O uso de ferramentas de inteligência artificial na comunicação institucional tem se tornado uma estratégia popular adotada pelos governos nos âmbitos federal, estadual e municipal. Impulsionada pela rapidez e pelo baixo custo na produção de conteúdo, a expansão, porém, divide a opinião de especialistas ouvidos pelo GLOBO. De um lado, há possibilidade de a tecnologia ampliar o alcance das mensagens oficiais e modernizar a linguagem das gestões públicas. Do outro, a preocupação é com possíveis distorções e com a inexistência de limites regulatórios.
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O mecanismo tornou-se atrativo pela agilidade na produção e distribuição de conteúdos, explica João Archegas, pesquisador e coordenador do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.
— A IA generativa trouxe uma velocidade inédita para a comunicação institucional: em minutos é possível produzir conteúdo que antes levaria dias — diz. — Mas gera uma série de questionamentos sobre como ela será aplicada e como será garantida a veracidade das informações que estão circulando na esfera pública. Essa preocupação deveria começar pelos governos para, no mínimo, distinguir o que foi gerado por IA e o que não é. O problema é que, muitas vezes, há uma falta de compreensão do que é uso ético da IA.
O recurso tem sido usado para a divulgação de propostas para a recuperação da popularidade do presidente antes da eleição de 2026, como o fim da escala 6×1. O tema foi tratado recentemente em um vídeo, que circulou em grupos de WhatsApp e perfis de influenciadores ligados ao PT, que mostrava dois personagens criados por IA comentando sobre a intenção do governo de dar mais de um dia de folga para os trabalhadores “curtirem a família, descansar e retomar o trabalho com energia total”.
A estratégia passou a ser adotada pelo governo federal durante a campanha por justiça tributária, lançada em junho, diante da proposta de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil. Por meio do perfil oficial do PT, partido do presidente, foram divulgados vídeos para a difusão da “Taxação BBB: bancos bilionários e bets”. Os conteúdos defenderam que Lula “tiraria o peso” da cobrança dos impostos dos mais pobres e aumentaria taxas sobre os mais ricos.
Em outubro, a proposta foi aprovada na Câmara e no mês seguinte recebeu o aval do Senado. Na análise do diretor da consultoria Bites, Manoel Fernandes, o desempenho da campanha deu ao governo a possibilidade de ganhar terreno nas redes sociais, tradicionalmente dominadas pela direita.
As ferramentas generativas também passaram a aparecer em conteúdos de governadores como o de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que divulgou um vídeo com depoimentos fictícios de paulistanos em 2030 ao anunciar a mudança da sede administrativa do estado, que deverá sair do papel no ano que vem. Já Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, foi retratado como um “cavaleiro Jedi” em uma peça publicitária que o mostrou combatendo problemas da administração.
O uso por prefeituras do inteiror revela a versatilidade e proliferação das ferramentas. Ulianópolis, no Pará, utilizou a Veo 3, criada pelo Google, para divulgar a programação junina local neste ano. Em Amapá, localizada no estado homônimo, o pedido de namoro do jogador de futebol Vinícius Júnior para a influenciadora Virgínia Fonseca foi transformado em um vídeo para divulgar o pagamento dos servidores.
Publicitário e mestre em Tecnologia da Informação pela PUC-SP, Francisco Costa defende que as ferramentas permitem comunicação rápida sem grandes gastos para a máquina pública. Ele destaca, porém, que o uso deliberado pode representar um caminho “sem volta”.
— A inteligência artificial sempre tem um viés e, quando há esse uso deliberado pelos governos, as pessoas também se convencem de que é possível usá-la sem tanto critério, sem tanta verificação e sem a checagem da informação. Isso dificulta a distinção entre o que é verdadeiro e o falso.
O corte dos custos, no entanto, é visto como relativo por Fernandes, da Bites, que destaca a necessidade de análise do material produzido por profissionais humanos antes da publicação, especialmente em casos de peças institucionais.
— No primeiro momento, você tem ganhos, mas é perigoso falar em diminuição de custos, porque existem outros que aparecem. A IA resolve informação vista como “commodity”, mas quando se precisa de um contexto e de uma interpretação apurada, a máquina não resolve. Ela não é substituta de ninguém: ela vem para trazer produtividade, mas, no final, quem edita é a gente — pontua
A necessidade de revisão humana é destacada por Archegas, que afirma que a verificação pode ser usada como um freio para eventuais erros, distorções ou conteúdos enviesados produzidos pela ferramenta, chamados de “alucinações”.
— A partir do momento em que esses recursos são colocados nesse ciclo criativo de construção de comunicação e execução de projetos, é preciso que as pessoas entendam que a revisão humana é uma parte indispensável para garantir a veracidade das informações, principalmente no âmbito da comunicação dos governos com a população — explica.
Os parâmetros específicos para a utilização da IA, no entanto, ainda não foram fixados no Brasil, explica a pesquisadora Stefani Vogel, do laboratório Ethics4A, ligado ao Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP). O marco regulatório mais avançado sobre o tema — ainda em discussão na Câmara — também não trata diretamente do assunto. O texto, por sua vez, é baseado em um modelo de regulação que considera alto o risco em casos de personalização de mensagens para grupos específicos, interferência na formação da opinião pública, falta de transparência ou potencial de mudar comportamentos políticos ou sociais.
— A proposta deixa claro que o que importa é a finalidade: se a IA apenas organiza informação, produz conteúdo educativo ou amplia o acesso do cidadão às políticas públicas, permanece em um uso de baixo risco. Só se torna alto risco quando passa a influenciar comportamento, personalizar mensagens sensíveis ou criar conteúdo sintético sem transparência — afirma.
As restrições discutidas se assemelham ao modelo de regulamentação de IA fixado pela União Europeia. A resolução, aprovada no ano passado, considera inaceitável o uso dessas ferramentas para “a manipulação de pessoas ou grupos vulneráveis específicos”. O texto também classifica como “alto risco” sistemas que afetem “o acesso e usufruto de serviços privados essenciais e serviços e benefícios públicos essenciais”.
Em paralelo, a Albânia recebeu atenção internacional ao anunciar, no mês passado, uma agente de IA com status de ministra de Estado. Uma estratégia parecida foi adotada pela Alemanha, que anunciou em maio deste ano a criação de um avatar do ministro de Estado da Cultura e da Mídia, Wolfram Weimer. Já nos Estados Unidos, a ferramenta tem sido usada pelo presidente americano Donald Trump para marcar posições políticas do governo. O republicano já usou o recurso para a produção de vídeos que mostraram aviões que despejam fezes sobre manifestantes e que retrataram Gaza como a “Riviera do Oriente Médio”, em apoio ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.

