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outubro 14, 2026
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Em romance que chega às livrarias em novembro, Míriam Leitão aborda riscos de perda de direitos das mulheres

Por · outubro 14, 2026
Em romance que chega às livrarias em novembro, Míriam Leitão aborda riscos de perda de direitos das mulheres


Novo livro de ficção de Míriam Leitão, o romance “A dança de Elisa”, que chega às livrarias no início de novembro, descreve uma sociedade, não identificada temporal ou geograficamente, na qual as mulheres perdem gradualmente seus direitos, desde o que lhes dá a liberdade de circularem sozinhas até o de votarem ou de se expressarem. Criados pela Nova Ordem, que ocupa o vácuo de poder e se instala de forma autoritária, os decretos, justificados como ações para conter ondas de violência contra as mulheres, passam a ser enfrentados por um grupo liderado pela bailarina Elisa, que recorre à dança — proibida pelas novas regras — como forma de luta.
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Apesar de parecer escrito em meio a questionamentos atuais da extrema direita mundial sobre o próprio direito de voto feminino, a jornalista e escritora conta que o texto foi iniciado em 2018 e concluído no ano passado, entre a publicação de outras obras, como os livros de não ficção “Democracia na armadilha” (2021) e “Amazônia na encruzilhada” (2023); os infantojuvenis “O menino que conhecia o fim da noite” (Rocco, 2022) e “Lulli, a gata aventureira” (Rocco, 2025); e o relançamento do romance “Tempos extremos”, em 2024.
— Em 2018 sofri um ataque digital muito forte, e, num jantar de amigos que me prestavam apoio, me veio a cena de uma mulher jovem, uma bailarina, que dançava enquanto uma multidão chegava à sua casa para linchá-la. Assim que cheguei em casa, escrevi o primeiro capítulo. E quase cheguei a publicar como conto, mas no dia que ia entregar o texto ficou na minha cabeça, me “convencendo” que era mais que um conto — explica a colunista do GLOBO e imortal da Academia Brasileira de Letras. — Nesse período, me dediquei a outros livros que ficaram urgentes pela situação do país, e o livro foi ficando parado. Eu o abandonei algumas vezes mas ele não desistiu de mim, ficou ali, no meu pé. Fui escrevendo e reescrevendo, numa uma bordadura lenta.
Míriam diz ter se surpreendido ao reler os originais recentemente, sob o impacto do discurso antifeminista como arma eleitoral.
— Entreguei para a editora no final do ano passado, quando escrevi esse cenário não estava posto. Independentemente do resultado das eleições, essa onda conservadora está entre nós. Ela vai pressionar, colocar as mulheres no campo de defesa dos seus direitos. Acho que, de certa forma, a gente achou que essas conquistas essenciais estavam garantidas, que a gente acumulava a cada geração. E o livro fala sobre isso, como esses direitos podem ser tirados a cada crise, como Simone de Beauvoir nos ensinou — comenta a autora. — Tem uma hora que você se desliga do livro, quando está passando por todos os processos dentro da editora. Quando começamos a preparar o lançamento, eu reli em espanto. Parecia que tinha escrito ontem.
‘1984’ entre referências
Além da referência de “O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir, que a autora recorda ter lido aos 16 anos, outras obras influenciaram a escrita, como “1984”, de George Orwell. Ao trocar impressões sobre os os originais com o marido, o cientista político e também escritor Sérgio Abranches, Míriam foi presenteada com um exemplar de “O conto da aia”, da canadense Margaret Atwood, que também aborda uma distopia onde mulheres são oprimidas por uma república teocrática que se instala nos Estados Unidos.
— Não tinha lido o livro, também só fui ver a série depois. Num primeiro momento, pensei: “Já está escrito, esquece. Vou cuidar da vida”. Porque não iria conseguir fazer além de uma mestra como a Margaret Atwood. Mas o livro não queria me deixar, mesmo assim. Eu fui então colocar a minha perspectiva — conta Míriam. — Além das referências literárias, tem algumas vivências minhas também, mesmo não sendo autobiográfico. A prisão na ditadura, uma reportagem que fiz, aos vinte e poucos anos, durante um mês na Arábia Saudita. Fiquei muito impressionada em ver como as mulheres lidavam com naturalidade com a aquele ambiente de restrição de direitos. Queria colocar no papel tudo isso que vi, senti e sofri, e o que temo para a vida das minhas netas, quando olho para o futuro.
Capa de ‘A dança de Elisa’
Divulgação
A autora conta que, ao abordar o tema, a ficção se impôs espontaneamente como gênero:
— Ficava com essa ideia de fazer um livro com uma perspectiva feminista, mas não sabia se como um ensaio, se uma reportagem. Como em “Tempos extremos”, a ficção não veio a partir de uma decisão consciente. A diferença é que veio como uma avalanche, não me deixou parar de escrever. E “A dança de Elisa” veio comigo pela estrada, foi uma companhia durante momentos de dor, de espanto com números de feminicídio, com o que acontecia a mulheres no Brasil e no mundo. É uma resposta a tudo isso.
‘A dança de Elisa’
Autora: Míriam Leitão. Editora: Intrínseca. Páginas: 224. Preço: R$ 69,90.

Em romance que chega às livrarias em novembro, Míriam Leitão aborda riscos de perda de direitos das mulheres