A fala do jornalista e escritor Ruy Castro ajuda a traduzir o espírito de Copacabana ao longo dos anos.
— Copacabana é o único bairro do Brasil que nunca foi rural, suburbano e provinciano. Já nasceu urbano, cosmopolita e sofisticado. Em 1950, quando era 11 da noite na Rua Barata Ribeiro, ainda era 1911 no resto do Brasil — sintetiza ele, uma referência no bairro.
Como nos mostra a História, o bairro de Copacabana já passou por muitas fases, sendo atravessado por fatos notáveis como a transferência da capital do Rio de Janeiro para Brasília, em 1960; a ditadura militar, de 1964 a 1985; e, mais recentemente, a pandemia de Covid-19.
E não se ousa falar sobre a noite do bairro sem citar talvez o seu mais famoso personagem: o Copacabana Palace. Inaugurado pelo empresário Octávio Guinle, em 1923, o hotel logo se tornou ponto de encontro. Em 1933, quando o jogo foi permitido no Brasil, seus três salões começaram a concentrar bacanas, engravatados e personalidades estrangeiras. Hoje dedicado a receber eventos como casamentos, o Golden Room viveu seus dias de glória recepcionando gente como Sammy Davis Jr., Marlene Dietrich e Nat King Cole.
— Antes, durante e depois dos jogos, era o grande salão da cidade, onde tudo acontecia. Um sem fim de artistas, atrações e shows — explica o empresário e jornalista Ricardo Amaral, um entendedor da noite carioca.
Junto ao Cassino Atlântico, o Copa movimentava as noites de jogatina até o Decreto-Lei nº 9.215 de 1946, que proibiu “a prática ou exploração de jogos de azar em todo o território nacional”.
— O jogo atingia uma elite muito pequena, então não foi um baque— avalia Amaral.
Àquela altura, Copacabana já era conhecida, também, por ser um polo cinematográfico. Habitavam suas ruas o Cine Rian, de 1932; o Roxy, de 1938; o Metro, de 1941; e o Cinema Copacabana, de 1953, entre outros. O arquiteto e historiador Nireu Cavalvanti ainda tem viva a memória de quando chegou ao Rio, vindo de Maceió, no início dos anos 1960, e se deparou com a efervescência do lugar.
— Estar em Copa era um sonho. Fiquei encantado com a luminosidade elétrica das ruas. A existência da boêmia, locais que juntavam pessoas até altas horas da madrugada. Participei de rodas de música com o Jorge Ben Jor. Era um deslumbramento — relembra Nireu.
Havia os filmes, havia a high society ocupando as boates com seus crooners, havia os restaurantes que adentravam as noites. A magia estava em todo o lugar… Na Avenida Atlântica, o apartamento de Nara Leão tornou-se um point da galera da música, ao juntar Roberto Menescal, Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, engendrando a bossa nova. E breve o ritmo tomaria conta da Rua Duvivier, endereço do Beco das Garrafas, conjunto de quatro casas noturnas com shows. Elis Regina começou por lá. Baden Powell e Sergio Mendes eram presenças assíduas.
— Nos anos 1950, foi o reduto do samba-canção, com Dolores Duran e Doris Monteiro e, nos 60, se cozinhou o samba-jazz, com o pianista Tenorio Jr., o trombonista Raul de Souza, o baterista Edison Machado e muitos outros, no que foi a melhor música instrumental do mundo naquela época. Quem me contava tudo era o Alberico Campana, dono das boates do Beco — conta Ruy Castro.
Os anos 1970 e 1980 foram marcados pelo crescente das casas noturnas chamadas de “inferninhos”, principalmente no entorno da Praça do Lido. Eram shows de dança, striptease e muita oferta sexual voltada, principalmente, aos turistas. Deste período, locais como La Cicciolina, Barbarella e seus letreiros em néon ainda permanecem como ícones do imaginário. Assim como a lendária Help, de frente para a praia, que deu lugar ao Museu da Imagem e do Som, a ser inaugurado em 2026.
— As boates de striptease congregavam homens e mulheres que iam assistir. Ainda tinha o Teatro Alaska e seus espetáculos para o público gay. Sem contar as prostitutas na praia. Copacabana era um grande palco de acontecimentos — diz Nireu.
