O ébrio” (1946), de Gilda Abreu, e o argentino “O filme infinito” (2018), de Leandro Listorti.
Apesar do reconhecido foco para a preservação e a história do audiovisual, a programação da CineOP também reúne obras inéditas em pré-estreia nacional, como são os casos de “Anistia 79”, de Anita Leandro, “Fernanda Abreu — Da lata 30 anos, o documentário”, de Paulo Severo, “Fernando Coni Campos: Cada um vive como sonha”, de Luis Abramo e Pedro Rossi, “As dores do mundo — Hyldon”, de Emilio Domingos e Felipe David Rodrigues, e “Vivo 76”, de Lírio Ferreira.
Cinema na praça é destaque na CineOP — Mostra de Cinema de Ouro Preto
Leo Lara/Universo Produção

