O dia começou com uma novidade para o leão Ulli. Então ilustre morador do Jardim Zoológico de Niterói, na Região Metropolitana do Rio, o animal tinha acabado de terminar seu desjejum quando percebeu que um tratador esquecera a jaula aberta. Então, naquela quarta-feira, 23 de novembro de 1994, o grande felino, natural da savana africana, resolveu esticar as pernas em um passeio pelas dependências do zoológico, sem imaginar que enfrentaria a ira de sua companheira quando voltasse.
Como ainda era bem cedo, não tinha público no local, mas os funcionários ficaram desesperados ao ver o gatão perambulando na área dos visitantes. Ulli, por sua vez, demonstrava calma e, depois de andar sem rumo por alguns minutos, deitou-se para tomar sol, sem esboçar sinal de agressividade.
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A administração do parque não sabia o que fazer. Policiais da 78ª DP (Fonseca) e do 12º BPM (Niterói) foram acionados, mas também ficaram sem ação. A certa altura, chegou uma equipe da Fundação RioZoo, equipada com zarabatana, rifle e tranquilizantes, para capturar a fera.
Mas não foi necessário o uso de armamento. Ulli não resistiu quando um funcionário prendeu um suculento pato numa corda e levou o pobre pássaro até a porta da jaula. A fera africana se deslocou tranquilamente, abocanhou a refeição e retornou para seu lugar.
Todo mundo respirou aliviado, mas depois daquele “perdido” de cerca de três horas, o leão teve que encarar a fúria de sua companheira, Lisa. A leoa recebeu o macho com incisivas patadas no focinho dele e, em seguida, rugiu furiosamente, acuando o rei da selva no canto da jaula. Coitado.
O fotógrafo Jorge William estava no zoológico na hora da bronca e registrou a cena, produzindo a imagem que estampou a primeira página do GLOBO no dia seguinte e se tornou uma pérola do nosso acervo fotográfico.
Mas aquela não foi a única vez em que um leão virou notícia na editoria Rio, dedicada a cobrir o cotidiano do estado fluminense. Décadas atrás, não era raro a equipe fazer reportagens sobre exemplares da espécie vivendo em cativeiro dentro de residências da Região Metropolitana do Rio.
Quando o pai de Agathyrno Gomes Neto chegou em casa com um filhote de leão, em 1988, a família levou um susto. “Mas, conforme o tempo foi passando, vimos que era um animal dócil e decidimos ficar com ele”, contou o rapaz de 18 anos, enquanto acariciava o felino na sua casa, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, em 1992.
Durante a juventude, o leão, batizado de King, até podia sair para brincar numa área de mata perto de casa. Mas o tempo foi passando e, aos 4 anos de idade, pesando 170 quilos, o “bichano” se viu confinado a um espaço de 3 metros quadrados do imóvel, já que ninguém tinha mais forças para segurá-lo na rua. “Ele não pode mais pular por aí, porque derruba e assusta qualquer um. Mas é tudo brincadeira”, garantiu Agathyrno.
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Hoje, só é permitido criar “animais exóticos”, como os leões, com uma autorização especial do Ibama. Mas entre os anos 1980 e 1990, não havia regras claras que impedissem moradores do Rio de ter esses bichos em casa.
Em 28 de abril de 1983, o jornal noticiou que uma família estava criando o filhote Jawa em sua residência, numa vila na Tijuca. O leãozinho, que fazia a alegria da criançada, comia 1 quilo de carne por dia, além de legumes, ovos, queijo e 15 mamadeiras de leite. “Ele adora dormir na minha cama”, disse a dona Ivone Dias.
O comércio de leões era liberado, e, de acordo com os jornais da época, um filhote custava menos que um cão da raça Yorkshire. Especialistas alertavam para os riscos, mas muita gente só entendia o perigo quando o bicho atingia a fase adulta e passava a comer até 5 quilos de carne por dia. Então, assustadas com o tamanho e o apetite do animal, as pessoas tentavam doar seus leões para o zoológico.