- Resposta: Ucrânia diz que Putin quer ‘ampliar guerra’ após violação do espaço aéreo da Polônia com drones russos
- Em meio à guerra: Instalações nucleares na Ucrânia convivem com o risco de um desastre iminente
Os ataques sugerem um nível diferente de agressividade da Rússia, maior do que o visto nos mais de três anos da invasão da Ucrânia. Mas para qualquer um que estivesse ouvindo o que disse o presidente russo, Vladimir Putin, na semana passada, ela também se encaixa em uma mensagem bem mais ampla.
Putin evitou o tema por semanas após seu encontro com o presidente dos EUA, Donald Trump, em agosto, mas ele voltou a falar da guerra ao passar algumas horas diante das câmeras em sua visita à China e ao leste russo nas últimas semanas. Seus comentários ali, aliados aos ataques russos, soaram como uma nova tentativa de mostrar que a Rússia está determinada a ditar os termos para o fim da guerra.
Para a Ucrânia, a mensagem do Kremlin é a de que ele está convencido de que tem a melhor mão, em termos militares. Para os aliados de Kiev na Europa, o alerta é de que eles estarão em perigo caso sigam seus planos para mandar forças de paz para o território ucraniano. Para Trump, Putin sinaliza que não se compromete com suas demandas, apesar do líder americano alegar que a Rússia segue pronta para fechar um acordo.
— Acho que há alguma luz no fim do túnel — disse Putin, na semana passada, durante uma longa entrevista coletiva em Pequim. — Se não, teremos que resolver todas as tarefas diante de nós por meios militares.
Aqui está uma lista de comentários recentes de Putin, e como podemos os interpretar à luz de sua escalada contra a Ucrânia, além de suas ações ameaçadoras contra o Ocidente.
Em público e em privado, Putin telegrafa a confiança de que a vantagem russa no campo de batalha contra a Ucrânia só aumenta. Seu objetivo, de acordo com analistas e pessoas próximas ao Kremlin, é convencer a Ucrânia de que sua resistência à máquina de guerra russa é fútil. Em Pequim, ao ser perguntado sobre a guerra, Putin disse que as reservas de soldados ucranianos estão diminuindo, e alegou que unidades prontas para o combate não têm a metade dos integrantes necessários.
— Isso significa que a solução agora está em seu ponto mais crítico — afirmou.
- Análise: Xi, Putin e Modi sinalizam unidade em cúpula, apesar de desconfianças e interesses conflitantes ainda marcarem relação
Os comentários ecoam as visões pessoais de Putin de que o Exército ucraniano precisa tanto de soldados que as defesas locais estão perto do colapso. Essa perspectiva foi descrita nos últimos meses por duas pessoas próximas ao Kremlin, que exigiram não terem seus nomes revelados por conta da gravidade do tema.
O ponto central de Putin para a Ucrânia, de acordo com essas pessoas, é de que o país deve aceitar qualquer proposta de paz que esteja sobre a mesa, uma vez que planos futuros podem ser ainda piores. Os aliados da Ucrânia afirmam que Putin tenta forçar Kiev a uma rendição, ignorando suas próprias e consideráveis perdas e ganhos limitados no campo de batalha, assim como os impactos à economia russa.
Europa: Brincando com fogo
Putin expressa sua crescente frustração com a tentativa dos países europeus de formarem uma “coalizão dos dispostos” para defender a Ucrânia de um futuro ataque russo depois do fim da guerra. Em sua entrevista coletiva em Pequim, na quarta-feira passada, Putin se referiu aos apoiadores da Ucrânia na Europa como um “partido da guerra” que quer enfrentar a Rússia “até o último ucraniano”.
Dois dias depois, em um evento de três horas de duração, no porto de Vladivostok, no Pacífico, Putin disse que se qualquer soldado ocidental aparecer na Ucrânia “especialmente agora, durante os combates, nós vamos entender que eles serão alvos legítimos para destruição”.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/G/h/ZkVOCJRVek5mWN7AAF4w/112231910-in-this-pool-photograph-distributed-by-the-russian-state-agency-sputnik-russias-president.jpg)
Ele acrescentou que a possibilidade de posicionar tropas da Otan na Ucrânia era uma “causa raiz” da série de eventos que, segundo a narrativa de Putin, levou à invasão russa. Se houver um acordo de paz, ele considera que a presença dos militares ocidentais em solo ucraniano “não fará sentido algum”.
Neste contexto, a incursão de drones russos no espaço aéreo polonês na madrugada de quarta-feira soa como um possível lembrete de que o Kremlin está pronto para elevar o tom em um confronto com a Otan.
Trump: Ainda pronto para negociar
Putin não parou de fazer elogios a Trump, a quem vê como chave para obter um acordo de paz em seus termos. Mas suas ações militares testam a paciência do presidente americano, e aparentemente o desafiam a cumprir suas ameaças para pegar mais pesado com a Rússia.
Putin disse em Pequim que o governo Trump estava “tentando encontrar uma solução” para a guerra “através de meios pacíficos”, e que os líderes mundiais reunidos para uma parada militar chinesa expressaram a esperança de que o americano pudesse ajudar a encerrar o conflito.
- Redução de receitas: Trump propõe à UE impor tarifas à China e à Índia para pressionar Putin
Em Vladivostok, Putin sugeriu que a Rússia agora estava esperando pelos EUA e pela Ucrânia para fazer o próximo movimento. Ele reiterou que Moscou quer “garantias de segurança” para si, uma demanda que traria limitações drásticas à soberania ucraniana.
— Vamos respeitar essas garantias de segurança que, claro, precisam ser desenvolvidas para a Rússia e para a Ucrânia — afirmou o líder russo. — Ninguém discutiu o tema conosco de uma maneira séria, e é isso.