Em 1975, Fafá de Belém tinha 18 anos de idade e começava a levar a sério sua carreira de cantora. Ela tinha acabado de conseguir um contrato com a gravadora Polydor e recebeu a seguinte notícia do produtor Roberto Santana:
— Ele disse: “Vamos fazer um compacto simples com duas músicas do João Donato!” Uma com Gilberto Gil, que era “Emoriô”; e outra com Caetano Veloso, “Naturalmente”. Eu nem pensava ainda em sair de Belém e já ganhava dois presentes. E, quando cheguei ao estúdio, a gravação era com o próprio Donato! Aí foi paixão à primeira vista — recorda-se Fafá, que acabaria vendo “Emoriô” ser descoberta nos anos 2020 pelo público jovem (inclusive no exterior) e virar sua música mais tocada no streaming, com mais de cem milhões de plays.
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E não faltaram lembranças de Donato na tarde do último dia 25, quando a cantora gravou, sob direção de Marcos Valle, a sua interpretação para “De um jeito diferente” (Donato e Lysias Enio), canção que foi lançada em CD por Emílio Santiago. Com um arranjo novo de Marcos, ela entrará em “Viva Donato”, estrelado disco tributo com previsão de lançamento para novembro, pelo Selo Sesc. Gil, Djavan, Ivan Lins, João Bosco, Bebel Gilberto, Margareth Menezes, Silva, Fernanda Abreu, Dora Morelenbaum, Roberta Sá e Antonio Adolfo são convidados do projeto, que é tocado pela produtora Regina Oreiro e por Ivone Belém, viúva do compositor.
Fafá de Belém conta que Donato — pianista e compositor que antecedeu a bossa nova com seu estilo jazzístico, ao mesmo tempo sofisticado e minimalista — costumava chamá-la de “Pandinha”, por causa das olheiras. E que ligava para ela, a qualquer hora, para ter os papos mais inusitados.
— Um dia, ele disse: “Pandinha, você tem que acabar com esse negócio!” Mas o quê? “De você e Gal.” E eu: “Mas como assim, eu e Gal?” Ele: “As pessoas ficam criando intriga entre vocês duas e eu amo as duas.” E eu nem conhecia a Gal nessa época, era admiradora dela, só. Mas o Donato insistiu: “Vamos ao aniversário de Gal!” Eu falei: “Mas ela vai me deixar entrar?” (risos). Fomos, e aí conheci a Gal, conheci Dona Mariá (a mãe da cantora)… — conta Fafá, em meio a algumas de suas caraterísticas gargalhadas.
Fafá ainda tentou se comunicar com João Donato logo que ele foi internado pela última vez, para tratar de uma infecção nos pulmões (ele morreu em 17 de julho de 2023, faltando exatamente um mês para completar 89 anos de idade).
— Dois franceses tinham feito um remix de “Emoriô” que explodiu nas paradas. Eu estava ligando para dizer: “Donato, agora a gente está no mundo!” Mas pouco tempo depois soube que ele tinha morrido — lamenta.
“Viva Donato” era um disco que estava sendo pensado com o músico ainda vivo, para a comemoração dos seus 90 anos. A produção tinha sido iniciada com Regina Oreiro, produtora que havia cuidado, para o Sesc, de outro disco, em homenagem aos 90 anos de Carlos Lyra (que morreu justamente aos 90, em 2023, mas ainda teve oportunidade de ouvir o trabalho, do qual João Donato, por sinal, participou).
Algum tempo depois da morte de Donato, Regina retomou, junto com Ivone Belém, o trabalho de arregimentar os convidados, músicos e arranjadores.
— A gente não queria fazer um disco que falasse do passado, de morte, a gente queria uma coisa para cima, então veio esse nome, “Viva Donato” — conta Ivone, com quem o músico vivia desde 1999, e que, depois de fornecer canções inéditas do marido para discos recentes de Leila Pinheiro e Gilson Peranzzetta, resolveu deixar os convidados à vontade para mexer na obra consagrada do compositor.
O disco acabou ficando com apenas duas inéditas: “Aquela delícia singela” (uma das últimas composições do músico, com Joyce, cantada por Silva, com um arranjo de Marcos Valle) e “Vamos combinar”, de Donato e Marcos, cantada por Patrícia Alví. Os arranjos do disco, na maior parte, ficaram com Marcos Valle e Dori Caymmi, e os demais com Kassin e Dora Morelenbaum (para a sua própria interpretação com a mãe, Paula Morelenbaum, de “Cadê Jodel”).
— Dora já tinha feito o arranjo da “A rã” quando era estudante. E o João pirou. Ele dizia: “O que é isso, essa criança? Como é que essa menina já está fazendo tudo isso?” — diz Ivone Belém.
O clássico “Nasci para bailar” (parceria com Paulo André Barata, popularizado pela gravação de Nara Leão) ficou em “Viva Donato” com Fernanda Abreu. A cantora se lembra de ter conhecido o compositor quando ele passeava pelo Shopping da Gávea com o seu filho adolescente. Pois esse filho era justamente Donatinho, que cresceu e acabou indo tocar teclados na banda de Fernanda.
— Donato gostava de uma música que eu tinha cantado com o Fábio Fonseca, e um dia me falou: “Ah, você tem suingue!” E eu: “Pô, que maravilha, alguém grava aí o que ele disse!” (risos) — conta Fernanda, que um tempo depois recebeu um convite do ídolo. — Foi a glória! Fui para a casa dele na Urca, e ele ficou ao piano, a gente conversando… Donato era um cara sofisticado, mas, ao mesmo tempo, muito aberto. Gravei uma vez com ele num disco (o tributo a Carlos Lyra, cantando “Samba do carioca”) e ele me obrigou a fazer uma batida de funk com a boca. Mas a coisa ficou legal!
