Pular para o conteúdo
outubro 23, 2026
BRcom
Dólar PTAXR$ 5,0371
News

Divisão republicana: Trump defende anúncio de candidato que explora rompimento de rival com sua mãe por denúncia de abuso sexual

Por · outubro 23, 2026
Divisão republicana: Trump defende anúncio de candidato que explora rompimento de rival com sua mãe por denúncia de abuso sexual


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, saiu em defesa de uma propaganda eleitoral controversa do republicano Vivek Ramaswamy, candidato ao governo do estado americano de Ohio, que usa o depoimento da mãe afastada de sua adversária democrata, Amy Acton, para atacar a credibilidade da rival. O vídeo, que provocou críticas dentro do próprio Partido Republicano, explora um rompimento familiar ocorrido há décadas, quando Acton ainda era adolescente e seu padrasto foi acusado de abusar sexualmente dela. Na quinta-feira, Trump não apenas defendeu a peça, como incentivou Ramaswamy a mantê-la no ar e cobrou que outros republicanos deixassem de criticá-la.Eleições/EUA: Democratas apostam em frente ampla e estratégia digital contra extrema direita
Eleições/EUA: Democratas apostam em frente ampla e estratégia digital contra extrema direita
Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp
Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países
— Olhe para o alto e diga: “Muito obrigado, Deus. Eu agradeço” — contou Trump à plateia durante um comício em Iowa na noite de quinta, ao recordar o conselho que teria dado ao candidato republicano.
Vivek Ramaswamy, candidato republicano ao governo do estado, discursa em um comício de campanha em Youngstown, Ohio, em 12 de outubro de 2026
Kenny Holston / The New York Times
A controvérsia expõe divergências dentro do partido a menos de duas semanas das eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro. Enquanto Trump e o vice-presidente dos EUA, JD Vance, reforçaram o apoio a Ramaswamy, políticos republicanos de Ohio e de outros estados condenaram o anúncio. O episódio também levanta dúvidas sobre os ganhos eleitorais que a estratégia pode trazer e sobre o custo de associar o partido a uma campanha que transforma uma história de abuso infantil alegado em instrumento de ataque político.
Rompimento familiar
A propaganda mostra a mãe de Acton falando diretamente para a câmera e chamando a filha de “mentirosa”, além de pedir que os eleitores não votem nela. As duas estão afastadas há décadas: Acton não vê nem mantém contato com a mãe desde 1978, quando tinha 12 anos e seu padrasto foi acusado de estuprá-la.
Initial plugin text
Segundo relatos anteriores da própria democrata à imprensa de Ohio, os abusos teriam durado três anos. Sua mãe ficou ao lado do marido, e não da filha, após as acusações. A propaganda não menciona diretamente o suposto abuso sexual, mas apresenta o depoimento da mãe como argumento para questionar a honestidade de Acton e sua versão sobre a infância.
Amy Acton, candidata democrata ao governo de Ohio, durante um evento com líderes sindicais em Columbus, Ohio, em 13 de fevereiro de 2026
Jessica Phelps / The New York Times
Ex-diretora do Departamento de Saúde de Ohio, Acton disputa o governo estadual com Ramaswamy em uma corrida considerada competitiva, apesar da inclinação historicamente republicana do estado. O candidato, de 41 anos, ganhou projeção nacional durante a disputa pela indicação republicana à Presidência em 2024, quando se apresentou como crítico da chamada cultura woke e aliado de Trump.
‘É a luz que me guia’: Confrontado sobre fé islâmica, democrata dá aula sobre a Constituição dos EUA; veja vídeo
O anúncio provocou críticas de integrantes do próprio partido, incluindo o atual governador de Ohio, Mike DeWine, que classificou a peça como “profundamente preocupante”. Também se manifestaram contra a propaganda a ex-governadora da Carolina do Sul Nikki Haley, o ex-governador de Ohio John Kasich, o ex-senador Rob Portman, o secretário de Estado de Ohio, Frank LaRose, e a diretora do Departamento de Desenvolvimento de Ohio, Lydia Mihalik.
O senador Jon Husted, que disputa uma eleição acirrada para manter sua cadeira, afirmou que não teria veiculado o anúncio. Até mesmo Casey Putsch, adversário de Ramaswamy nas primárias republicanas e identificado com a extrema direita, criticou a iniciativa.
Trump dobra a aposta
Trump, por sua vez, tratou a propaganda como um trunfo eleitoral. Em uma publicação nas redes sociais, elogiou a mãe de Acton por sua suposta coragem ao se manifestar contra a filha e classificou o anúncio como uma “mina de ouro”. O presidente também atacou DeWine, a quem chamou de desleal ao Partido Republicano por ter criticado a peça.
