O fotógrafo Sebastião Salgado nos deixa seu olhar sensível sobre a floresta e os povos da floresta, com uma obra a nos lembrar que a natureza, a biodiversidade e o ser humano são indissociáveis. Ele, um economista de formação que conseguiu traduzir conceitos científicos complexos em imagens, como os rios voadores, e revelar os valores originários, ecossistêmicos e sociais das florestas.
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Se são parte de um enfoque importante da atuação do economista-fotógrafo, as florestas e seus benefícios ainda permanecem quase invisíveis para a economia global, contabilizadas quase exclusivamente pelo potencial madeireiro. Os modelos econômicos, financeiros e de políticas públicas, frequentemente, deixam fora dos cálculos quanto uma floresta retorna de água, de ar, de captura de carbono, de empregos, de alimentos, de saúde pública, de desenvolvimento e de redução de inflação.
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Não é por falta de economistas, estudos ou dados que essas variáveis não são consideradas. Pesquisas demonstram que as florestas movimentam trilhões de dólares em serviços ecossistêmicos e sustentam 1 bilhão de pessoas no mundo. No entanto barreiras financeiras e regulatórias ainda impedem a expansão da economia de base florestal, como exemplificado pela lacuna de financiamento atual. Dos US$ 460 bilhões anuais necessários para conservação e restauração florestal global, menos de US$ 30 bilhões foram efetivamente desembolsados.
Os fóruns internacionais são fundamentais para gerar maior engajamento dos diferentes países e iniciar a modernização do entendimento sobre como desenvolver métricas e instrumentos para promover economicamente a conservação e o uso sustentável das florestas. O Brasil, nesse aspecto, tem exercido papel protagonista ao ser propositivo com agendas e medidas inovadoras, visando a aproximar os ativos florestais dos debates econômicos.
Como sistematizado no recém-lançado estudo Forest-Related Outcomes from Brazil’s G20 Presidency, da NatureFinance com o apoio do Instituto Clima e Sociedade (ICS), sob a presidência brasileira em 2024, o G20 construiu consensos relevantes sobre a importância de destravar instrumentos financeiros e de seguros para permitir o uso sustentável das florestas.
A pioneira Iniciativa de Bioeconomia do G20 (GIB), pela primeira vez, trouxe a bioeconomia para um acordo multilateral, cujos princípios ressaltam que esse conjunto de atividades é fundamental para proporcionar o crescimento econômico sustentável dos países do G20. Na Cúpula do G20, os chefes de Estado se comprometeram a mobilizar mais financiamento para florestas e destacaram a relevância de iniciativas como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), mecanismo ambicioso proposto pelo Brasil que visa a levantar US$ 125 bilhões para remunerar países em desenvolvimento por cada hectare de floresta tropical conservada.
Essas conquistas, contudo, enfrentam contexto desafiador: crise de dívida soberana em países em desenvolvimento e agendas ambientais esvaziadas. Em paralelo, com o acirramento de conflitos, parte dos recursos de países desenvolvidos, antes voltada ao combate à mudança do clima, foi dirigida a gastos militares, fragilizando o multilateralismo.
A adaptação do olhar econômico sobre a floresta busca combater as mudanças climáticas e preservar os serviços ecossistêmicos, mas também criar uma oportunidade estratégica para países com grandes ativos florestais. Tais avanços diplomáticos refletem essa condição, embora ainda seja preciso solidificar em nível doméstico o entendimento de que seus benefícios climáticos sejam traduzidos e incorporados em orçamentos públicos, sistemas contábeis e teses de investimento.
À medida que se prepara para a Cúpula do Brics e COP30, o Brasil trará a tônica da implementação doméstica dos compromissos climáticos internacionais, e este é um momento oportuno para convocar um novo modelo de desenvolvimento que coloque as florestas e a bioeconomia na centralidade das soluções climáticas e econômicas. A pauta florestal brasileira exerce influência global incontestável e deve ser usada de forma transversal, como ponto de partida não apenas para remoção de emissões, mas para acelerar a transição energética, a inovação tecnológica e a economia de baixo carbono.
*Gustavo Martins é economista e associado sênior da NatureFinance, Lucca Rizzo é advogado e especialista sênior em Finanças Climáticas do Instituto Clima & Sociedade, Sofia Carra é engenheira ambiental, doutora em ciências agrárias e consultora

