O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PMA-ONU) alertou nesta terça-feira que o cenário de insegurança alimentar na Faixa de Gaza se compara aos vistos na Etiópia e em Biafra, na Nigéria, no século passado — duas tragédias na qual a fome foi usada como arma de guerra. A declaração ocorre em meio à crescente consternação na comunidade internacional sobre o bloqueio imposto por Israel à ajuda humanitária, que ganhou força nos últimos dias após imagens de crianças subnutridas estamparem jornais como o New York Times.
— Isso não se parece com nada que tenhamos visto neste século, nos lembra desastres anteriores na Etiópia ou em Biafra no século passado — afirmou o diretor de emergências do PMA, Ross Smith, a jornalistas em Genebra.
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De acordo com um relatório do Classificação Integrada de Fases da Segurança Alimentar (IPC) publicado esta semana, o território palestino atingiu a fase 5 de “catástrofe humanitária”, a mais grave da escala. Para alcançar tal estágio, é necessário atender a critérios como: ter 20% dos lares sem alimentos, 30% dos menores com desnutrição aguda e duas mortes diárias por fome para cada 10 mil habitantes.
A situação no enclave se deteriorou a partir de março, quando Israel impôs um bloqueio total a Gaza após abandonar um cessar-fogo temporário firmado com o Hamas. Pressionado pela comunidade internacional, o governo flexibilizou parcialmente a medida em maio, quando a distribuição de ajuda humanitária passou a ser concentrada na Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla em inglês) — uma organização apoiada pelos EUA e por Israel que vem sendo acusada de matar civis indiscriminadamente. Segundo a ONU, mais de mil palestinos foram mortos enquanto aguardavam remessas de alimentos próximos a centros de distribuição da GHF. De maio a julho, a proporção de famílias enfrentando insegurança alimentar extrema duplicou, num período em que a média diária de veículos com ajuda humanitária foi de apenas 69, abaixo dos 500 que entravam diariamente no enclave antes da guerra.
Na última semana, ao menos 45 pessoas morreram de inanição em Gaza, segundo a Agência da ONU para Refugiados Palestinos (UNRWA, na sigla em inglês), em um momento em que o número de mortos na guerra ultrapassa 60 mil. O relatório do PMA aponta que cerca de 470 mil vivem no limiar da fome hoje, e apenas o envio de mais de 62 mil toneladas de alimentos por mês atenderia os 2,1 milhões de habitantes do enclave. Um em cada três palestinos “não come durante dias seguidos”, de acordo com o World Food Program (WFP).
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Apesar de uma flexibilização parcial do bloqueio nos últimos dias — incluindo a autorização do envio de ajuda humanitária por via aérea e o anúncio de pausas táticas para entrega de alimentos —, organizações humanitárias afirmam que o volume distribuído ainda é insuficiente para atender à emergência. Na segunda-feira, cerca de 200 caminhões de ajuda foram distribuídos e 20 paraquedas com suprimentos foram lançados de aviões, em operações que contaram com o apoio da Jordânia e dos Emirados Árabes. Contudo, palestinos relatam dificuldades para pegar os mantimentos que caem dos céus.
— Tivemos que nadar para buscar alimento para os nossos filhos — contou à AFP Ismail al-Aqraa, um chefe de família. — A maior parte da comida que caiu no mar foi perdida.
O Gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, nega a existência de fome em Gaza e acusa o Hamas de manipular os números e saquear os alimentos distribuídos:
— Já permitimos que entrem em Gaza diariamente significativas quantidades de ajuda humanitária. Infelizmente, o Hamas roubou a ajuda destinada à população, muitas vezes disparando contra palestinos — declarou Netanyahu.
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Embora a taxa de mortalidade em Gaza ainda não tenha atingido os níveis de grandes tragédias do passado, a situação acende o alerta para uma instrumentalização da fome similar a outros períodos da História. Na avaliação de Alex de Waal, diretor executivo da WPF e especialista em história humanitária, embora fatores climáticos tenham sido determinantes para crises alimentares no século XIX, desde o início do século passado a ação humana tem sido a principal causa da fome.
“A grande maioria das pessoas que morreram nessas fomes faleceu devido a ações políticas ou militares. Fatores além do controle humano imediato tornaram as populações mais vulneráveis, mas a causa imediata foi quase invariavelmente uma decisão imprudente ou deliberada dos governos”, escreveu Waal em artigo, citando como exemplos emergências na Europa e na Ásia durante as duas guerras mundiais, além das causadas pelo líder soviético Josef Stalin na Ucrânia e por Mao Zedong na China.
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Os casos citados pelo diretor do PMA, Ross Smith, nesta terça são considerados símbolos do uso da fome como arma de guerra, acusação que Israel nega. Biafra, na Nigéria, talvez seja um dos mais representativos deles. Durante a guerra civil no país, entre 1967 e 1970, o governo nigeriano impôs um bloqueio total à região, controlada por separatistas. Em três anos, estima-se que 2 milhões de civis morreram de inanição, cerca de 15% dos 13 milhões de habitantes, chegando a uma média de 10 mil mortes por dia no auge da crise.
As discussões sobre o uso da fome como arma de guerra em Biafra abriram caminho para que, em 1977, fosse feita uma emenda nas Convenções de Genebra proibindo o bloqueio a suprimentos essenciais durante conflitos armados. A instrução foi posteriormente adotada no Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (TPI) e na Convenção sobre Genocídio.
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Uma das mais graves crises humanitárias do século passado, a fome em massa na Etiópia, entre 1983 e 1985, ficou marcada no imaginário do Ocidente após uma série de reportagens da rede britânica BBC exibir imagens gráficas de etíopes com desnutrição aguda. Estima-se que até 1 milhão de pessoas tenham morrido e 7 milhões foram severamente afetadas pela fome no país. A repercussão do caso levou a formação do grupo Band Aid, no Reino Unido, que arrecadou cerca de 8 milhões de libras com o lançamento da música beneficente “Do they know it’s Christmas?” (“Eles sabem que é Natal?”, em tradução livre) para enfrentar a crise na Etiópia.
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Para Waal, porém, a forma como a tragédia foi coberta pela imprensa na época ocultou as suas implicações políticas. Na época, a Etiópia era governada pelo regime militar de Mengistu Haile Mariam, de ideologia marxista-leninista, que implementou uma série de políticas que agravaram um cenário de grave seca que afligia o norte do país, onde havia uma predominância de grupos separatistas.
“Essa fome, que matou entre 600 mil e 1 milhão de pessoas, foi causada por uma combinação de pobreza, seca, políticas agrícolas inadequadas e, acima de tudo, o uso da fome como arma na contra-insurgência”, escreveu Waal, apontando que tal tendência se manteve em coberturas de crises alimentares na África já na virada para o século XXI. “Embora as narrativas públicas frequentemente se concentrassem na seca, na verdade, a maioria dessas fomes está relacionada à guerra.”
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O diretor do WFP, no entanto, pontua que o uso da fome como arma é uma herança do colonialismo europeu, em que o bloqueio aos alimentos “era uma ferramenta de conquista”:
“A história mundial das fomes desde a década de 1490 até a Primeira Guerra Mundial consiste, em grande parte, na história do colonialismo europeu”, afirma, citando alguns exemplos: “os colonos europeus na América do Norte deixaram os nativos americanos à beira da fome para obrigá-los a abandonar suas terras. A conquista francesa da Argélia foi realizada usando a fome como arma.”