O Partido dos Trabalhadores (PT) divulgou na tarde desta quarta-feira uma carta voltada a católicos em mais um gesto de aproximação com o segmento. O texto foi elaborado após o partido de Luiz Inácio Lula da Silva realizar um encontro com católicos, no dia anterior. A iniciativa também ocorre semanas após a sigla organizar um evento com evangélicos e também divulgar uma carta voltada a esse público.
No documento, o partido foge das chamadas pautas de costumes e critica a tentativa de usar a religião para fins eleitorais. O grupo defende a reeleição de Lula, fala na importância do Estado laico e da tolerância religiosa, além de criticar o que chamam de “transformação de igrejas em palanques”.
“Queremos encantar a política, resgatando sua dignidade pela educação popular, pela participação cidadã e pelo compromisso com o bem comum. Denunciamos condutas parlamentares que transformam igrejas em palanques e que traem o mandato recebido do povo ao se colocarem contra direitos sociais, trabalhistas e democráticos. Do mesmo modo, apoiamos candidaturas populares comprometidas com a soberania nacional e com a dignidade da classe trabalhadora e das populações vulnerabilizadas”, diz o texto.
Na carta, o partido também lista programas sociais implementados em gestões petistas como o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida, o Farmácia Popular e o Pé-de-Meia, além de demonstrar apoio ao fim da escala 6×1 e da tarifa zero para transportes públicos, “por expressarem o compromisso com o tempo digno, a mobilidade e os direitos sociais”.
Os católicos do PT também dizem no documento que defendem a reeleição de Lula e que para ampliar essas conquistas eles apoiam nas eleições deste ano “um projeto comprometido com a igualdade, a dignidade e o cuidado com a casa comum”.
“Defendemos uma prática política orientada pela legalidade do Estado Democrático de Direito e pelo respeito às instituições. O voto deve ser fruto de um olhar atento à trajetória pública das candidaturas, aos compromissos que assumem e aos impactos reais de seus projetos sobre a vida do povo brasileiro”, diz o texto.
Em outro momento na carta, os católicos do PT reafirmam compromisso com a democracia e dizem que “defender a dimensão democrática é proteger a vida pública contra o autoritarismo e toda forma de exclusão”.
O voto do segmento religioso é disputado pelas campanhas de Lula e de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e oposicionistas do presidente buscam usar a pauta de costumes para atacar o governo e seus aliados.
O coordenador nacional do setor inter-religioso da sigla, Gutierres Barbosa, nega que haja um interesse eleitoreiro do partido nesse movimento e afirma que a história do PT “se confunde com a própria história dos movimentos progressistas dos segmentos religiosos no Brasil”.
Lula já falou mais de uma vez publicamente que é contra o que classifica como explorar a fé para fins eleitoreiros e rejeita participar de cerimônias religiosas como cultos. Apesar disso, desde o ano passado, o petista intensificou acenos aos religiosos, com encontros com essas lideranças e menções em seus discursos.
A jornalistas, na terça, Barbosa afirmou que o debate sobre o aborto está “superado” no PT. O tema não aparece na carta divulgada hoje e é usado frequentemente por oposicionistas para desgastar o próprio PT e Lula.
— Isso está superado dentro do PT. Não estamos nem tratando disso dentro do PT e não é porque estamos ocultando nada, todos os temas precisam ser dialogados e conversados, numa sociedade democrática você ouve quem é a favor e quem é contra. Eu diria que esse tema está muito superado dentro do PT e é por isso que ele não aparece em nenhuma discussão, [não aparece nas] plenárias de mulheres, das comunidades LGBT, da juventude. Está superado porque nós estamos preocupados com o nosso país, tem muita coisa pra gente cuidar, nós pegamos um país destroçado. Vamos falar da vida? Vamos fazer um debate coerente com a sociedade: quem foi que defendeu a vida no período da pandemia? Nós defendemos a vacina, eles mataram 700 mil. Defender a vida é defender a vida plena, não é defender um tema. É defender a vida na sua plenitude — disse.
Gutierres Barbosa afirmou ainda que cerca de 86% dos filiados do PT são cristãos — católicos ou evangélicos — e que esse movimento de diálogo com o segmento religioso foi intensificado nos últimos anos diante do “avanço do conservadorismo no Brasil e do ódio”, além de ser necessário fazer frente à desinformação.

