Toronto recebe, às 20h de hoje, o jogo entre Croácia e Panamá, pela 2ª rodada do grupo L da Copa do Mundo, mas não é a primeira vez que os europeus serão protagonistas nos campos do Canadá. Pelo contrário: faz exatos 50 anos que uma equipe tão improvável quanto meteórica “uniu” as duas nações e contou com a lenda do português Eusébio para faturar o título da liga norte-americana — antes mesmo que os croatas tivesse um lar próprio.
Esqueça a Major League Soccer. Em 1976, o campeonato local era a North American Soccer League (NASL), reunindo 20 times de Estados Unidos e Canadá e ainda tentando emplacar o futebol na região. Em meio a um fenômeno que arrastou outras lendas como Pelé, Johan Cruijff e Franz Beckenbauer, atraídos por altos salários, estava o tímido Toronto Metros-Croatia.
Àquela época, o território da atual Croácia sequer tinha independência, o que só aconteceria em junho de 1991, quando se concretizou a separação da Iugoslávia. Porém, os croatas estavam espalhados pelo mundo e tinham uma comunidade no Canadá. Quando o então Toronto Metros estava à beira do colapso financeiro, seus donos o venderam ao Toronto Croatia, clube semiamador fundado em 1956 e que disputava a Canadian National Soccer League.
De um dia para o outro, o novo Toronto Metro-Croatia fazia parte da NASL, com uma presença de nove jogadores de ascendência croata e iugoslava que preocupava a organização da liga.
“Sabíamos que não éramos muito bem vistos na liga por termos um nome étnico”, declarou o ex-zagueiro do Metros-Croatia Damir Sutevski ao jornal The Guardian. “Considerando que a liga estava em seus estágios iniciais, eles tiveram que aceitar o ‘Croácia’, mas não gostaram”, continuou.
Entre o começo surpreendente do clube e o título nacional de 1976, com a vitória por 3 a 0 sobre o Minnesota Kicks, na final chamada “Soccer Bowl”, foi necessário superar algumas barreiras. E Eusébio foi parte fundamental nesse processo.
O maior nome do futebol português no século XX tinha seguido o caminho de outros amigos lendários e se transferido para a NASL, mas as problemas financeiros do Boston Minutemen, clube americano que lhe contratou, inviabilizaram sua permanência a longo prazo. A busca do Pantera Negra por uma nova equipe terminou em Toronto.
O clube ligado aos croatas também passava por aperto financeiro, mas contava com o apoio inusitado de sua gente, o que incluía até doações da igreja Our Lady Queen of Croatia. Basicamente, a comunidade ajudava a pagar salários e até as despesas de viagens. A chegada de Eusébio foi uma surpresa.
“Foi incrível quando ele entrou no nosso vestiário. Era um homem imponente, com óculos de sol estilo aviador, e exalava confiança”, lembrou o ex-lateral direito Bob Iarusci em entrevista ao site da Fifa. “Tínhamos um bom grupo de jogadores que eram impressionantes, mas nenhum se comparava ao currículo do Eusébio”.
O atacante vivia o crepúsculo da carreira após ter brilhado intensamente no Benfica e na seleção de Portugal, e sofria com dores nos dois joelhos. Porém, o maior problema que enfrentou foi o relacionamento com o treinador Ivan “O Terrível” Markovic, que chegou a lhe deixar no banco em um jogo contra o New York Cosmos, liderado por Pelé, alegando que estava doente, e indicou que o dispensaria.
“Doente?”, indagou Eusébio ao jornal Toronto Star. “Estou saudável. Isso nunca me aconteceu na vida. Não consigo acreditar… Há muita política envolvida.”
A verdade é que o momento do Metros-Croatia era péssimo. A equipe chegou a ficar sete jogos sem marcar no meio da temporada, sequência quebrada exatamente por um gol de Eusébio em uma vitória contra o Portland Timbers. Markovic acabou demitido e Marijan Bilic, que treinou a equipe em 1975, retomou o comando. Foi um ponto de virada de chave geral.
A equipe de Toronto venceu os últimos quatro jogos da temporada e teve a sexta melhor campanha da fase de classificação. Nos playoffs, venceu jogos contra Rochester Lancers, Chicago Sting e Tampa Bay Rowdies, antes de chegar à final, contra Minnesota. Os canadenses-croatas não deram chance ao azar na partida disputada em Seattle. Eusébio foi o responsável por abrir o placar, com um gol de falta aos 40 minutos.
Os narradores da emissora de TV que fez a transmissão nacional foram instruídos a não citar “Croácia”, apenas “Toronto”, mas não houve como parar o primeiro grande título do futebol canadense de clubes. Ainda assim, a NASL tentou escondê-lo, e sequer elegeu algum jogador para a seleção da temporada.
A aventura do Metros-Croatia terminou em 1979, quando o clube foi novamente comprado e virou Toronto Blizzard. Eusébio já havia saído e acabou se aposentando em 1980. A cidade só voltaria a vencer o título nacional em 2017, com o Toronto FC, na MLS. O dia de hoje marca o grande reencontro da comunidade croata com sua seleção.

