O líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirmou nesta quinta-feira, em uma manifestação pública, que o país não abrirá mão de suas tecnologias nucleares e de mísseis e indicou que Teerã pretende manter o controle estratégico do estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes para o comércio global de energia. A declaração, divulgada em comunicado escrito, ocorre em meio ao impasse com os Estados Unidos e à continuidade de tensões mesmo após um cessar-fogo firmado no início de abril.
Contexto: Pentágono diz que guerra no Irã custou US$ 25 bilhões em dois meses, enquanto Hegseth depõe no Congresso
Guerra no Oriente Médio: Presidente do Irã diz que bloqueio naval dos EUA está ‘condenado ao fracasso’
No texto, Khamenei afirmou que a República Islâmica irá “proteger” suas “tecnologias avançadas” da mesma forma que protege suas próprias fronteiras. Ele também declarou que o país pretende “garantir a segurança da região do Golfo Pérsico e desmantelar a exploração desta via marítima pelo inimigo hostil”, em referência direta ao estreito de Ormuz, por onde passa uma fatia significativa do petróleo comercializado no mundo.
A fala marca uma das poucas manifestações do novo líder desde que assumiu o posto após a morte de seu pai, Ali Khamenei, morto em 28 de fevereiro, no primeiro dia da ofensiva militar conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã. Desde então, Mojtaba não foi visto em público, e diferentes relatos indicam que ele teria sido gravemente ferido no mesmo ataque.
Impasse entre Irã e EUA e pressão militar
O cenário atual é de impasse entre Teerã e Washington, sem sinais concretos de retomada de negociações presenciais. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem insistido que a estratégia de pressão está funcionando, especialmente por meio do bloqueio naval imposto aos portos iranianos.
Em entrevista à Axios, Trump afirmou que o bloqueio é “um pouco mais eficaz do que os bombardeios” e que está “asfixiando” o país ao restringir suas exportações de petróleo. Segundo o governo americano, a medida busca forçar o Irã a aceitar restrições severas ao enriquecimento de urânio e a entregar estoques de material altamente processado.
Navio comercial visto da costa de Dubai em meio ao fechamento do Estreito de Ormuz
AFP
Ainda de acordo com a Axios, comandantes militares devem apresentar ao presidente opções estratégicas, incluindo possíveis ataques coordenados pelo Centcom, responsável pelas operações no Oriente Médio. O plano, segundo a reportagem, prevê uma onda curta de ataques com o objetivo de romper o impasse nas negociações.
‘Mais eficaz que bombardeios’: Trump rejeita oferta do Irã sobre Estreito de Ormuz e diz que manterá bloqueio
Analistas da Bloomberg Economics, Becca Wasser e Chris Kennedy, afirmaram que “Trump quer encerrar a guerra com o Irã, mas não nos termos propostos por Teerã” e avaliaram que “Isso sugere que a questão já não é mais se ele vai escalar para pressionar por uma oferta melhor, mas quando e como. Acreditamos que a janela mais provável para uma ação é nas próximas duas semanas, e que novos ataques dos EUA são o cenário mais provável.”
Apesar da retórica, Trump afirmou a jornalistas que as negociações continuam “por telefone”, após uma tentativa frustrada de encontro entre representantes dos dois países no Paquistão no último fim de semana.
Estreito de Ormuz, economia sob pressão e narrativa iraniana
O estreito de Ormuz segue no centro da crise. O Irã já indicou que não pretende reabrir totalmente a rota para embarcações comerciais enquanto o bloqueio naval americano permanecer em vigor. Desde o início do conflito, apenas um número reduzido de navios tem sido autorizado a atravessar a via, responsável por cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos globalmente em tempos de paz.
A tensão tem provocado forte volatilidade no mercado internacional. Segundo a Bloomberg, o petróleo Brent chegou a atingir cerca de US$ 126 (R$ 630) por barril antes de recuar para US$ 114 (R$ 570), acumulando alta superior a 8% na semana, refletindo o temor de uma nova escalada militar e de um possível fechamento prolongado da rota.
Além disso, há incertezas sobre a capacidade de armazenamento de petróleo do Irã, o que pode forçar o país a reduzir a produção caso as exportações permaneçam limitadas. Sinais de pressão econômica já começaram a aparecer, com a moeda iraniana atingindo novos níveis de desvalorização.
Imagem mostra visualização de dados do tráfego marítimo no Golfo Pérsico, Estreito de Ormuz e Golfo de Omã, entre 18 e 20 de abril
MARINETRAFFIC.COM/AFP
Paralelamente, o discurso oficial iraniano tem se intensificado. De acordo com a AFP, Khamenei afirmou que os Estados Unidos sofreram uma derrota no conflito. Em mensagem divulgada pela televisão estatal, ele declarou: “Hoje, dois meses após o maior desdobramento militar e a agressão dos opressores do mundo na região, e a vergonhosa derrota dos planos dos Estados Unidos, um novo capítulo está se desenvolvendo no Golfo Pérsico e no estreito de Ormuz”.
A mensagem foi divulgada durante a celebração anual do “Golfo Pérsico” no Irã. Nela, o líder também afirmou que as bases militares dos Estados Unidos na região “carecem da capacidade de garantir sua própria segurança, sem falar na capacidade de oferecer segurança a seus aliados”.
Segundo o The New York Times, que citou autoridades iranianas sob anonimato, Khamenei teria ficado “gravemente ferido” na perna e no rosto durante o ataque que matou seu pai, embora “mantenha a lucidez mental e esteja ativo”.
O líder iraniano também destacou mudanças na gestão do estreito, elogiando “o novo marco jurídico e a gestão” iraniana do estreito de Ormuz. Autoridades do país afirmaram recentemente que já houve arrecadação inicial com a cobrança de taxas sobre o tráfego marítimo na região.
Durante o conflito, o Irã atacou embarcações como forma de retaliação, enquanto os Estados Unidos intensificaram o bloqueio naval para pressionar economicamente o país. Segundo o presidente iraniano, Masud Pezeshkian, a estratégia americana está “condenada ao fracasso”.
Khamenei também fez críticas diretas à presença estrangeira na região, afirmando que os “atores externos” que interferem à distância “não têm lugar aqui, exceto no fundo do mar”.

