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em livro, jornalista disseca década das revoluções perdidas

BRCOM by BRCOM
março 23, 2025
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Protesto contra o aumento do preço das passagens de ônibus em São Paulo, em junho de 2013 — Foto: Eliária Andrade / Agência o Globo

“Não tenho muita esperança no diálogo porque perdemos a confiança nessas pessoas. Por 30 anos, nos deram promessas jamais cumpridas”, afirmou, em fevereiro de 2011, Said Gharib, integrante de um partido de oposição do Egito, uma das milhões de vozes que lotavam a praça Tahrir para pedir, em uníssono, a queda do ditador Hosni Mubarak. Ansiavam por dias melhores. Mubarak foi derrubado, mas a esperança deu lugar à frustração: o país realizou eleições e o líder eleito, Mohamed Mursi, igualmente alvo de protestos, sofreu um golpe cerca de dois anos depois, dando lugar a um novo líder autoritário, Abdel Fatah al-Sisi.

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O movimento egípcio não foi algo isolado no começo da década passada. Além da Primavera Árabe, milhões de pessoas foram às ruas em todo o planeta, defendendo desde a preservação de árvores até a luta contra regimes autoritários. Em comum, o sentimento inicial de força e poder deu lugar a novos contextos.

Esse emaranhado de ideias, disputas e discursos é dissecado no livro “A Década da Revolução Perdida” (Ed. Boitempo), do jornalista americano Vincent Bevins, que trabalhou como correspondente no Brasil quando o país foi um dos expoentes da onda global de protestos: as manifestações de junho de 2013, que tiveram como alvo inicial o aumento das passagens de ônibus no Rio e em São Paulo, mas cujos impactos ecoam até hoje.

— É difícil falar sobre todos os protestos dos anos 2010 em uma frase, mas acho que eles respondem a uma crise real de representação no sistema global e, em algum momento, houve uma crença de que, ao rejeitar formas tradicionais e clássicas de organização que nos foram legadas pelo século XX, haveria uma espécie de abertura de um novo caminho para a transformação social — afirmou Bevins ao GLOBO.

Protesto contra o aumento do preço das passagens de ônibus em São Paulo, em junho de 2013 — Foto: Eliária Andrade / Agência o Globo

O jornalista era repórter do Los Angeles Times na época dos primeiros atos do Movimento Passe Livre (MPL), e acompanhou de perto lideranças do grupo, como Mayara Vivian. No livro, detalha a transição não apenas das reuniões com centenas de simpatizantes para os protestos com milhares nas ruas, mas também a entrada de novos atores.

“Então, no meio da multidão, na minha parte da rodovia, vi algo que não tinha visto antes. Dois manifestantes, evidentemente parte do ‘novo’ grupo, estavam enfeitados com um novo modelito”, escreveu Bevins, descrevendo um ato no dia 17 de junho de 2013. “Vestiam verde e amarelo, com a camisa da seleção brasileira bem justa sobre seus músculos. Para coroar, amarraram uma bandeira do Brasil em torno dos ombros.”

Menos de dois anos depois, as camisas amarelas eram maioria, mas agora pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O MPL, conta Bevins, retornou às origens, e até hoje é acusado pela esquerda de abrir caminho para a direita que derrubou Dilma em 2016, e que chegaria ao poder com Jair Bolsonaro em 2018.

Manifestantes protestam diante do escritório do primeiro-ministro da Tunísia, dias depois da queda do regime do ditador Zine El Abidine Ben Ali, em janeiro de 2011 — Foto: FETHI BELAID / AFP
Manifestantes protestam diante do escritório do primeiro-ministro da Tunísia, dias depois da queda do regime do ditador Zine El Abidine Ben Ali, em janeiro de 2011 — Foto: FETHI BELAID / AFP

No começo da década, a imolação do vendedor Mohamed Bouazizi, na Tunísia, foi o estopim para uma onda de protestos inédita nos países árabes, em sua maioria comandados por ditaduras. O resultado ficou longe da “onda democrática” profetizada por muitos no Ocidente.

O Egito viu a troca de um ditador por outro, com um breve hiato onde houve a esperança de um regime democrático — Mursi foi eleito, mas derrubado em um golpe. A Tunísia, epicentro da Primavera Árabe, expulsou Zine el-Abidine Ben Ali, mas vive de crise em crise, com toques de autoritarismo. Na Síria, Iêmen e Líbia, os protestos e a repressão marcaram o início de guerras civis que derrubaram regimes e ceifaram centenas de milhares de vidas. A instabilidade ainda serviu como terreno para o fortalecimento de grupos terroristas, como o Estado Islâmico.

