O empresário André Tupinambá — irmão de Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-diretor do Banco Genial — atuava como a ponte direta entre a instituição financeira e os chefes de uma organização criminosa do setor de combustíveis: Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, proprietários da Copape e da Aster, ambos foragidos.
Os irmãos Tupinambá são alvos da Operação Crédito Oculto, terceira fase da Operação Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (24). A ação cumpre mandados de busca e apreensão contra 13 pessoas físicas e 19 empresas em sete estados, com o objetivo de esclarecer o uso de estruturas financeiras na aquisição da Tobras Distribuidora de Combustíveis Ltda. (Terrana), uma das maiores do país.
Documentos do Ministério Público de São Paulo (MPSP) indicam que reuniões em Brasília alinharam a compra dissimulada da distribuidora por meio de cédulas de crédito bancário e fundos de investimento.
Mensagens interceptadas de 12 de novembro de 2024 detalham essa articulação na capital federal. Quando o operador Paulo Narcélio Simões do Amaral manifestou apreensão sobre uma reunião com executivos estrangeiros, André Tupinambá interveio e sugeriu um contato imediato com a cúpula do grupo. Em áudio de WhatsApp, instruiu: “Paulo, vamos falar agora com o Mohamed, o que que você acha? Porque eu falei com ele ainda hoje, eu estava em Brasília. Você está em Brasília, não?”. Em seguida, reforçou a presença de Beto Louco na cidade: “Beto tá aí…. Eu cheguei hj daí. Pode falar hj ainda?” e “Vou chamar mhmd. E volto aí”.
Após Paulo Narcélio confirmar seu desembarque, André mediou o contato. Em áudios transcritos pelo MP, afirmou: “Sim, ele está aí. Vou pedir pra você falar com ele. Espera aí, aí fica bom”, e complementou: “Paulo e o Beto. Acabei de falar com ele. Ele está aí. Se você puder ligar para ele e marcar para amanhã, ele vai estar aí, está bom?”. Em seguida, encaminhou o contato direto de Beto Louco para o alinhamento das decisões do negócio.
Destruição de provas e manobras financeiras
A proximidade entre o núcleo do banco e a organização criminosa resultou em manobras para eliminar evidências diante da fiscalização. Em 5 de agosto de 2025, Paulo Narcélio alertou Humberto Tupinambá que a quitação de um empréstimo da holding Branson havia ocorrido com recursos da Aster Petróleo (controlada por Beto Louco e Primo), o que geraria um alerta crítico caso a Secretaria da Fazenda de São Paulo (Sefaz) exigisse os comprovantes. Para evitar a exposição, o executivo respondeu ao aviso e apagou imediatamente todo o histórico de conversas do aplicativo.
Segundo a Prmotoria, os irmãos Tupinambá integravam a reestruturação e a manutenção da distribuidora sob controle do esquema. Conversas revelam tratativas diárias sobre aportes, garantias e linhas de crédito com a Petrobras.
Enquanto o Banco Genial figurava formalmente como concedente dos empréstimos para as holdings de fachada, a cúpula e seus intermediários despachavam diretamente com os líderes ocultos para garantir que a transação de mais de R$ 100 milhões ocorresse sem levantar suspeitas do Fisco e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM)
Operação Crédito Oculto
A força-tarefa reúne a Receita Federal, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (MPSP), as secretarias da Fazenda e a Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo, além das polícias Militar e Civil, com o apoio dos Gaecos do Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
A investigação aponta que operadores do mercado financeiro criaram estruturas para ocultar os verdadeiros donos de uma usina sucroalcooleira e viabilizar a compra da distribuidora de combustíveis. Os alvos sobrepuseram fundos de investimento, holdings, empresas patrimoniais e instituições financeiras para blindar os beneficiários finais.
Entre os alvos de busca estão endereços ligados a Humberto Arthur Tupinambá Neto, aos seus irmãos André e Bruno Tupinambá, e ao empresário Antonio Carlos Freixo Junior, o “Mineiro”, dono da Entre Investimentos.
Freixo firmou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) no âmbito do Caso Master. Apontado como operador do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e descrito como “pioneiro nas Bahamas” por suas estruturas offshore, Mineiro relatou ter feito sete remessas em 2025 (totalizando US$ 12,3 milhões) para o fundo americano Havengate, usado para financiar o filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O fundo é administrado por Paulo Calixto, próximo ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Segundo a investigação, a primeira etapa da estrutura teve como objetivo esconder os reais proprietários de uma usina sucroalcooleira no interior paulista. Embora formalmente a empresa estivesse pulverizada entre fundos e companhias independentes, a engenharia financeira preservava o controle econômico do negócio nas mãos do grupo.
Outro Lado
O Banco Genial esclareceu, por meio de nota, que Humberto Tupinambá não integra a diretoria e não é sócio da instituição desde maio de 2026, quando ocorreu sua destituição.
A instituição afirmou que todas as informações relativas às operações do Fundo Radford — incluindo as referências às empresas Berna e Branson Holdings — que estavam em seu poder foram fornecidas proativamente pela própria Genial ao Gaeco-SP, além de terem sido objeto de comunicações cabíveis ao COAF em conformidade com a legislação. Segundo o banco, nas operações mencionadas, a instituição atuou estritamente dentro de suas atribuições e regulamentos com base nas informações disponíveis à época.
A Genial destacou que, a partir do conhecimento dos fatos, adotou medidas adicionais de governança e controle, o que incluiu a instauração de uma inspetoria interna, a revisão da governança de crédito, o afastamento de Humberto dos processos decisórios até a sua destituição definitiva, além do suporte de especialistas externos para o aprimoramento de seus controles. Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a instituição renunciou à administração do Fundo Radford.
Por fim, o Banco Genial reiterou que mantém postura de total colaboração com as autoridades competentes, encontrando-se à inteira disposição para prestar todos os esclarecimentos adicionais necessários.
Encontros em Brasília e mensagens revelam conexões entre Banco Genial e chefes do esquema de combustíveis
