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Jara, a candidata governista, liderava as últimas pesquisas (fechadas na semana passada) com 28,5% das intenções de voto. À frente de uma coalizão de centro-esquerda, ela tenta herdar o capital político de Boric, mas também se distanciar do desgaste de seu governo.
A liderança em reformas como a redução da jornada de trabalho de 45 para 40 horas e a reestruturação do sistema de pensões no país lhe deu destaque quando ocupava o cargo de ministra do Trabalho mas, na campanha para a Presidência, seu foco migrou para os temas de maior preocupação dos chilenos e que são tradicionalmente dominados pela direita: segurança e imigração.
Segundo o cientista político Patricio Navia, da Universidade de Nova York (NYU), essa mudança reflete não apenas uma estratégia eleitoral, mas uma transformação mais profunda do eleitorado chileno.
— A segurança já é o tema mais importante há alguns anos, e normalmente os candidatos de direita lidam melhor com ele, porque é mais fácil prometer políticas de mão de ferro para combater o crime — explica Navia ao GLOBO. — Essa preocupação favorece mais a direita do que Jara, especialmente porque ela é a candidata da coalizão governista e as pessoas a responsabilizam pelos problemas de segurança que o país enfrenta.
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Embora o Chile ainda tenha índices de criminalidade inferiores aos de seus vizinhos — a taxa de homicídios triplicou na última década, passando de 2,5 para 6,7 por 100 mil habitantes, mas o país continua sendo um dos mais seguros da América Latina, segundo a ONU —, a percepção de insegurança disparou, o que impulsionou os nomes da extrema direita, como Kast e Kaiser.
Há também o peso do desgaste de Boric. Embora seu governo tenha conseguido aprovar reformas relevantes — como a reestruturação do sistema previdenciário, avanços na saúde pública e o fortalecimento de políticas de gênero e de memória histórica — também acumulou duas derrotas constitucionais, escândalos e falhas de gestão, entre elas, a lenta reconstrução pós-incêndios em Valparaíso, em 2024.
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O saldo é a percepção predominante de ineficiência, com um índice de aprovação de apenas 28% segundo uma pesquisa realizada em outubro pelo Centro de Estudos Públicos.
Para o professor de Ciência Política da Universidade Católica do Chile, David Altman, tudo isso, somado ao colapso do centro, criou um cenário em que a direita passou a ser vista como a alternativa mais estável para os eleitores:
— A sociedade chilena estava faminta por um governo eficiente e pela pacificação social após os protestos de 2019 e a pandemia. E o governo Boric, pelo menos no início, estava preocupado com outras agendas, o que obviamente lhe fez perder apoio em vários setores da sociedade.
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A direita também se movimentou nos últimos anos. Em sua terceira tentativa presidencial, Kast, que aparecia com 19,9% nas últimas pesquisas, adotou um discurso mais “moderado” dessa vez. Manteve o núcleo duro de sua plataforma — repressão ao crime, deportações imediatas, fortalecimento das forças de segurança —, mas suavizou o tom ultraconservador em temas morais, tentando expandir sua base para o centro.
Isso abriu espaço para a principal surpresa deste ciclo eleitoral: Kaiser, que começou a corrida com 8,21% nas pesquisas e, semanas depois, chegou ao terceiro lugar, com 15,6%, ultrapassando a direitista Evelyn Matthei, da coalizão Chile Vamos, com 14,1%.
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Tido como mais radical que Kast, o deputado e influenciador digital — que se autodenomina libertário como o argentino Javier Milei — ganhou notoriedade com declarações polêmicas (já questionou o direito das mulheres ao voto e ironizou casos de estupro em entrevistas) e um estilo agressivo nas redes. O “Milei chileno” defende o ultraliberalismo econômico e promete transferir imigrantes com antecedentes criminais para a megaprisão de El Salvador, assim como Donald Trump nos EUA.
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Para Navia, a ascensão de Kaiser tem relação direta com o novo perfil do eleitorado, já que essa será a primeira eleição com voto obrigatório desde que o Chile retornou a esse sistema, há três anos. Segundo as estimativas, cerca de 85% a 95% dos eleitores comparecerão às urnas.
— Parte do sucesso de Kaiser vem do fato de que há muito mais eleitores agora do que há quatro anos. Muitas pessoas que nunca haviam votado em uma eleição presidencial o farão agora, e muitos desses novos eleitores acabam votando em Kaiser, visto como um outsider — explica Navia. — Também são pessoas “de fora”, já que não participavam da política antes.
Além disso, “os jovens estão descontentes com o governo Boric, mas também com as elites empresariais, e veem Kaiser como alguém que não vem dessas elites”, acrescenta.
Segundo um estudo realizado em outubro pelo ICSO-Universidad Diego Portales, 23% dos entrevistados se identificam com a esquerda, 20% com o centro e 32% com a direita. Já 25% dizem não aderir a nenhuma dessas posições políticas.
— Não é que os chilenos estejam se tornando mais de direita, está ocorrendo um realinhamento das confianças políticas. A esquerda, em certo sentido, fracassou em vários aspectos. Não temos centro, o que fazemos? Bem, gira-se para a direita — explica Altman.
O comportamento explica as votações recentes do Chile: a vitória da esquerda em 2021, as derrotas nas reformas constitucionais em 2022 e 2023 e o avanço da direita tradicional nas municipais de 2024. Hoje, o eleitor é mais pragmático, avalia Navia, e isso se reflete na multiplicação de candidatos de direita concorrendo entre si — o que também complica o cenário para a ex-ministra.
— Será uma batalha difícil para Jara. Ela deve obter cerca de 30% dos votos, e os candidatos da direita, cerca de 60%. Será muito difícil para ela reverter essa eleição, especialmente se tiver menos de 30% no primeiro turno — afirma.— Se ela alcançar 35%, terá uma chance, mas ainda será uma disputa difícil.
Impedido pela Constituição de disputar a reeleição imediata, Boric deverá deixar o Palácio de La Moneda em março, mas, segundo Navia, já se movimenta de olho em 2029:
— Seu governo não alcançou o objetivo que ele próprio traçou: queria pôr fim ao modelo econômico neoliberal, e fracassou. Acabou consolidando esse modelo, embora ainda se veja como a alternativa de esquerda ao líder de direita que provavelmente assumirá o cargo em 2026. Por isso, acredito que, secretamente, Boric não quer que Jara vá tão bem, porque espera se tornar o líder da oposição.
As urnas vão abrir às 8h e fecharão às 18h (horário de Brasília), com os primeiros resultados sendo conhecidos a partir das 20h. Um segundo turno está previsto para o dia 14 de dezembro.

