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Depois de entrarem na aba de “favoritos” de muita gente, os chatbots de inteligência artificial querem mais. Agora, a ambição é virar a nossa porta de entrada na internet. Para isso, empresas de IA estão de olho nos navegadores. Sim, os mesmos que a gente usa todo dia para entrar em sites, salvar links e eventualmente se perder em mil janelas abertas.
A barra de endereços continua lá, como no Chrome ou no Safari. Mas a ideia é que o usuário precise cada vez menos dela. A navegação pode ser feita no formato de “conversa”. Em vez de pular de aba em aba, é possível pedir um resumo das informações abertas nas janelas. O navegador também resume vídeos do YouTube, analisa plataformas de compras e acessa sua caixa de entrada no e-mail.
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Na semana passada, a empresa americana Perplexity lançou o Comet, um navegador com IA generativa que traz essas funcionalidades. A OpenAI, criadora do ChatGPT, também prepara um navegador próprio, segundo a imprensa americana, que deve ser lançado nas próximas semanas. Dono do navegador mais popular do planeta, o Google não quer ficar para trás e já começou a integrar o Gemini, sua inteligência artificial, ao Chrome (por enquanto, só para assinantes).
Em tese, a ideia é levar mais eficiência. Em vez de você buscar, filtrar e clicar, as IAs fazem boa parte do trabalho. Na prática, algumas dúvidas se impõem: se a IA resume tudo, o que você deixa de ver? Para onde vão os links? E o que acontece com todas as informações da navegação que ela acessa?
Fundada em 2022, a Perplexity já vinha desenvolvendo um motor de busca com IA para rivalizar com o Google. Com o navegador próprio, a ideia é competir também com o Chrome. A IA não apenas responde, mas também interage com as informações da internet – e pode “enxergar” a tela.
Diferentemente do Chrome, que exibe a busca do Google na página inicial, o Comet já abre com um campo de conversa, como no ChatGPT. Ao lado, uma aba chamada “Assistente” permite dialogar com o navegador sobre qualquer coisa que esteja aberta na sua tela.
Precisa comparar preços de vários sites? A IA resume detalhes de cada item. Saber uma receita do YouTube? É só perguntar qual é o passo a passo, que ela descreve sem você abrir o vídeo.
Outro exemplo: no Google Maps, a IA entende comandos como “trace uma rota do ponto A ao B, passando pelo hotel, por uma farmácia e pelo aeroporto”. O “Assistente” cria o roteiro diretamente no mapa, com a explicação na aba lateral.
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Para o pesquisador Fernando Ferreira, do NetLab/UFRJ, o ganho de conveniência é real, mas vem com um custo: a perda da diversidade informacional. Ao receber apenas uma resposta sintetizada, o usuário deixa de acessar o contexto e a autoria dos conteúdos originais – o que também ameaça a sustentabilidade de sites e veículos jornalísticos.
2. O futuro: ‘agentes’ entram em cena
Por enquanto, o navegador da Perplexity está disponível apenas para assinantes, que precisam pagar US$ 200 (cerca de R$ 1,1 mil). Mas a startup afirma que o objetivo é fazer o serviço “acessível para todos os usuários” no futuro.
Segundo Aravind Srinivas, CEO da Perplexity, criar um navegador é o caminho mais natural para construir “agentes autônomos”, como são chamados os sistemas de IA que executam tarefas sem necessidade de comandos a cada passo
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O Comet já conversa com e-mail, calendário e apps de mensagem. Se estiver sincronizada no e-mail, pode buscar por mensagens (por exemplo: “Me diga quais e-mails recebi nas últimas horas sobre o projeto X”). Ainda pode marcar uma reunião e enviar o link para o colega de trabalho. Quer comprar algo? Ela faz a busca, compara preços e, se você estiver logado, leva os produtos para o carrinho de compra.
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O caminho dos “agentes” levanta preocupações sobre o nível de autonomia concedido para as IAs, que podem, além de errar, estar vulneráveis a sites fraudulentos ou manipulações maliciosas. “Existe uma certa ingenuidade de que a tecnologia vai solucionar todos os nossos problemas como se fosse neutra. Mas ela está inserida em uma lógica de interesses e monetização”, acrescenta Tulio Chiarini, pesquisador do Centro de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade do Ipea.
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Ferreira, do NetLab, diz que os agentes podem ser úteis pelo potencial de “agregar informações, executar tarefas repetitivas e interagir com sistemas legados”. Mas ressalta um ponto essencial: é preciso ter transparência nas decisões e mecanismos claros de responsabilização em caso de erros.
3. A lógica: reter é poder
Ao criar um navegador próprio, empresas como a Perplexity têm uma via mais direta de monetização e de retenção do usuário. É a mesma lógica que transformou o Chrome numa máquina de retroalimentar o buscador do Google — e os anúncios que ele sustenta. Aravind Srinivas, presidente da Perplexity, já chegou a dizer que a estratégia representa uma espécie de “retenção infinita” do usuário, ao mantê-lo no ecossistema da empresa.
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Uma parte relevante dessa retenção está nos dados, como lembra Tulio Chiarini. Ele diz que os navegadores são peças estratégicas dentro do ecossistema das big techs. Quanto mais tempo o usuário passa ali, mais dados são coletados, o que pode ajudar a personalizar as respostas da IA, mas também segmentar anúncios.
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O Comet, da Perplexity, segue esse mesmo roteiro. A empresa afirma que o processamento das informações acontece localmente, mas as funcionalidades que acessam a tela e aplicativos dos usuários levantam dúvidas sobre privacidade.
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Para quem deseja testar navegadores com IA de forma consciente, a principal característica de Ferreira, do NetLab, é identificar em que situações a ferramenta realmente agrega, seja em produtividade, agilidade ou complexidade de tarefas, mas sempre com espírito crítico.