Em uma década, a desigualdade racial no mercado de trabalho persiste como um grande desafio, com disparidades que, em muitos casos, se aprofundaram. É o que mostra um estudo feito pelo Cedra (Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais) inédito com dados da PNADC (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), coletados entre 2012 e 2023, com recortes específicos de raça e gênero. O estudo será divulgado nesta sexta-feira, 21 de março, Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.
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O levantamento revela a desvantagem contínua da população negra em diversos indicadores, incluindo rendimento, ocupação e cargos de gerência. A situação se torna ainda mais preocupante considerando o cenário global. Com a entrada de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, diversas empresas recuaram ou desistiram de suas políticas de diversidade, influenciadas por suas filiais no Brasil e em outros países.
- A renda média do trabalho principal de pessoas negras correspondia a 58,3% da renda das pessoas brancas, em média, no mesmo período. Em 2012, a renda média do trabalho principal das pessoas negras era de R$ 1.049,44, enquanto as pessoas brancas recebiam R$ 1.816,28. Em 2023, a renda das negras subiu para R$ 2.199,04, enquanto a das brancas foi para R$ 3.729,69. Houve uma leve redução, de 1 ponto percentual da desigualdade entre os grupos
- A renda média do trabalho principal dos homens negros era de 55,4% da renda dos homens brancos em 2012, e subiu para 57,7% em 2023. Entre as mulheres, a renda das negras era de 60,7% da renda das brancas, mas caiu para 59,8% no mesmo período. Embora a renda dos homens negros tenha se aproximado mais da dos brancos, a diferença entre mulheres negras e brancas aumentou ligeiramente.
- Entre 2012 e 2023, em média, as pessoas brancas empregadoras eram mais do dobro das pessoas negras.
- O percentual de desocupação foi de 12% entre pessoas negras e 8,2% entre pessoas brancas, em média, no período. A desigualdade na taxa de desemprego aumentou de 2,5 para 3 pontos percentuais entre 2012 e 2023.
- Em relação aos cargos gerenciais, pessoas negras eram 53% da população em 2012, mas ocupavam apenas 31,5% dos cargos gerenciais. Em 2023, representavam 56,5% da população e 33,7% dos cargos gerenciais. Apesar de um aumento de 3,5 pontos percentuais na participação dos negros na população e de 2,2 pontos nos cargos gerenciais, a proporção nesses cargos ainda se manteve desigual em relação à população.
- A presença de mulheres brancas em cargos gerenciais foi proporcionalmente maior do que na população em geral, enquanto as mulheres negras continuaram sub-representadas nesses postos. As mulheres brancas aumentaram sua participação em cargos de liderança, mesmo com uma diminuição de 24,1% para 22% na população. Já as mulheres negras aumentaram sua presença nesses cargos, mas menos do que o aumento da população negra, mantendo-se sub-representadas.
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Esses últimos números revelam, na opinião de Marcelo Tragtenberg, conselheiro do CEDRA, que as políticas de diversidade têm sido mais eficazes para as mulheres brancas, mas não para as mulheres negras, que ainda enfrentam grandes desafios no acesso a cargos de liderança.
A tendência de recuo das política diversidades está se espalhando por empresas e instituições americanas, em resposta ao ambiente político polarizado, intensificado pela decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, em 2023, que proibiu o uso da ação afirmativa em admissões universitárias.
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Liliane Rocha, CEO e fundadora da Gestão Kairós, destaca que o movimento reflete um cenário mais amplo de retrocessos, conhecido como backlash. O termo descreve a resistência ao avanço de pautas como diversidade e sustentabilidade empresarial, impulsionada pelo movimento anti-woke.
– Backlash é, em tradução livre, um retrocesso em diversidade, inclusão e ESG. Já o movimento anti-woke faz oposição ao “despertar” para essas questões, promovendo um discurso que valoriza conceitos como mérito, excelência e inteligência (M.E.I.) em oposição à diversidade e inclusão (D.E.I.).
Para Helio Santos, presidente do Conselho Deliberativo do Cedra, as empresas que diziam estar comprometidas com diversidade e inclusão estão abandonando essas políticas ao menor sinal de resistência, e que isso reflete uma falta de compromisso genuíno.
– No primeiro sopro contrário, elas estão fechando essa política. Na verdade, são empresas que nunca acreditaram muito nisso. Em 2023, a Suprema Corte dos Estados Unidos decretou como inconstitucional as cotas nas universidades, após mais de 60 anos de aplicação dessas políticas. Aqui no Brasil, temos essas políticas há 12 anos oficialmente, e as pessoas já falam em flexibilizá-las ou até encerrá-las.
Para ele, com o trumpismo, a tendência agora será um jogo de narrativa e um embate político.
– Ao sul do Equador, infelizmente, tendemos a copiar o que é ruim. Quando minha geração trouxe as cotas raciais, estávamos, na verdade, copiando os Estados Unidos, sendo que somos absolutamente diferentes deles. Eles são minoria, enquanto nós somos a maioria. No entanto, agora, queremos copiar o que de ruim eles têm.
Mesmo acreditando que o trumpismo vai gerar graves problemas no mundo todo, o professor mantém seu otimismo:
– Acredito que teremos uma janela de oportunidade para desmistificar isso e mostrar que não somos como eles. Eles podem segregar os negros e alcançar um grande desenvolvimento, mas no Brasil, não. Nosso país está entre os dez mais ricos, ao lado de países como Inglaterra, França, Japão e Estados Unidos. Mas, ao mesmo tempo, também estamos entre os dez países mais desiguais. A razão disso é simples: o Brasil, entre os dez mais ricos, é o único de maioria negra. Isso nos leva a estar também entre os países mais desiguais. A desigualdade é um fator que reduz a potência do país.
– Reduzir a desigualdade racial não é algo que beneficia os negros. Beneficia a sociedade como um todo. A questão racial não é um problema, ela é parte da solução. Esses indicadores confirmam isso e mostram que muito ainda tem que ser feito.
– Estamos em um país com uma das maiores desigualdades do mundo, sendo uma das economias mais ricas e ao mesmo tempo uma das mais desiguais. O que nos diferencia dos demais é sermos o único país de maioria negra nesse grupo”, afirma.
Helio Santos destaca que diversas empresas que diziam estar comprometidas com diversidade e inclusão estão abandonando essas políticas ao menor sinal de resistência, e que isso reflete uma falta de compromisso genuíno. Ele também lembra da decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, em 2023, que declarou inconstitucional o uso de cotas raciais nas universidades, após 60 anos de políticas afirmativas, e alerta para movimentos no Brasil que já tentam flexibilizar as políticas afirmativas após apenas 12 anos de sua implementação.
Ele reforça que reduzir a desigualdade racial não é apenas uma questão de justiça social, mas uma necessidade econômica.
– Quando se aparta economicamente uma parcela da população, o país perde seu potencial de crescimento”, afirma. Apesar dos desafios, ele acredita que ainda há uma janela de oportunidade para desmistificar os discursos contrários às políticas afirmativas e avançar rumo a uma sociedade mais equitativa.

