Guto Ferreira carrega no currículo uma das marcas mais valorizadas do futebol brasileiro: o resultado. Aos 60 anos, o atual técnico do Vila Nova, primeiro entrevistado da temporada 2026 do Divã, construiu a carreira empilhando campanhas que levaram clubes à primeira divisão — feito que alcançado com o Remo no ano passado, além de Sport, Internacional, Ponte Preta e Bahia. Agora, tem nova missão: conduzir o Tigrão à Série A.
A trajetória no futebol começou cedo, ainda na adolescência, e sem passar pelos gramados como jogador profissional. Aos 16 anos, Guto já dirigia equipes jovens, impulsionado por uma formação ligada ao ambiente educacional e à liderança no Colégio Salesiano Dom Bosco, em Piracicaba (SP). A formação religiosa foi complementada pela faculdade de Educação Física, que o levou a trabalhos na base de São Paulo e Internacional.
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Foi no Sul que deu seus primeiros saltos relevantes. Passou pelas categorias de base, virou auxiliar e, posteriormente, assumiu o time principal do Inter, onde chegou a conquistar o Campeonato Gaúcho, em 2002. Mesmo após deixar o cargo, permaneceu no clube em funções estratégicas, num período em que o futebol brasileiro começava a estruturar departamentos de futebol mais modernos e comissões mais robustas. Mas foi no Remo, ano passado, que fez mais um trabalho marcante, subindo da Série B para Série A. Ainda assim, decidiu ir embora.
— Foi uma opção pessoal. Quando muda de divisão o buraco é mais embaixo. Estava em uma fase boa, mas aquilo acabou. O plantel não ia ser mantido na essência, era direcionado para a Série B. Aí vem a cultura. Mudou, perdeu três, é rua. Para que vou querer ficar lá, para tomar um pé na bunda? Procurei uma cláusula que me desse proteção. A direção se negou a aceitar. Quem se nega a gastar só se me tirar, é que não acredita 100% em mim. O que eu vou fazer lá? Isso depois de ter trazido o resultado. Futebol é assim, também tem que ser inteligente. Fico lá, tomo duas buchas, e em vez de ser o cara que subiu sou o que não tem qualidade para trabalhar na Série A. Tenho resultado nas duas. Sempre trabalhei em clubes com menor investimento com resultados de meio de tabela — desabafou Guto ao O GLOBO.
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Entre poucas frustrações no futebol, o técnico também lembra a demissão no Bahia em 2022: — Saí com mais de 60% de aproveitamento. O time figurou no G4 o ano todo. Teve que baixar valores da folha salarial e perdeu a espinha dorsal.
A bronca com a cultura imediatista passa também pelas soluções estrangeiras. Para Guto Ferreira, os trabalhos de técnicos no Brasil sofrem com as avaliações precipitadas, que levaram a procura por profissionais de outros países. Vários deles, porém, já entraram na ciranda de demissões:
— O milagre está acontecendo? A diferença é a síndrome do vira-lata, que tudo que é de fora é melhor. Qualquer profissão não é onde nasceu que determina qualidade. Tem os bons, médios e ruins. Às vezes, os bons não conseguem realizar porque a harmonia local acaba conduzindo o rumo do trabalho, não só para parte técnica e tática, mas os resultados não vão acontecendo, e muda gestão de grupo, mentalidade do clube em si, do torcedor. Antes precisa plantar. E demanda tempo pra atingir os encaixes.
Guto também acompanhou — e viveu — as transformações do jogo nas últimas décadas. Da preparação física baseada na resistência às metodologias mais voltadas à explosão e intensidade, ele vê a evolução como inevitável. O impacto do Barcelona de Guardiola, por exemplo, vai além do estilo de jogo. Hoje, enxerga um futebol cada vez mais condicionado pelas transições e pela capacidade física dos atletas, com tendência a dinâmicas próximas de outros esportes coletivos, como o handebol. Ao mesmo tempo, faz críticas ao calendário brasileiro, que, na sua visão, prejudica o desenvolvimento técnico das equipes.
