Ataques de mamíferos, como o que vitimou o caseiro Jorge Avalo no Mato Grosso do Sul, causam duas mortes a cada semana no Brasil. O país registrou 516 óbitos por mordida destes animais nos últimos cinco anos, segundo dados do Ministério da Saúde. O período com maior incidência foi 2023, quando ocorreram 123 casos.
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A onça-pintada que atacou e matou o caseiro foi capturada na quinta-feira no Pantanal. O animal silvestre, um macho de 94 quilos, foi encontrado durante uma operação feita por agentes da Polícia Militar Ambiental (PMA) e pesquisadores pela região de Touro Morto, no interior de Mato Grosso do Sul.
Especialistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que casos de ataque de onça são raros e podem ser motivados por situações em que o animal tenha se sentido acuado, por fome ou por medo de danos a filhotes.
— Situações como as que envolvem filhotes ou alimento podem despertar uma agressividade maior na onça. Pelo que parece, elas estavam aparecendo no local em que o caseiro trabalhava com bastante frequência. Essa habituação pode ter facilitado esse ataque, mas ainda é prematuro afirmarmos as causas do incidente — avalia o veterinário Ronaldo Morato, pós-doutor em animais silvestres e diretor da ONG Panthera.
Os restos mortais do caseiro foram achados na mata por agentes em buscas na manhã da última terça-feira. Segundo policiais, Avalo começou a ser procurado depois de um guia de pesca ir ao rancho onde o caseiro morava para comprar mel. Ao estranhar a ausência de Avalo, o guia encontrou vestígios de sangue e pegadas de um animal de grande porte nas proximidades. As imagens foram enviadas à Polícia Militar Ambiental e também divulgadas nas redes sociais.
Segundo Morato, o ataque contra Avalo deve ser encarado como um alerta sobre a necessidade de cuidados quando se observa a aproximação de animais silvestres a áreas residenciais.
— É importante afugentar o animal. Podemos usar instrumentos que façam bastante barulho. Caso haja insistência na permanência do animal, é indicada a introdução de mecanismos de proteção como grades — aponta Morato.
Doutorando em Ecologia e Conservação, o veterinário Diego Viana destaca que interações com onças exigem “respeito e cautela” e não podem ser tratados como se fossem possíveis de serem domesticados.
— É preciso pensar em qual meio de interação pode conferir segurança. Há fatores humanos que podem contribuir para a ocorrência de ataques, como a presença de cães nas casas próximas, além da persistência de atividades ilegais como a caça e a prática de Ceva, que consiste no depósito de restos de alimentos em determinados locais para atrair onças e fomentar o avistamento do animal. Isso destrói o comportamento natural da onça e gera perigo — afirma o pesquisador.
Coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Rogério Cunha de Paula afirma não haver uma correlação direta entre a expansão da habitação em áreas de floresta no Pantanal com o ataque de onças.
— O porquê dos ataques no Pantanal é a habituação que as pessoas promovem. Todos os casos de ataques que foram registrados, eram em locais onde os animais eram alimentados constantemente com peixes — esclarece.
A onça-pintada foi encaminhada para um dos Centros de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS) em Campo Grande, capital do estado. Ele recebeu um acesso venoso e um equipamento para monitoramento da frequência cardíaca e da temperatura corporal.
— Esse era o macho que estava rondando aqui e agora podemos levá-lo para Campo Grande, para o CRAS, para a gente poder avaliar esse animal e tentar entender o que aconteceu. Dá para ver que o animal está bem magro, então (é preciso) avaliar isso — disse um dos integrantes da força-tarefa para o rastreamento animal em vídeo divulgado pela CNN.
A polícia avalia como causas prováveis para o ataque a escassez de alimento no local, o comportamento defensivo do animal, o período reprodutivo (em que o macho se torna mais agressivo) ou alguma atitude involuntária da vítima. Segundo a PM, a propriedade tinha câmeras de segurança, mas os equipamentos não estavam em funcionamento quando a onça-pintada matou Avalo.