E voltará a ser, aposta o empresário Luiz Calainho. Após um período de insegurança somado à pandemia — ocasião que levou a um esvaziamento das ruas e à falência de muitos comércios, o bairro vive uma curva ascendente, festeja ele.
Com uma filial do Blue Note na Atlântica — onde funcionou o restaurante Bolero — desde 2024, Calainho diz que chegou ao bairro para não sair mais.
— Eu não tinha dúvida de que deveria estar em Copa. É chique pela história, pela tradição. É um bairro seguro e emblemático que atrai muitos turistas — afirma.
Dono da L21 Corp, empresa que atua com cultura e entretenimento, ele conta que pretende investir ainda mais na região.
— Há uma onda poderosa tomando conta de Copa. Quero abrir mais uma ou duas operações — planeja.
É terça-feira à noite e as ruas de Copacabana estão cheias. Um cenário que remete ao passado, quando bares, restaurantes e casas noturnas ficavam abertos até altas horas da madrugada, reunindo intelectuais, trabalhadores e jornalistas após o horário de trabalho.
Hoje considerado um polo gastronômico, o bairro continua mantendo a vocação para a boemia — são 157 bares e restaurantes associados ao Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio (SindRio). E representantes de outrora seguem firmes. São casas que ostentam a placa de Patrimônio Cultural Carioca, título da prefeitura que chancela bens materiais e imateriais que representam a história e a identidade da cidade.
— Nosso compromisso é com quem bebe — brinca Sergio Rabello, que repete a frase desde que assumiu o Galeto Sat’s, em 2010.
O bar conhecido pela porção de coração e pelo rol de cachaças é ponto de encontro desde 1962 e foi comprado após a morte dos donos espanhóis.
— Copa teve seus períodos de altos e baixos, inclusive com a falência da boemia em um período de insegurança. Mas a força da juventude fez os bares se reerguerem, e nós somos a saída de emergência da noite — afirma ele, que fica com as portas abertas de segunda a segunda até as quatro da manhã e tem como vizinho, no início da Barata Ribeiro, o clássico Cervantes, fundado em 1955, mas que não resistiu à pandemia: fechou em 2021 e reabriu em novembro de 2022.
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Na mesma leva das antiguidades estão o Pavão Azul, fundado em 1957 na Hilário de Gouvêa e famoso pelas pataniscas e pelos pastéis de camarão; e a Adega Pérola, na Siqueira Campos, que data do mesmo ano e dispõe de mais de 50 opções de acepipes como tremoços e polvo à vinagrete, o mais pedido, segundo um dos sócios, Marcelo Paulos, que a administra desde 2010 com dois sócios.
A Adega ganhou notoriedade pela proximidade com os teatros Tereza Rachel ( hoje Teatro Claro Mais ) e o Teatro de Arena ou Teatro Opinião — ambos localizados no Shopping Cidade Copacabana, o clássico shopping do antiquários.
— A Adega se tornou um polo de esquerda, lugar de encontro de artistas — conta.
Os turistas compõem grande parte do público. Situação que se repete no Beco das Garrafas, gerenciado, desde 2014, por Amanda Bravo. São pessoas atrás das origens da bossa nova.
— Antigamente os artistas procuravam o Beco para fazer história. Hoje os turistas vêm atrás pela história que se fez — diz ela.
Desde 1968, o Bip Bip segue na Almirante Gonçalves, quase no fim do bairro, com rodas de samba, choro e bossa nova que acontecem de segunda a quinta e aos domingos. Em 1984 foi comprado por Alfredo Jacinto, o Alfredinho, que o cultivou como um lugar de resistência política. Sua morte, em 2019, comoveu os fãs do local.
— O Bip passou por fases, e o que mantém é esse papel de resistência, de promoção da cultura e de encontros, além da solidariedade, marca registrada do Alfredinho — reforça a jornalista Graça Lago, das primeiras frequentadoras do endereço.
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Há 22 anos, a Praia de Copacabana é palco de uma noite à parte das outras: a da virada do ano. O primeiro ano novo com shows na orla aconteceu de 1993 para 1994 e inaugurou uma tradição mundial, que ocupa os mais de seis quilômetros da Atlântica e reúne cerca de três milhões de pessoas. A cada ano, novidades aparecem para surpreender o público.
— É preciso inovar sempre. Pensamos na emoção que o momento traz para as pessoas — diz Abel Gomes, sócio e vice-presidente da SRCOM, agência que realiza o evento há 17 anos.