— O futuro do futebol, pelas quatro fases do jogo, tende a seguir caminho parecido com o handebol. Mas lá tem troca o tempo todo de jogadores. O cara que defende e o que ataca tem condicionamentos físicos diferentes. Vai chegar num momento, e já tá assim, onde a transição vai ser primordial. Como o jogo é realizado com os pés, a pressão após perda, com posicionamento de atacar marcando, para não permitir ganho de tempo e espaço para organizar contra-ataque. Isso tudo está sendo cada vez mais decisivo. Se regras não mudarem, caminha pra isso — disse Guto.
Como começou no futebol?
Estou no futebol desde os 16 anos. Nunca joguei bola. Acho que o preconceito para essa questão está como você enxerga. O resultado direciona. Faz você galgar espaço. Tive a felicidade de ter a oportunidade de trabalhar num clube próximo de profissionais da nata. Parreira (Carlos Alberto), Muricy (Ramalho), Abel (Braga), Paulo Autuori, Tite… E depois enfrentá-los.
Era fanático por esporte. No colégio existia movimento de atendimento das crianças da comunidade, através da educação. E tive oportunidade de contar com padres e uma mentoria, a filosofia do colégio para trabalhar lideranças, etc. E um padre que era fanático por futebol, ele saiu, mas tive oportunidade de estudar gratuitamente. Um outro padre veio e se aproveitou da situação e botou as lideranças para atuar. Alguns foram para o teatro, catequese, e eu fui para o esporte. E com 16 anos dirigia os garotos de 12. Lia sobre futebol na revista Coquetel que saía na banca. Até que fui fazer Educação Física.
Na época de faculdade eu praticava vôlei. Era oportunidade de estudo gratuito. Era do time, treinava bem. Buscava oportunidade para bolsa. Fui fazer outras coisas para ter a bolsa. Levei a conscientização sobre gestão, grupo, fases de treinamento. E com 23 anos começo como preparador físico. No XV de Piracicaba, entrava como interino preparador e também treinador, aí o time subia de produção. Chegava outro, mudava tudo, e caía.
O esporte sempre foi minha vida. O futebol como via mais forte. Saía de um treino de uma modalidade e passava na outra. Meus pais falavam: a única herança é o estudo. Busque o que vai fazer feliz. Meu pai era eletricista de forno de alta tensão. E minha mãe costurava para fora. São três filhos formados com nível superior. Dois engenheiros e eu (risos).
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Como o rodízio de clubes influencia na vida pessoal?
Tenho uma base em Piracicaba. Meus filhos são gaúchos. A família é de São Paulo. Meus pais se foram, irmãos moram fora. Família da esposa toda de Piracicaba. Um filho há seis anos mora em Belo Horizonte, formado em Direito esportivo. Outro filho faz engenharia na USP (Universidade de São Paulo).
Como foi o seu início no mundo da bola?
Saímos do interior. Fiquei no São Paulo dois anos. Inter me levou para o sub-20 através do professor Medina, que também tinha um projeto no São Paulo. No Inter tive meus dois filhos. Fui galgando degraus. Sub-20, auxiliar da casa, no segundo ano assumi o profissional, fui campeão gaúcho. No Brasileiro fui tirado da condição de treinador. Mas como era de confiança do Fernando Carvalho (presidente do clube) na época, fiquei fora do futebol diretamente, mas no mercado. Os vídeos eram fitas cassetes, ia in loco com um pouco de internet assistir aos jogos e trazer informação de jogadores, contratos, tentar descoberta de brasileiros fora e dentro do país. Começo dos anos 2000. Já viajava para aprovar contratações de forma sigilosa. Isso se acentua quando eu subo. Ali estavam surgindo as primeiras equipes multidisciplinares. A imprensa falava que tinha muita gente dentro do campo. A gente revezava quem ficava com o time era o Zé Mário e quem viajava éramos nós auxiliares. Saía de casa terça e voltava quinta. Saía sábado e voltava segunda. Necessitava mapear os estaduais. Eu fui auxiliar da casa com o Tite. Eu e Cleber Xavier. Aprendi muito com eles.
