Tendo a figura humana como eixo, mas com pesquisas que percorrem caminhos distintos, os artistas paulistanos Tiago Carneiro da Cunha (que vive e trabalha no Rio) e Allan Gandhi estão em cartaz na Carpintaria da Fortes D’Aloia & Gabriel, no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio, até o fim do mês. A convite do primeiro, Gandhi faz sua primeira individual na cidade, estabelecendo um diálogo entre a imagem plana e o tridimensional.
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Em “Férias para sempre”, Cunha reúne um conjunto inédito de pinturas em que corpos reclinados aparecem espalhados por paisagens e espaços urbanos, evocando simultaneamente o descanso, a vulnerabilidade e a morte. A série nasceu do impacto provocado pelas imagens de corpos enfileirados após a operação policial no Complexo do Alemão em outubro do ano passado, a mais letal da história do Rio, com um total de 122 mortos, relendo a violência a partir da referências históricas da pintura, como a “Pietà” e a tradição flamenga.
No espaço Aquário, Gandhi apresenta “Cerâmicas”, que, além de pinturas sobre papel lixa, marca a expansão de sua pesquisa para o tridimensional, na qual, ao experimentar novos esmaltes e explorar as imprevisibilidades da queima, o artista encontrou na cerâmica uma maneira de prolongar a investigação sobre rostos e figuras que parecem oscilar entre atração e estranhamento. “Quero que o feio e o grotesco também sejam sedutores de alguma maneira”, resume.
Abaixo, os dois artistas falam sobre as aproximações entre as exposições, a construção de imagens que recusam leituras fechadas e o papel da pintura — e agora também da cerâmica — como espaço para a ambiguidade.
Tiago Carneiro da Cunha
‘Férias para sempre’ apresenta cenas em que estados de lazer e repouso se confundem com imagens de colapso ou desaparecimento. Como surgiu esse interesse em tensionar o imaginário das férias com uma dimensão mais inquietante e até existencial?
O desejo inicial dessa série veio na época daquelas imagens chocantes de corpos enfileirados após a operação policial no Alemão: falar do tema da representação da violência através do formato do corpo reclinado, que é um cânone clássico da pintura. Várias das pinturas retratam figuras com essa ambiguidade, em poses que tanto poderiam ser de banhistas quanto de vítimas, ambas tão presentes no cotidiano da nossa cidade. O título ‘Férias para sempre’, que é, em si, uma contradição de termos, também contém essa ambiguidade. Evoca uma aspiração de um otimismo quase louco, característico das ambições mais poéticas da arte, ao mesmo tempo em que oferece uma leitura mais melancólica, como um estado de descanso final, quando as preocupações da vida não importarão mais.
Thiago Carneiro da Cunha em seu ateliê
Divulgação/Kenny Hsu
Todas as pinturas compartilham um mesmo formato e constroem um campo visual em que paisagem e teatralidade se entrelaçam. De que maneira essa decisão formal influencia o processo de criação e a construção narrativa (ou antinarrativa) das obras?
As pinturas acabaram tendo o mesmo tamanho e composições parecidas porque são fundamentalmente variações sobre os mesmos temas conceituais e formais, como numa suíte musical. Formalmente eu queria explorar esse visual dramático, operístico, de uma figura em um palco, iluminada por feixes de luz que tanto poderiam vir do sol quanto de refletores, e fundos que podem ser entendidos como vistas panorâmicas e como cenários teatrais. Esses papéis frequentemente variam, e o fundo acaba tendo mais movimento e protagonismo do que a figura. Acho que, em última instância, isso deixa a construção narrativa totalmente aberta à interpretação: podem ser lidas como cenas de uma mesma peça ou como dramas paralelos, mas independentes.
Tela ‘Coqueirinho’ (2026), de Thiago Carneiro da Cunha
Divulgação/Rafael Salim
Ao incorporar referências clássicas, como as interpretações da ‘Pietà’, em diálogo com imagens do cotidiano, há um território híbrido entre tradição e presente. Como enxerga essa relação?
Eu amo estudar pintura de todas as épocas e, para além de revisitar vários desses temas e formatos clássicos (entre eles, a “Pietà”) numa visão contemporânea. Também tento reproduzir efeitos visuais que me atraem das diferentes épocas. Nessa série olhei muito para a pintura flamenga e quis alcançar efeitos de luz, sombra, contraste e intensidade de cores parecidos, mas entendidos dentro da minha linguagem. Tento transmitir ao espectador o mesmo que sinto diante dos artistas de que gosto: uma mistura de prazer e assombro e, principalmente, um afeto profundo pela pintura e pelo jeito como ela é feita.
Allan Gandhi
Sua produção recente em cerâmica parece expandir para o volume questões que já estavam presentes na pintura. Como foi o processo de transpor essa investigação da superfície bidimensional para um suporte tridimensional?
A vontade é realmente explorar as possibilidades de todo o processo de fazer cerâmica. Existe também o desejo de tirar um pouco o controle das minhas mãos. Em alguns dos trabalhos desta exposição usei esmaltes que nunca tinha usado antes, então era uma surpresa. Poderia ser boa ou ruim. Isso me interessa: me surpreender com o meu próprio trabalho. Acho que essa foi a maior mudança, não conseguir ver de imediato no que aquilo ia se tornar.
Allan Gandhi
Divulgação/Pedro Bodick
Seus trabalhos apresentam figuras e rostos que transitam entre o familiar e o grotesco, criando uma tensão entre atração e repulsa. Que experiência você busca provocar no espectador?
Quero que o feio e o grotesco também sejam sedutores de alguma maneira. E eles conseguem ser. Às vezes digo que são as duas faces da mesma moeda. Acho que as coisas opostas caminham juntas.
Obra de Allan Gandhi
Divulgação
A exposição destaca narrativas não lineares alimentadas por esboços, anotações e personagens imaginados. Como esse fluxo de criação se organiza no ateliê?
Esse fluxo intuitivo vai até certo ponto do trabalho. Li numa entrevista com Ansel Krut uma frase em que penso bastante quando reflito sobre o meu processo: “É como lançar uma linha de pesca dentro da minha consciência”. Acho que é isso. Mas, depois que o trabalho já andou sozinho, que encontrei a imagem, começo a ficar mais racional e a negociar com as decisões anteriores que tomei.

