A Embraer e a companhia sueca Saab concluíram nesta terça-feira (06) o voo inaugural do primeiro caça Gripen E inteiramente montado no Brasil. A decolagem ocorreu às 10h21 no complexo industrial de Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, onde fica a fábrica da Embraer. A operação marca o início da fase final de aceitação da linha de produção sul-americana, a única instalada fora da Suécia.
O teste teve como objetivo verificar as funções básicas dos sistemas do equipamento e avaliar seu desempenho inicial. O piloto-chefe de testes da Saab, Jakob Högberg comandou o voo, enquanto engenheiros brasileiros ficaram responsáveis pelo planejamento e execução da rota. Após a conclusão desta campanha, a unidade receberá certificação e será repassada à Força Aérea Brasileira (FAB).
— Este voo inaugural mostra que a produção do Gripen no Brasil atingiu um novo nível de maturidade. Estou orgulhoso da nossa estreita cooperação com a Embraer no Programa Gripen, que estabelece uma base sólida para o desenvolvimento futuro do Gripen no Brasil — afirmou Marcus Wandt, chefe da área de negócios de Aeronáutica da Saab.
A aeronave recém-testada é a primeira de um lote de 15 jatos que serão fabricados em território nacional, parte do contrato original do programa FX-2 assinado em 2014. O acordo inicial previu a entrega de 36 aeronaves por cerca de US$ 3,77 bilhões, com prazo final estipulado para 2027. Posteriormente, o governo federal acrescentou mais quatro unidades ao escopo.
Para viabilizar a fabricação local, o projeto exigiu uma política de contrapartida comercial e de transferência de tecnologia. Aproximadamente 350 funcionários da companhia brasileira passaram por treinamento na Suécia e, atualmente, 90% da equipe responsável pela montagem no interior paulista é composta por profissionais brasileiros que participaram de projetos de capacitação para a construção dos caças.
— Este primeiro voo de um Gripen E produzido no Brasil pela Embraer é um marco histórico para a indústria aeroespacial e de defesa do país. Confirma o sucesso de uma estratégia de longo prazo que combinou a visão da Força Aérea Brasileira, a experiência tecnológica da Saab e as capacidades de engenharia e industriais da Embraer — pontuou Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança.
Mercado internacional
A mudança no perfil da planta paulista ocorre em um momento de expansão da carteira global do caça, cenário que aumenta a pressão sobre a infraestrutura europeia. Durante o Farnborough International Airshow, em 21 de julho, as duas companhias formalizaram um acordo preliminar para a montagem de 20 aeronaves adicionais no Brasil. O objetivo é que a linha sul-americana complemente o polo de Linköping, com a expectativa de que o contrato definitivo seja selado ainda em 2026.
Essa reorganização vem transformando a instalação de Gavião Peixoto, concebida inicialmente para suprir a FAB, em um elemento estrutural da rede de fornecimento internacional da Saab. Com a nova configuração, a unidade passa a atuar como uma alternativa industrial para absorver parte da demanda externa, distribuir a carga de fabricação e encurtar prazos de entrega.
Primeiro Gripen E produzido no Brasil faz voo inaugural no interior de SP
Divulgação/Embraer
Em novembro de 2025, a Colômbia fechou a compra de 17 jatos (15 do modelo E e dois F) em um negócio de 3,1 bilhões de euros, com recebimento programado até 2032. A proximidade geográfica e logística coloca a Embraer como candidata natural para participar do processo de entrega dessa encomenda, embora a divisão exata do fluxo de montagem dependa do planejamento final de ambas as empresas.
Além da América do Sul, o portfólio do Gripen acumula novos compromissos na Ásia e no Leste Europeu. A Tailândia, que já opera versões anteriores, contratou quatro aparelhos de nova geração (três E e um F) por cerca de 5,3 bilhões de coroas suecas.
Paralelamente, tratativas iniciadas em maio deste ano entre Estocolmo e Kiev sinalizam a possibilidade de a Ucrânia adquirir um lote inicial de até 20 unidades (somadas à doação sueca de 16 modelos C/D). Esse volume ainda aguarda formalização contratual, mas adiciona força à necessidade de descentralizar a cadeia produtiva dos vetores.
Substituição de frota e raio de ação
O F-39 Gripen, designação militar adotada no país, substitui gradativamente a frota de F-5M, aviões de origem norte-americana que operam desde 1975. O caça atinge velocidade máxima de 2.400 km/h e pode voar a até 16 mil metros de altitude. Em configuração de combate e equipado com armamentos, o raio de ação alcança 1.100 quilômetros, enquanto a autonomia máxima de traslado em voo limpo chega a quatro mil quilômetros.
O equipamento suporta decolar com 16,5 toneladas de peso bruto e emprega mísseis ar-ar de curto e longo alcance, ar-superfície e bombas guiadas a laser ou GPS. A suíte eletrônica, equipada com radares e sensores de ponta, permite realizar missões simultâneas de defesa aérea, ataque e reconhecimento em uma mesma surtida sem a necessidade de reconfiguração de solo.
As dez unidades já entregues à FAB, oriundas da Europa, estão concentradas no 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), instalado na Base Aérea de Anápolis (GO). O local passou por reformas de infraestrutura para abrigar os simuladores de voo e estações de planejamento. O Ministério da Defesa estuda agora distribuir os próximos esquadrões para outras bases ao redor do país, de acordo com as diretrizes táticas, e avalia a assinatura de um segundo contrato para aquisição de mais 26 caças.