Eduardo Graça: Carimbar a extrema direita de anticristã tem dado certo para os religiosos do Partido Democrata
Durante o comício em Iowa, Trump voltou a defender o anúncio, embora estivesse no estado para fazer campanha por Ashley Hinson, candidata republicana ao Senado. Hinson havia pedido publicamente que a propaganda fosse retirada do ar, afirmando que era “absolutamente terrível” obrigar Acton a reviver aquele trauma, segundo a rede americana ABC News. Ela não abordou o assunto enquanto dividia o palco com Trump.
Mais cedo, questionado por jornalistas sobre as acusações de abuso sexual envolvendo o padrasto de Acton, o presidente afirmou não conhecer os detalhes do conflito familiar. Ainda assim, sustentou que a mãe deveria ser ouvida e que a democrata seria um alvo legítimo de ataques políticos.
— Mesmo que seja um pouquinho verdade, você não quer essa mulher como governadora — afirmou Trump, referindo-se às acusações feitas pela mãe contra a filha.
Sem salto alto: Cautelosos com derrota de 2016, democratas mantêm mobilização apesar de favoritismo
O presidente também criticou republicanos que se posicionaram contra o anúncio. Uma fonte ouvida pela emissora CNN disse que Trump considera “fracos” os correligionários que condenaram a propaganda e acredita que a reação negativa dentro do próprio partido prejudica os republicanos.
Vance, ex-senador por Ohio, também saiu em defesa de Ramaswamy. Na quarta-feira, afirmou estar enojado com republicanos que, segundo ele, preferiam reclamar da propaganda a apoiar o candidato.
A campanha de Ramaswamy declarou que não pretende retirar o anúncio, mesmo após a manifestação de DeWine. A equipe do candidato argumenta que a própria Acton teria atacado a mãe de seu adversário em um comunicado anterior.
— O governador DeWine tem razão ao afirmar que a primeira e única candidata a atacar a mãe de seu adversário nesta disputa foi Amy Acton — disse Connie Luck, porta-voz da campanha de Ramaswamy. Ela acusou a democrata de ter mentido e difamado a mãe do republicano.
Risco eleitoral
A insistência de Trump em defender a propaganda contrasta com o desconforto manifestado por integrantes do partido e ocorre em um momento delicado para os republicanos, que tentam preservar suas posições nas eleições de meio de mandato. A disputa em Ohio é um dos focos dessa tensão: de acordo com a CNN, um dos principais institutos de previsão eleitoral dos EUA mudou sua avaliação da corrida, antes considerada indefinida, para favorável aos democratas.
A controvérsia também expõe uma transformação na política republicana de Ohio. O estado, tradicionalmente associado a políticos com longa trajetória no serviço público, como DeWine, passou a dar mais espaço a candidatos que vieram do setor privado e construíram suas carreiras políticas com forte presença nas redes sociais. Além de Ramaswamy, o ex-senador JD Vance e o senador Bernie Moreno são exemplos dessa mudança.
Até agora, integrantes do establishment republicano estadual haviam evitado confrontar abertamente Ramaswamy. A propaganda, porém, provocou uma reação incomum e ampliou as divergências dentro da legenda para além das fronteiras de Ohio, com a manifestação de Hinson.
A dúvida é se o anúncio pode efetivamente ajudar Ramaswamy a conquistar eleitores ou se o custo político da estratégia acabará superando seus benefícios. Uma comparação histórica citada pela CNN é a campanha de 2018 contra o deputado republicano Paul Gosar, do Arizona, quando seis de seus irmãos apareceram em uma propaganda para condená-lo publicamente. Gosar foi reeleito, embora sua votação tenha caído de 71% em 2016 para 68% em 2018. O resultado, contudo, não permite atribuir a queda ao anúncio, já que aquele ciclo foi desfavorável aos republicanos.
No caso de Ohio, o cenário é ainda mais incerto: Ramaswamy aparece cerca de cinco pontos percentuais atrás de Acton na média de pesquisas recentes de boa qualidade, segundo a análise da CNN. Além disso, a comparação tem limites, porque a propaganda contra Gosar não envolvia acusações de abuso sexual.
Ao pressionar os correligionários a apoiar a peça, Trump transforma uma controvérsia local em um teste de lealdade dentro do Partido Republicano. A aposta é arriscada: além de não haver evidências suficientes para afirmar que o anúncio favorecerá Ramaswamy, a defesa pública da estratégia pode obrigar outros candidatos a responder por uma campanha que muitos deles consideram inaceitável.
(Com New York Times)

Divisão republicana: Trump defende anúncio de candidato que explora rompimento de rival com sua mãe por denúncia de abuso sexual