Uma verdadeira montanha-russa. No dia em que entrariam em vigor as tarifas recíprocas, a expectativa era de mais uma sangria nos mercados, especialmente depois de Pequim informar que elevaria suas sobretaxas para os Estados Unidos a 84%.
No início da tarde, no entanto, o presidente Donald Trump surpreendeu ao anunciar a suspensão, por 90 dias, das tarifas para os países que não retaliaram. Nesse período, eles estarão sujeitos à taxa mínima de 10%, vigente desde o último dia 5 para várias nações, incluindo o Brasil. A exceção é a China: Trump elevou a tarifa para o país asiático de 104% a 125%.
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Em Nova York, os índices acionários dispararam, e no Brasil o Ibovespa e o mercado de câmbio embarcaram no otimismo.
O dólar comercial, que chegou a ser negociado a R$ 6,09 na máxima do dia, encerrou em queda de 2,54%, a R$ 5,845. O Ibovespa avançou 3,12%, aos 127.796 pontos. Os juros futuros subiram ao longo de toda a curva, e a taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 foi a 14,475%.
Em Nova York, o S&P 500 encerrou em forte alta de 9,52%, a maior desde 2008. Já o Nasdaq saltou 12,16%, a maior alta em 24 anos, enquanto o Dow Jones ganhou 7,87%. Segundo cálculos da consultoria Elos Ayta, o valor de mercado das empresas listadas na Bolsa de Nova York saltou US$ 4,79 trilhões.
O anúncio de Trump foi feito em um post na rede por ele criada, a Truth Social. Ele demonstrou irritação com a decisão da China de retaliar os EUA nos mesmos moldes. O governo de Xi Jinping não dá sinais de recuo.
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“Com base na falta de respeito que a China demonstrou aos mercados mundiais, estou aumentando a tarifa cobrada da China pelos Estados Unidos da América para 125%, com efeito imediato. Em algum momento, esperamos que em breve, a China vai entender que os dias de roubar os EUA e outros países não é (sic) mais sustentável ou aceitável”, afirmou.
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Ele ainda anunciou: “Com base no fato de que mais de 75 países entraram em contato com representantes dos Estados Unidos, incluindo os Departamentos de Comércio, Tesouro e USTR (Representante de Comércio), para negociar uma solução para os temas em discussão relacionados a comércio, barreiras comerciais, tarifas, manipulação cambial e tarifas não monetárias, e que esses países, por minha forte recomendação, não retaliaram de forma alguma contra os Estados Unidos, autorizei uma PAUSA de 90 dias, e uma tarifa recíproca substancialmente reduzida, de 10%, também com efeito imediato.”
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Mais tarde, Trump afirmou que haverá negociação sobre tarifas com Pequim e com “todos” os demais países: “Um acordo será alcançado com a China” — um sinal de que ele espera que Pequim busque a mesa de negociação. Ele disse ainda que a China quer negociar, “mas não sabe como”.
Na noite de terça-feira, em um evento do Partido Republicano, Trump disse que estava sendo “bajulado” por vários países, que estariam dispostos a “fazer qualquer coisa” por um acordo com os EUA.
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A equipe de Trump tentou mostrar a decisão — que pegou alguns de surpresa — como uma vitória, não uma capitulação. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse que mais de 75 países já procuraram o governo americano.
O representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, disse em audiência ontem no Congresso que na terça-feira se reuniu com autoridades da Europa, México, Coreia do Sul e Equador, já tendo conversado com o Reino Unido. Ele disse ainda que Vietnã propôs reduzir suas tarifas sobre produtos americanos.
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O anúncio de Trump saiu antes de a audiência acabar, o que levou um deputado de oposição a ironizar o fato de que Greer não tinha conhecimento da suspensão.
— Parece que seu chefe puxou seu tapete — disse o democrata Steven Horsford.
Para Fernando Bento, CEO e sócio da FMB Investimentos, o anúncio pode indicar um reposicionamento estratégico dos EUA:
— O recuo parcial nas tarifas parece mais político do que econômico e tem claros efeitos colaterais: os mercados interpretaram como uma trégua temporária, afastando o pior cenário no curto prazo.
Alguns analistas ressaltam que Trump vinha sendo pressionado por empresários e investidores a voltar atrás nas tarifas. Ontem houve uma maciça venda de títulos do Tesouro americano (leia mais na página 15).
— Achei que as pessoas estavam se descontrolando um pouco — disse Trump a repórteres na Casa Branca, ao ser perguntado sobre o motivo do recuo. — Elas estavam ficando um pouco irritadas, um pouco assustadas.
O ex-secretário do Tesouro americano Lawrence Summers foi ao X criticar o caráter errático das medidas de Trump. Ele classificou a estratégia como digna de uma “república de bananas”.
“Os valentões recuam. É trágico ver os Estados Unidos adotando abordagens políticas de repúblicas de bananas”, escreveu Summers, que vinha alertando para o risco de as medidas de Trump provocarem um choque econômico equivalente ao das crises do petróleo nos anos 1970.
Para Summers, o governo americano ficou assustado com os tombos nos mercados desde que ele anunciou as tarifas recíprocas, no último dia 2. E criticou: “Improvisação imprudente não é uma estratégia, mas uma total desonestidade sobre o que os está motivando.”
Summers afirma que os EUA — e o mundo — estão longe de sair da crise. “Muita credibilidade foi perdida. Tenham medo”, concluiu.
Já o investidor e guru dos mercados Ray Dalio alertou, também em publicação no X, que os problemas vão muito além das tarifas. “Estamos testemunhando a quebra das ordens monetária, política e geopolítica, e isso ocorre uma vez por geração, sempre que as condições se tornam insustentáveis”, afirmou.
Diane Swonk, economista-chefe da KPMG que passou horas calculando o impacto das tarifas, não mediu palavras ao expressar sua frustração com o vaivém:
— Isso é uma loucura. O estrago está feito. O alívio do mercado é uma falsa sensação, a menos que o governo faça uma correção de rota significativa — disse Swonk ao New York Times. — A incerteza é, por si só, um imposto sobre a economia.
Ainda assim, o clima de otimismo se estendeu para além dos mercados acionários. O banco Goldman Sachs, que pouco antes do anúncio de Trump havia publicado um relatório estimando uma probabilidade de recessão de 65%, revisou seu alerta e retirou a previsão do ar. Em nota a clientes, os analistas disseram que retomaram a projeção anterior, de que não haverá recessão.
— A probabilidade de um ambiente recessivo mais à frente se reduz muito com o tom mais apaziguador do governo americano — afirmou Max Bohm, estrategista de renda variável da Nomos.

