Durante quase 40 anos, os Blue Angels, os pilotos da Marinha dos Estados Unidos famosos por realizar manobras acrobáticas em shows aéreos e outros eventos por todo o país, recorreram a Jellie Whitehurst, conhecida como Candy, para confeccionar seus trajes de voo azuis e amarelos.
Com Hegseth no Departamento de Defesa: Promoções de mulheres aos mais altos cargos militares nos EUA caem ao menor nível em 25 anos
Após 40 anos: Boeing vai aposentar o caça de Top Gun e suspende entregas do 787 Dreamliner
Mas, no mês passado, Candy disse ter sido pega de surpresa. Ela entrou em contato com um oficial da equipe de aviação para marcar uma visita e tirar as medidas para os novos trajes. Foi somente então, segundo ela, que o oficial lhe informou que ela não os confeccionaria mais.
Ela descobriu que a Marinha havia concedido o contrato a uma empresa muito maior, uma contratada de defesa sediada na Virgínia, longe da base dos Blue Angels, em Pensacola, na Flórida, e de sua loja de costura, a The Sewing Box, localizada nas proximidades, na North Navy Boulevard.
— Foi devastador perder o contrato. Ponto final — disse ela. — Mas foi ainda mais devastador perdê-lo dessa maneira. Eu jamais teria imaginado que meus Blues fariam isso comigo — que me tratariam dessa forma, depois de termos mantido um bom relacionamento.
Mulheres na mira de Trump: Ofensiva contra políticas de gênero impacta apoio a governo americano
Candy afirmou que os Blue Angels sempre entravam diretamente em contato com ela para apresentar uma proposta como fornecedora exclusiva dos trajes e que os oficiais da equipe nunca lhe disseram que estavam solicitando outras propostas para a confecção das peças.
A comandante Amber Lewis, porta-voz do Navy Supply Systems Command, afirmou em comunicado que Jellie Whitehurst havia informado aos Blue Angels, em janeiro, “que era sua intenção se aposentar”.
“No mês seguinte, teve início e foi concluído, vários meses depois, o processo formal e aberto de publicação, apresentação de propostas e concessão do contrato ao próximo fornecedor dos uniformes dos Blue Angels, em conformidade com a legislação federal”, disse a comandante.
Jellie, que se recusou a informar sua idade, contesta essa afirmação. Ela disse que nunca informou aos Blue Angels — nem a qualquer outra pessoa — que estava se aposentando.
— Não estou planejando me aposentar —afirmou.
Mudança de fornecedor anunciada na TV
A mudança de fornecedores foi noticiada anteriormente pela emissora de TV de Pensacola WEAR-TV e pelo Stars and Stripes.
Depois que Jellie começou a chorar ao falar sobre o assunto à CNN nesta semana, alguns usuários das redes sociais especularam que a questão racial poderia ter influenciado a decisão.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, tomou medidas para eliminar iniciativas de diversidade, equidade e inclusão, incluindo programas destinados a ajudar pequenas empresas pertencentes a minorias.
Pela primeira vez em dez anos: Nenhuma mulher deve virar almirante na Marinha dos EUA após bloqueio de promoções
Documentos de contratos anteriores de Jellie Whitehurst com os Blue Angels para a confecção dos trajes informavam que a The Sewing Box era uma pequena empresa pertencente a uma mulher e a uma minoria.
Ela disse acreditar que as classificações de empresa pertencente a mulher e a minoria não foram fatores que contribuíram para que ela tivesse conquistado os contratos para confeccionar os trajes e afirmou não saber por que a Marinha havia escolhido outro fornecedor.
— Eles queriam a mim e sabiam que eu era capaz de fazer o trabalho — disse em uma entrevista. — A qualidade do meu trabalho era o fator determinante.
Processo artesanal há anos
A confecção dos trajes de voo dos Blue Angels há muito tempo é um processo artesanal e sob medida. Depois de tirar as medidas de cada integrante da equipe, ela disse que desenha os moldes dos trajes em papel-cartão e corta as peças a partir de um rolo de 100 jardas de tecido Nomex resistente a chamas.
Usando linha de Nomex, ela costura as peças, acrescentando cinto, bolsos e zíperes. Depois, coloca a insígnia dos Blue Angels e borda em amarelo o nome e a patente de cada integrante. Cada traje sob medida leva cerca de cinco horas e meia para ser confeccionado, e ela estima o custo em US$ 850 por unidade. Segundo ela, produz entre 85 e 100 trajes por ano.
— É uma grande alegria e um enorme orgulho para mim saber que o mundo vê algo que eu fiz — disse Whitehurst.
A comandante Amber Lewis afirmou que um aviso em busca de possíveis fornecedores foi publicado em 29 de janeiro no sam.gov, um site governamental de contratação pública, e permaneceu aberto até 18 de fevereiro, permitindo que fornecedores apresentassem informações sobre suas capacidades e experiência.
A Aquila International, uma empresa contratada pelo governo com sede em Dulles, na Virgínia, recebeu o contrato em 14 de maio.
“A Sewing Box não estava entre as empresas que apresentaram propostas no processo aberto e transparente””, disse a militar. “O contrato foi concedido à proposta que oferecia o melhor valor para o governo. O custo por uniforme é inferior ao do contrato anterior”.
Jellie Whitehurst começou a trabalhar na The Sewing Box em 1989. Ela aprendeu a confeccionar os trajes justos dos Blue Angels com Samuel Miller, um ex-oficial da Marinha que abriu a loja por volta de 1978. Inicialmente, ele havia batizado o estabelecimento de Feminine Flair e planejava produzir vestidos femininos.
“Esse foi um nome meio errado para escolher”, disse Miller, que morreu em 2022, ao Pensacola News Journal em 2019. “Pensacola não é uma cidade que dita tendências, como você deve saber, então isso não deu certo. Tive de mudar rapidamente de rumo e passei a trabalhar com ajustes e uniformes.”
Desde 2014, a Sewing Box recebeu US$ 684 mil da Marinha para confeccionar os trajes, segundo o usaspending.gov, site do governo que acompanha os gastos federais. O novo contrato de cinco anos da Marinha com a Aquila International vale US$ 1,69 milhão.
A comandante Lewis não explicou a diferença de valores, mas seu comunicado afirmou: “Em todas as propostas, os fatores técnicos foram considerados, assim como o custo, durante o processo de avaliação.”
Todd Kelsey, um dos fundadores da Aquila International, disse à WEAR que estava orgulhoso de a empresa ter vencido a concorrência. Ele observou que a companhia já produzia outros itens para os Blue Angels desde 2024, incluindo luvas de voo e roupas de compressão.
A Aquila International afirmou ter outros contratos com o governo federal, como o fornecimento de equipamentos táticos e kits de primeiros socorros para o Departamento de Estado. Em comunicado, a empresa disse que seu “foco agora é garantir uma transição tranquila e fornecer uniformes e equipamentos excepcionais para os Blue Angels”.
Jellie Whitehurst disse que ainda espera recuperar o contrato. Ela vem consultando um advogado, mas afirmou não ter certeza se entrará com uma ação judicial.
— Significaria muito para mim poder tê-los de volta. E, quando eu me aposentar — quando decidir me aposentar — gostaria de me aposentar como a fabricante dos trajes de voo — afirmou ela.

