No centro da sala, diante de uma das amplas janelas do Chopin, repousa um piano de cauda Grotrian-Steinweg. Sobre ele, espalhados em porta-retratos dourados, mais de uma dezena de imagens guardam a memória de Regina Lemos Gonçalves, de 89 anos. Parentes, amigos, rostos sorridentes: durante muito tempo, aquelas fotografias foram o único elo da socialite com o passado. Hoje, mais serena, Regina recupera lembranças e suspira pelo seu “grande amor”: Nestor Gonçalves, o magnata dos baralhos Copag, companheiro de 45 anos de vida.
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Fala dele como se falasse de um príncipe moderno. Nestor, diz ela, fazia de tudo para agradá-la. Nas garagens abarrotadas de carros — no Chopin, em Copacabana, ou na mansão da Rua Capuri, em São Conrado — parecia já não haver espaço para novas surpresas. Carros, joias, imóveis, até animais. Sem saber o que mais oferecer, passou a perguntar como se fosse um gênio: “O que você deseja?”
— Fui tão feliz com Nestor! Ele nunca levantou a voz comigo. Era carinho o tempo todo. Ele me deu um brilhante, a coisa mais linda do mundo. Eu quase desmaiei. A garagem já estava cheia dos carros que ele me dera, e mesmo assim ele me perguntava: “E o brilhante que você queria?”. Achei que fosse esquecer — lembra Regina, que sorri com os lábios emoldurados com um batom vermelho.
Havia sempre uma cena preparada, um gesto teatral. No jantar de um de seus aniversários, em 14 de fevereiro, garçons alinhados entoaram parabéns antes que Nestor, encantado, a surpreendesse:
— “Meu bem, você não disse que queria um brilhante grande?”
— “Queria de 25 quilates.”
E ele entregou a pedra. Regina chorou tanto que mal conseguia se manter de pé, segundo ela.
No sofá rosa herdado da mãe, Carolina de Oliveira Lisboa Lemos, prima de Juscelino Kubitschek, Regina deixa escapar outras histórias. Confirma que recebeu de presente cavalos e gansos, que Nestor precisou acomodar em outro apartamento do Chopin. Ri alto ao recordar que ele quis lhe dar até uma vaca:
— Ele queria montar as instalações aqui dentro, para eu tomar leite fresquinho, quentinho. Fazia tudo por mim. Ele era doido, tadinho. Nestor disse: “Meu bem, quando a vaca botar a cabeça para fora da janela, o povo vai achar que você enlouqueceu”.
As festas no Chopin, as noites estendidas entre música e risadas, ainda lhe provocam suspiros:
A beleza de Regina, na juventude, rivalizava com a fortuna que herdara. Não por acaso, seu rosto estampava com frequência as colunas sociais e as páginas das revistas da época. No carnaval de março de 1963, alcançou o auge da exposição: foi capa da Revista Manchete, vestida de Cleópatra. A fantasia, bordada com pedrarias vindas da antiga Tchecoslováquia, reluzia sob os flashes. Sobre a cabeça, equilibrava uma coroa de ouro maciço, três quilos de esplendor que lhe conferiam a imponência de uma rainha.
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As lembranças parecem lhe fazer bem:
— Fiz um voto com ele (Nestor), de que durante a minha vida inteira jamais casaria com outro homem.
Talvez tenha sido essa paixão arrebatadora por Nestor que levou Regina, aos 33 anos, a um gesto de coragem extrema. Na noite de 26 de março de 1969, na mansão da Rua Capuri, ela empunhou o revólver calibre 32 do então namorado e disparou contra um invasor. O ato de bravura fez com que o magnata dos baralhos Copag se casasse com ela sem demora.
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Humor de Regina muda quando fala do ex-motorista
O semblante de Regina, porém, muda quando o assunto é o ex-motorista José Marcos Chaves Ribeiro, preso na última sexta-feira (29/08) pela Polícia Militar após ser localizado pelo amigo dela, João Chamarelli. Ele estava foragido desde novembro do ano passado. José Marcos estava escondido em uma das propriedades de Regina, na Rua Capuri, em São Conrado, em estado de abandono. Ele foi levado para a 12ª DP (Copacabana), onde o caso segue em investigação.
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Quando fugiu do Chopin, no ano passado, para a casa do irmão Benedicto Lemos, Regina estava desnorteada. Pesava apenas 40 quilos. Hoje, recuperada, ganhou cerca de 15 quilos, está corada, falante, e só reclama da pressão alta e de José Marcos. O ex-motorista responde a processo por tentativa de feminicídio, sequestro, cárcere privado, violência psicológica e furto qualificado contra a viúva de Nestor Gonçalves.
Sobre a suposta união estável com José Marcos, é categórica: garante que nunca se casou com ele — “só se estivesse dopada”. Lembra ainda que chegou a passar fome enquanto era mantida em cárcere privado:
— Ele saía cheio da grana e comia fora. Eu ficava com fome. Nem quero lembrar disso. Eu nem gostava dele como motorista. Corria demais. Ainda deu meus carros para os outros — reclama.
Questionada sobre a morte da irmã Therezinha Lemos Yamada, em 2016, que morava com ela durante os 10 anos em que conviveu com José Marcos, Regina acusa o ex-motorista de homicídio:
— Ele deixou minha irmã dormindo do lado de fora da casa, na Rua Capuri, por quatro noites. Depois, ela morreu — relata.
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Na sexta-feira, dia da prisão do ex-motorista, Regina acreditou que enfim conseguiria dormir tranquila. Agora, sob os cuidados do irmão caçula, Benedicto Júlio Lemos; da esposa dele, Dora Cândida Lemos; e do sobrinho Carlos Queiroz, recém-nomeado seu curador pela Justiça, a idosa tenta retomar a rotina.
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Segundo João Chamarelli, amigo de Regina, é Benedicto quem está pagando tudo para Regina, porque as contas dela estão zeradas, segundo o delegado Angelo Lages, da 12ª DP (Copacabana), que tenta descobrir onde foi parar o dinheiro da socialite. Ele representou na Justiça pela quebra de sigilo fiscal e bancário de 10 pessoas, incluindo Regina, José Marcos e o antigo advogado dela, o criminalista Paulo Lins e Silva. Procurado, o ex-defensor da socialite e do ex-motorista não retornou os contatos com o blog. A defesa de José Marcos informou que ele irá provar sua inocência.
— Durmo com a Dorinha, minha cunhada. Acordo às três da manhã, assustada, achando que ele vem me matar. Mas acho que hoje conseguirei descansar sem incomodá-la.
A decoração permanece a mesma, mas uma mudança fez toda a diferença: a retirada do insulfilme escuro que José Marcos instalara nas janelas. Sem o véu que a isolava, Regina voltou a ver o mar de Copacabana. A luz atravessa a sala e, com isso, Regina diz ter recobrado o humor.