Minha comissão sou eu e mais quatro. Um preparador físico, Jorge Stoter, auxiliar do ataque, Juca Antonello, posse e construção. Isso não quer dizer que todos não atuem em outras áreas. A parte de defesa do Wellington, ex-zagueiro do Málaga-ESP, e bola parada André Luís, zagueiro ex-Inter. Procuro agregar os profissionais da casa. Serviço tem para todos.
O que mudou em quase 30 anos de futebol?
Tem muita coisa que é antiga. O que mudou foi a nomenclatura, que antes não era tão direta dentro do futebol. Vinha pela região, pelo treinador. E hoje ganhou uma diretriz. Taticamente os conceitos são mais estudados e necessitam de explicação minuciosa. Os termos vão sendo unificados. A linguagem começou a ficar mais homogênea. O pessoal mais antigo tem alguma dificuldade. A vida toda teve uma explicação e tem que mudar tudo para falar a mesma coisa. Os conceitos de treinamento também foram sendo atualizados. O primeiro salto foi a evolução da preparação física. Em 1970, 80, 90, é embasada no atletismo, resistência. Em determinado momento, o Athletico começou a trabalhar a metodologia com a leitura sobre o futebol era de um esporte menos contínuo, com ações rápidas, estourando com pausa entre ação e outra. Começou a se valorizar mais a força, principalmente no Brasil. Ela mantém desempenho e acelera recuperação. Quem tá bem na força aguenta mais. O resultado pela força faz com que jogue mais, caindo resultado, mas no todo desempenha igual. A partir do Guardiola, o tik-taka, não foi só mudança técnica e tática, foi física. Por que o jogo imprimiu intensidade grande. E pela manutenção de posse, as equipes não estavam preparadas para jogar. Era novidade. O mundo não tinha metodologia para rivalizar. Quando atua com muita intensidade, não tá preparado, a perna pesa. E quem tem a posse tem o domínio. Com o passar dos anos, os clubes foram nivelando. Hoje o tik-taka não existe mais.
O futuro do futebol, pelas quatro fases do jogo, tende a seguir caminho parecido com o handebol. Mas lá tem troca o tempo todo. O cara que defende e o que ataca têm condicionamentos físicos diferentes. Vai chegar num momento, e já tá assim, onde a transição vai ser primordial. Como o jogo é realizado com os pés, a pressão após perda, com posicionamento de atacar marcando, para não permitir ganho de tempo e espaço para organizar contra-ataque. Isso tudo está sendo cada vez mais decisivo. Se regras não mudarem, caminha para isso.
O que vem na sequência: o jogo propositivo só é seguro e qualificado quando tem uma equipe muito técnica ou atlética, um nível de treinamento de conjunto e movimentos mentalizados, e usado principalmente quando o adversário baixa a linha. Ele atrai para a pressão para usar as costas. E quando não consegue jogar pé em pé, estica a bola. Mas se não sai lá de trás, entra o predomínio pro jogo propositivo. Não chega no último degrau se não passar pelo primeiro. Se ficar pulando e não tiver consistência, corre o risco de cair. Cabe ler as virtudes e deficiências para organizar tudo isso. Esses quesitos são equilibrados pela entrega física, ocupação de espaço.
E no Brasil, qual o futuro?
Uma das maiores festas do mundo é o carnaval. Mas está tão profissionalizado que ensaiam semanalmente, diariamente, para colocar dentro do processo de organização duas mil pessoas pra uma apresentação. Hoje no futebol mundial cada vez mais se joga. Como buscar qualificação se na hora em que está jogando deveria treinar? O fato de não poder trocar jogador o tempo todo gera desgaste necessário para zerar em 48 horas. Por isso precisa trabalhar muito bem na organização do treinamento. Quem não souber trabalhar o mercado vai limando. Hoje no Brasil não se preza pela qualificação, mas massificação do espetáculo. Precisa do calendário. Os profissionais vão surgir.
