O que não falta são opções para os torcedores enquanto não chega a hora de Brasil x Haiti. A Filadélfia, na Pensilvânia, é destino para turistas interessados em gastronomia, cultura e, principalmente, história. É considerada o berço dos Estados Unidos. Foi no Independence Hall, um edifício centenário localizado na área conhecida como Old City, que a declaração de independência foi aprovada, em 4 de julho de 1776, e a constituição, criada em 1787. E, em meio às comemorações dos 250 anos da fundação do país e com uma Copa do Mundo em andamento, a cidade reflete um país dividido entre o passado e o futuro.
Alguns papéis escritos à mão e cópias de uma reportagem publicada num jornal local chamam a atenção de quem caminha entre as ruínas da President’s House, onde viveram os dois primeiros líderes americanos — George Washington e, depois, John Adams. “Por que estão faltando algumas partes desta exposição?”, questionam os cartazes, colados nas paredes.
O espaço virou um memorial no qual, desde 2010, instalações revelam o lado escravocrata do começo da república. Só que alguns dos painéis foram retirados pela administração Donald Trump e são alvo de uma disputa jurídica.
A remoção ocorreu em janeiro, quando todos os 34 painéis sumiram. A ação foi organizada pelo Departamento do Interior dos Estados Unidos por considerar estes materiais “depreciativos” para a história americana. No mês seguinte, uma ordem judicial determinou a reposição após ações impetradas pela cidade da Filadélfia e pelo governo da Pensilvânia.
No entanto, a administração Trump não recolocou todos os 34 quadros e seguiu entrando com recursos. Nesta quinta, uma decisão do Tribunal de Apelações do Terceiro Circuito determinou que a cidade não possui “direitos estatutários, de propriedade ou contratuais que a autorizem a organizar as exposições na President’s House”. Uma sentença que abre caminho para o governo Trump poder substituir o material atual.
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As obras contam como George Washington levou consigo, ao se mudar do Estado da Virgínia para a Filadélfia, em 1790, nove escravizados para cuidar dos afazeres domésticos: Hercules e seu filho Richmond, Oney Judge e seu irmão Austin, Moll, Christopher, Giles, Paris e Joe. O material de pesquisa revela como o herói da independência americana temia que seus serviçais fossem tomados por ideias de liberdade e eram tratados como propriedade da família.
A escravidão foi abolida oficialmente nos EUA em 1865. Mas, desde 1780, a Lei de Abolição Gradual dava aos escravizados levados para a Pensilvânia o direito de buscar sua liberdade depois de seis meses residindo no Estado. A exposição revela como Washington mandou seus serviçais de volta para a propriedade na Virgínia para escapar deste dispositivo jurídico.
O temor das entidades que defendem a exposição é de que os novos painéis amenizem a história contada. A Coalizão Vingando os Ancestrais, que liderou o movimento para desenvolver o projeto original, fala em “tentativa de higienizar a história e apresentar uma versão do passado mais confortável, porém muito menos verdadeira”.
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Ironicamente, a apenas poucos metros do memorial, o mesmo país que tem dificuldade de encarar seu passado tenta olhar para o futuro. Também no Parque Histórico Nacional da Independência, um buraco cercado por grades chama a atenção de quem passa por ali. Ele receberá uma cápsula do tempo.
Feito em aço inoxidável e em formato cilíndrico (pois bordas quadradas tendem a rachar e quebrar), o objeto que pesa 408 kg já foi lacrado e será enterrado a três metros de profundidade no próximo dia 4 de julho.
Protegido de variações de temperatura e com uma engenharia que impede a entrada da água, o cilindro será retirado apenas daqui a 250 anos (no aniversário dos 500 anos da independência). Dentro dele, foram armazenadas contribuições dos três poderes federais, dos 50 estados, do Distrito Federal e de outros territórios americanos.
Entre os objetos, há muitas cartas, postais, poemas e outros documentos. Há também contribuições inusitadas, como a resposta a uma pergunta feita a uma IA, um diamante, um osso de uma espécie de baleia ameaçada de extinção, uma gravata e um iphone 17 Pro Max.

