O culto a Paulo Leminski, autor homenageado da 23ª Festa Literária Internacional de Paraty, pode ser resumido em uma imagem. Trata-se do volumoso bigode preto, com as duas pontas crescendo para baixo.
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Não que o trabalho de Leminski, um dos maiores autores brasileiros do fim do século XX, fique limitado a esse mero fetiche. Mas, como foi demonstrado nas ruas e festas de Paraty ao longo do evento, o seu singular conjunto de pelos faciais é hoje indissociável de sua figura.
Logo na quinta-feira, primeiro dia do evento, a Casa Toda Poesia, que a editora Companhia das Letras dedicou ao poeta ao longo do evento, distribuiu dois tipos de falsos bigodes de Leminski para visitantes usarem no rosto. Foi um sucesso: o que trazia pelos sintéticos esgotou-se em questão de horas, e o de papelão ainda pode ser encontrado na casa.
O bigode, que também ilustra as paredes da casa e pode ser visto em bolsas e camisetas usadas por seus fãs na cidade histórica, sempre foi uma marca registrada de Leminski, que morreu precocemente em 1988. Mas foi só a partir do lançamento da coletânea póstuma do autor, “Toda Poesia”, em 2013, que ele se tornou uma espécie de marca registrada.
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A capa do livro, feita pela designer e ilustradora Elisa Van Randow, colocava em primeiro plano o ícone visual. O sucesso do livro levou a uma identificação imediata entre autor e bigode.
– O Leminski é um caso muito feliz mesmo – diz Alice Sant’Anna, poeta e editora da Companhia das Letras. – O trabalho dele é extremamente acessível e teve impacto para quem já é acostumado com poesia e para quem está chegando pela primeira vez.
Para Alice, a capa teve um papel essencial na divulgação da obra de Leminski.
– Elisa foi brilhante quando percebeu que essa imagem do bigode poderia ser uma espécie de síntese do poeta – diz ela.
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Com cabelos desgrenhados, visual despojado, influência oriental e irreverência na ponta da língua, Leminski construiu um personagem carismático que continua sendo cultuado por novas gerações. É inspiração para camisetas e tatuagens.
Leitora de Leminski, a professora e poeta Jade Prata, estava usando um dos falsos bigodes durante um sarau na Casa Toda Poesia, no último sábado (2). Para ela, o bigode traz uma sensação de “imponência”, que ao mesmo tempo contrasta e complementa a leveza da obra do autor.
– O bigode tem uma descontração séria – diz Jade, autora do livro “Fissura” (Minimalista). – Tem algo de irreverente nele. Ressignifica esse olhar do homem másculo, que na verdade é um poeta.
Vencedora do Prêmio Jabuti de 2016, a escritora gaúcha Natália Borges Polessa é outra que circulou com o falso bigode em Paraty.
– Para além do icônico bigode, acho que dá pra pensar no kistch do bigode, no ready-made do bigode, no acesso do bigode, nos pelos faciais da liberdade – diz a autora de “A extinção das abelhas” (Cia das Letras). – A poesia do Leminsky me dá vontade de fazer poesia. O bigode do Leminsky nos dá além de transe, trânsito, nos dá de pensar que nem mesmo o diabo ali.
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Pensando nisso, a organização da Casa Toda Poesia chegou a planejar um concurso de sósias para a Flip, que acabou não acontecendo. Ainda assim, a figura de Leminski, com todos os seus sabores extra-literários, é onipresente na casa. O projeto de cenográfico, por sinal, do local foi todo feito por Elisa Van Randow, a “mãe” do bigode.
– Quando pensamos em fazer a casa, a gente falou: não tem como não ter o bigode – diz Max Santos, coordenador de eventos da Companhia das Letras. – Porque Leminski é um poeta pop, que hoje as pessoas reconhecem facilmente por esse detalhe.
Quando soube que Leminski seria o autor homenageado da festa, o comerciante Bruno Machado Venâncio, que trabalha na montagem da Flip de dia e mantém uma carrocinha que vende lanches à noite no centro histórico da cidade, fez um rebranding do seu negócio.
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A lanchonete-móvel foi rebatizada de Lancheminski, e passou a oferecer “espetos-poesia” e “hot dogs poéticos”. A carrocinha agora traz uma caricatura de Leminski, de óculos escuros e, claro, bigode. O recurso visual é uma estratégia para atrair os fãs de poesia, mas Machado é ele mesmo um admirador de Leminski.
– Às vezes a gente leva as coisas da nossa vida muito a sério, muito ao pé da letras, e as poesias dele dão uma quebrada nisso – diz o comerciante. – Elas mostram que nem tudo é um bicho de sete cabeças. Além disso, ele é uma pessoa diferenciada na aparência, muito expressiva e fácil de representar.