A onda de estrangeiros acabou?
O milagre tá acontecendo? A diferença é a síndrome do vira-lata, que tudo que é de fora é melhor. Qualquer profissão não é onde nasceu que determina qualidade. Tem os bons, médios e ruins. Às vezes, os bons não conseguem realizar porque a harmonia local acaba conduzindo o rumo do trabalho, não só pra parte técnica e tática, mas os resultados não vão acontecendo, e muda gestão de grupo, mentalidade do clube em si, do torcedor. Antes se precisa plantar. E demanda tempo para atingir os encaixes.
A NBA hoje tem jogadores mais altos com agilidade do armador. Evoluiu o modelo de treino. Viram que era possível qualificar. Nenhum time de NBA se desfaz, é remontado, e na primeira temporada que não ganha muda tudo. No futebol, monta o time e no primeiro campeonato já quer que ganhe. O Liverpool do Klopp demorou quatro anos sem ganhar para chegar no estágio que chegou. Os resultados evoluíram. O final só foi atingido depois. Quando veio, passou o rodo.
Como vê o futebol e a vida nos dias de hoje para manter-se saudável?
Tem uma via mais espiritual, suas missões, no que você acredita aqui. A diretriz profissional. O que vai te trazer felicidade. Mas tem que ter noção de que precisa ser capacitado. As pessoas mudam, os valores mudam. Os nossos valores não são os dos nossos filhos. Tem que ir assimilando. Através de estudo, convivência, busca por informação. Não pode se limitar a viver o mundinho da bola. Vai se mantendo buscando novidades. O Guto do Bahia não é o mesmo de hoje. Sou mais maduro, com ideias ainda mais progressistas. Eu sempre tive um pouco de vanguarda, conseguia enxergar dessa forma. E hoje eu busco dentro do possível. Não sei se é isso mesmo ou se estou encostando em quem veio na frente. Queremos estar junto de pessoas. Impossível o treinador gerir tudo e estar no meio do campo dando treino. Se estiver não vê metade do que acontece. A responsabilidade é enxergar o todo e gerir. Através do diálogo, direcionar.
Algum trabalho foi xodó?
Todos são. Cada um traz alguma coisa importante. Isso só acontece por causa desses valores, que se agregam para oportunizar o resultado. Tem as culturas locais, sempre importantes, para valorizar e trabalhar dentro disso. A busca no jogo não é só ganhar. Qual o resultado da vitória? Trazer o que ao torcedor? Alegria. E isso está relacionado com o quê dentro da cultura? Não adianta nada ter a vitória se não absorve o lado cultural do que o torcedor busca. Dependendo, vai ter até mais valor. A cultura é uma coisa que bloqueia a percepção do que realmente é a verdade. Tem que saber contornar.
Quem gostaria de treinar?
Os que eu gostaria de comandar já pararam. As pessoas que passaram na sua vida não passam por acaso.
Quem gostaria de treinar que já parou?
Muita gente. Rivaldo eu vi iniciar no Mogi Mirim. Trabalhei com jogadores como Lúcio, zagueiro. Diniz era craque de futsal.
Quem hoje gostaria de treinar?
Admiro a visão do Casemiro. O lado profissional. O tipo de liderança. A conduta enquanto pessoa.
Neymar deve ser convocado para a Copa do Mundo?
O Neymar recuperado, num nível de competitividade que a gente conheceu, é burrice não levar. No estágio que ele está, ou vai estar, e como o Ancelotti pensa a seleção, é que ele vai perceber se vale levar ou não. Não tem só o jogo dentro do campo. O que vai trazer ou tirar de pressão, de confiança. O quanto vai contribuir se não tiver jogando, vai ter um bom tempo sem jogar. Se o estágio físico atual for desequilibrante.

