Quando o senador Bernie Sanders e a deputada federal Alexandria Ocasio-Cortez erguerem, neste domingo, as mãos do candidato que lidera as pesquisas ao Senado, Abdul el-Sayed, em comícios nas cidades de Lansing e Grand Rapids, no coração do Michigan, eles não estarão apenas interferindo em uma das disputas mais acirradas das prévias da oposição, às vésperas das eleições de novembro, com o Congresso em jogo. Se a vitória sobre a moderada Haley Stevens se confirmar nas urnas em agosto, o resultado atestará a expansão, para um dos estados decisivos à conquista da Casa Branca em 2028, do “efeito Mamdani”, uma dor de cabeça para o comando do Partido Democrata.
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A referência é a Zohran Mamdani, o jovem prefeito de Nova York que, assim como o epidemiologista do Michigan decidido a ser o primeiro senador de origem árabe no Capitólio, é filiado a uma sublegenda socialista.
A depender de quem se escuta na guerra civil em curso no Partido Democrata, um alinhamento à esquerda reaproximará a sigla de sua base, em processo não tão distante do experimentado pelo Partido Republicano nas últimas décadas com o Tea Party e o Faça os Estados Unidos Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês). Ou impedirá, ao alienar independentes e moderados, a formação de maiorias robustas nas duas casas do Legislativo e o consequente freio ao avanço autoritário do atual e impopular governo.
O que os dois lados concordam é que há dois nomes que diferenciam o quilate do xadrez disputado hoje na oposição daquele travado há dez anos, quando Sanders lançou sua insurreição e enfrentou a ex-secretária de Estado Hillary Clinton nas primárias para a sucessão de Barack Obama. Um é o vencedor daquele pleito, Donald Trump. O outro é Mamdani.
Bernie Sanders, senador dos EUA
Anna Moneymaker/Getty Images/AFP
A percepção de que o comando da sigla não reagiu de forma decisiva aos avanços do Trump 2.0 fez a militância, já desgostosa com a defesa incondicional de Israel, torcer ainda mais os narizes para os líderes no Senado, Chuck Schumer, e na Câmara, Hakeem Jeffries. O descontentamento aumentou com seus papéis coadjuvantes nos protestos dos “Dias sem rei”, de enorme capilaridade, a face mais explícita do antitrumpismo, ao lado dos moradores de Minneapolis, que expulsaram a polícia de imigração da cidade após a morte de dois cidadãos.
Ao mesmo tempo, a experiência de Mamdani no comando da maior cidade do país começa a retirar da esquerda o estigma de utópicos sem responsabilidade administrativa. Em apenas seis meses, o prefeito demonstrou capacidade de articulação ao aprovar no Conselho Municipal o congelamento de aluguéis subsidiados e, com verba estadual, a universalização pública inédita do sistema de creches na cidade. Marcou os primeiros cem dias de governo com 100 mil buracos tapados nas ruas e investiu em tecnologia local para criar um sistema original de cobrança e resolução de problemas. Bateu o bumbo das iniciativas nas redes sociais com o mesmo sorriso com que recebeu os turistas na Copa do Mundo. E foi sagaz ao usar em seu favor até mesmo as limitações do cargo.
— Nos EUA, as prefeituras não têm o poder de avançar reformas estruturais de monta. Uma das propostas de Mamdani mais combatidas pelos pró-mercado, a taxação dos mais ricos, depende de aprovação da assembleia estadual e de a governadora, uma moderada, arregaçar suas mangas para tanto. Pois até essa impossibilidade o ajudou a tirar dos socialistas a pecha de bichos-papões — afirmou ao GLOBO o cientista político Nick Beauhamp, da Universidade Northwestern, estudioso da ascensão da esquerda.
Darializa Chevalier, candidata democrata à Câmara dos EUA, ao lado do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani
Lexi Parra/The New York Times
Em movimento político arriscado, Mamdani declarou apoio a três candidatos à Câmara nas primárias democratas do estado de Nova York, todos socialistas. Eles venceram com folga os adversários moderados e asseguraram, na prática, suas cadeiras, pois seus distritos têm maioria esmagadora de eleitores simpatizantes do Partido Democrata. Uma das derrotas mais simbólicas foi a do deputado Adriano Espaillat, líder da poderosa bancada hispânica no Congresso. Foi derrotado por Darializa Chevalier, defensora pública de 32 anos do Harlem, mãe solo que se notabilizou por defender imigrantes em disputas contra o Trump 2.0.
A inexperiência política dos socialistas é apontada por grupos influentes no Partido Democrata, entre eles o centro de estudos Third Way, como um dos senões para a disputa com os republicanos, especialmente em locais onde o eleitorado é mais dividido, como no Michigan. Em maio, a organização divulgou uma análise dos últimos pleitos nacionais. Os vitoriosos à Casa Branca conquistaram ao menos 60% dos votos dos moderados. Em 2024, segundo o mesmo estudo, o eleitorado americano se dividia em 42% de moderados, 35% de conservadores e 23% de progressistas, estrato que inclui os esquerdistas.
— É evidente que uma virada brusca para a esquerda é extremamente perigosa. Seguiremos batendo nesta tecla pelos próximos dois anos — afirmou Matt Bennett, vice-presidente do Third Way.
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Mas números restritos a 2026 contam outra história. Também divulgada em maio, pesquisa da Marquette Law School informa que a sublegenda socialista, cujos candidatos não aceitam dinheiro de grandes corporações em suas campanhas — outro ponto central de discórdia com os moderados — tem hoje índice de aprovação maior (46%) do que o próprio Partido Democrata (36%). Mês passado, um levantamento do Pew Research mostrou que 38% dos eleitores são simpáticos aos socialistas, enquanto 17% torcem o nariz para eles.
Professor de Direito Constitucional do Boston College e um dos mais importantes teóricos da esquerda americana contemporânea, Aziz Rana afirma que, mesmo se Abdul el-Sayed perder no Michigan, as primárias democratas deste ano já atestam o “momento notável para a esquerda americana”, algo sem paralelo no país desde os anos 1930.
—E esse avanço só foi possível porque Mamdani, Ocasio-Cortez e el-Sayed não defendem o socialismo da Guerra Fria, o do controle dos meios de produção e das estatizações. Sua pauta é o fortalecimento de uma rede mínima de segurança social, o tratamento digno aos imigrantes, justiça racial, liberdade de expressão e uma política externa não alinhada automaticamente a Israel, especialmente no contexto de Gaza e do Irã — afirmou ao GLOBO.
Abdul al-Sayed, candidato democrata a uma vaga no Senado dos EUA
Anthony Lanzilote/The New York Times
Ao buscarem reinterpretar, para a realidade do Século XXI, o New Deal de Franklin D. Roosevelt e a luta pelos direitos civis dos anos 1960, os socialistas oferecem aos eleitores, nas palavras do acadêmico, “algo como uma social-democracia made in USA”. Não há razão, portanto, para além da estratégia eleitoral, argumenta, de classificá-los como “comunistas” ou“antiamericanos”, como já fazem Trump e o Partido Republicano.
— Mas os moderados parecem também não ter compreendido a natureza da ameaça da nova esquerda de Mandami, ao classificá-la de radical e inconsequente. O que eles buscam é algo muito mais ambicioso do que vencer em novembro e em 2028. Com o cartão de visitas de Nova York, almejam tomar para si o manto do liberalismo, em versão mais graúda, adaptado para tempos marcados pela crescente desigualdade social no país e ilustrado pelos bilionários no Poder. Vão fazer mais barulho — diz Rana.