Ativistas ucranianos formam barricada na Praça da Independência, em Kiev, durante protesto em fevereiro de 2014 — Foto: GENYA SAVILOV / AFP
Ativistas ucranianos formam barricada na Praça da Independência, em Kiev, durante protesto em fevereiro de 2014 — Foto: GENYA SAVILOV / AFP

Longe do Oriente Médio e da América do Sul, mesmo onde os protestos tiveram sucesso inicial, o resultado a médio e longo prazo foi lamentado por muitos. Na Ucrânia, a Revolução Maidan, o levante que derrubou em 2014 o governo pró-Moscou de Viktor Yanukovich, foi reprimido com violência e marcado pelo fortalecimento da extrema direita. O caos foi uma oportunidade para o presidente russo, Vladimir Putin, avançar sobre a Crimeia e sobre o leste ucraniano, onde apoiou milícias separatistas, no que foi o embrião da guerra iniciada em fevereiro de 2022.

Manifestante usando máscara de Guy Fawkes, estilizada no filme "V de Vingança", durante protesto no Parque Gezi, em Istambul, em maio de 2013 — Foto: BULENT KILIC / AFP
Manifestante usando máscara de Guy Fawkes, estilizada no filme “V de Vingança”, durante protesto no Parque Gezi, em Istambul, em maio de 2013 — Foto: BULENT KILIC / AFP

Na Turquia, a fagulha para os protestos de 2013, o plano para a destruição do Parque Gezi, em Istambul, foi suspenso pela Justiça, mas o presidente Recep Tayyip Erdogan usou os atos como pretexto para ampliar seus poderes.

— Uma das principais coisas do livro, ao adotar uma abordagem verdadeiramente global, é mostrar que não foi só o Brasil que testemunhou uma enorme saída de pessoas às ruas, e que acabou com algo muito diferente do que foi pedido, ou que pareceu de alguma forma sair pela culatra. Muitos países ainda estão lidando com isso — disse Bevins, citando o menor número de grandes protestos nesta década. — Acho que há uma espécie de ressaca do que deu errado.

Estudantes participam de protesto na frente do prédio do Legislativo de Hong Kong, em setembro de 2014 — Foto: XAUME OLLEROS / AFP
Estudantes participam de protesto na frente do prédio do Legislativo de Hong Kong, em setembro de 2014 — Foto: XAUME OLLEROS / AFP

Ao longo da narrativa de Bevins, que transita ainda pela Revolução dos Guarda-Chuvas, em Hong Kong, e pela efervescência estudantil no Chile — que levaria um de seus líderes, Gabriel Boric, à Presidência —, um elemento se destaca: a tecnologia. Quando os smartphones não eram tão difundidos, no início dos anos 2010, militantes como Gharib e Mayara usavam SMS e ligavam uns para os outros para as mobilizações.

Redes como o Facebook e o Twitter pareciam terrenos livres para divulgar ideias, chamar as pessoas às ruas e registrar os fatos de uma forma que desafiava o jornalismo tradicional — os vídeos das bombas nas ruas de São Paulo, dos disparos da polícia em Hama ou a execução do ditador Muamar Kadafi em Sirta ganharam o mundo pelos olhos dos manifestantes.

Postagem no Twitter (hoje X) da ativista egípcia Mona Seif, que diz "Todos que estiverem em outras áreas devem ir às ruas e protestar. As pessoas na [Praça] Tahrir não podem manter suas posições diante dos brutamontes do Egito" — Foto: Reprodução / X
Postagem no Twitter (hoje X) da ativista egípcia Mona Seif, que diz “Todos que estiverem em outras áreas devem ir às ruas e protestar. As pessoas na [Praça] Tahrir não podem manter suas posições diante dos brutamontes do Egito” — Foto: Reprodução / X

Um cenário quase utópico se comparado ao atual, em que a informação legítima disputa espaço (e quase sempre perde) com as notícias falsas, e cujos donos das big techs estão cada vez mais alinhados a setores políticos e econômicos pouco afeitos à democracia.

— Quase todo mundo acreditava que as redes sociais tornariam o mundo mais democrático, mais transparente e mais livre. Isso era especialmente valorizado pela mídia progressista de língua inglesa, o governo dos EUA também acreditava nisso. Era um entendimento generalizado — afirmou Bevins ao GLOBO. — A internet tinha e teve esse potencial para permitir uma troca mais livre de informações e para as pessoas registrarem sua insatisfação com as elites mais facilmente. Mas o que não previmos foi o surgimento de um tipo muito específico de mídia social, operado por capitalistas.

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