“Viva Donato” é repleto de participações de pessoas que fizeram parte da vida de João Donato, como Gilberto Gil, com quem, além de “Emoriô”, ele compôs “A bruxa de mentira” e “A paz” — aqui regravada pelo baiano em dueto com Monica Salmaso. “O afeto com todas as pessoas com quem ele se relacionava, aquele relaxamento profundo, essa era uma marca, era a coisa mais flagrante na personalidade dele. Isso era que dava o sentido mesmo dos nossos encontros para fazer música”, descreveu Gil, para um minidoc que acompanhará o disco.
Outra participação sentimental foi a de Bebel Gilberto: a menina, filha do amigo João Gilberto e em cuja cama Donato dormia de manhã, logo que os dois voltavam da noitada e ela ia para o colégio (a mesma que, quando adulta, regravou sua “Bananeira” para um disco de projeção internacional). Em “Viva Donato”, Bebel cantou “Nua ideia”, parceria do compositor com Caetano Veloso, com arranjo de Marcos Valle — por sinal, um dos amigos mais antigos de João Donato, que ficou encarregado de cantar a “Vamos combinar”, inédita composta a partir de um desencontro.
— Cheguei um dia lá na casa do Donato, eu e Patrícia (Alví, sua mulher, cantora), batemos na porta e ele não atendeu. Depois, ele apareceu de pijama. Eu falei: “Marcamos um encontro”. E ele: “Era ontem! (risos) Mas entra, fica aqui.” — relata. — Começamos a falar de Ravel e de Debussy, aquilo nos levou pro piano e fizemos essa canção, letra e música, fizemos tudo ali. Mas a gravação ficou perdida, o João me mandou ela pouco antes de morrer, dizendo que eu tinha que gravar ela com a Patrícia. Na fita não tinha o começo da música, que eu refiz agora, e botamos esse título de “Vamos combinar”.
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Para Ivone Belém, Marcos Valle era uma espécie “de irmão mais novo, protetor” do seu marido:
— Aonde o Marcos ia, ele levava o João! Marcos conheceu Donato no início dos anos 1960, na casa do compositor Lula Freire, quando ia mostrar uma de suas músicas, “Sonho de Maria”, para o Tamba Trio (o grupo gostou da composição e essa seria a sua primeira música gravada).
— Estávamos lá eu e Edu (Lobo) quando o Tom (Jobim) diz: “Daqui a pouco chega o meu professor.” E vem o João, a gente se debruça no piano, e ele passa a noite inteira tocando os mesmos dois acordes, não saía disso. E eu: “Pô, mas não é possível!” — diverte-se Marcos Valle. — Quando fui para os Estados Unidos pela primeira vez, reencontrei com o Donato. Ele já estava lá há muito tempo, tocando com os cubanos. Aí um dia ele me liga, chorando, e diz: “Marcos, vem aqui, levaram a minha filha!”. A mulher dele naquela época, que era americana, tinha ido embora poucos momentos antes, levando a Jodel, que estava com 6 anos de idade. Ele estava no ajoelhado, aos prantos, vi aquela cena e fiquei muito triste.
No começo dos anos 1970, já de volta ao Brasil, Marcos recebeu outra ligação de João Donato. Ele contou tinha vindo para o Rio de Janeiro atrás de um amor que não dera em nada e ia voltar para os EUA. Ouvindo isso, Marcos pediu para o amigo aguardar um pouco, foi em sua gravadora, a Odeon, e sondou com o diretor musical Milton Miranda a possibilidade de fazer um disco com Donato.
— O Milton não queria gravar, porque achava o João muito doido. E aí perguntou: “Você produz?” E aí eu produzi o disco, “Quem é quem” (de 1973). Esse foi o encontro que fez o Donato ficar no Brasil — conta. — Ele veio com umas fitas cassete em que falava umas coisas do tipo “aquele bar é uma loucura” e não sei mais o quê, e nas quais até cantarolava alguma coisa. Quando ouvi aquilo, eu disse: “Cara, você vai ter que cantar nesse disco!” E ele: “Eu lá sou sabiá?”. Confirmei: “Sim, e quero que você cante do jeito que está aqui nessa fita, quero pegar a tua alma”. “Quem é quem” acabou sendo o primeiro disco em que ele cantou.
“Quem é quem” foi reconhecido como um LP antológico, por causa de músicas como “Chorou, chorou”, “A rã”, “Amazonas” e “Cadê Jodel”, parceria com Marcos Valle, que tinha acompanhado o seu drama com a filha. Em 1974, foi a vez de Marcos voltar para os Estados Unidos, enfadado com a censura da ditadura. E lá, reencontrou Tom Jobim, que preparava o disco “Tom & Elis”:
— Ele me abraçou, me beijou e me agradeceu muito pelo disco que eu tinha feito! — emociona-se. — Meu estilo tem muito a ver com o dele, e o dele tem muito a ver com o meu. A simplicidade com uma sofisticação nos acordes, a abertura rítmica… Eu sempre me identifiquei muito com ele. E adorava fazer show com o Donato. Ele manteve esse jeito dele até o fim da vida, ele não mudou, a vida inteira ele foi uma criança. Um dia, ele me falou assim: “Acho que eu tenho 4 anos de idade!”.