A onda de frio que atingiu o Brasil menos de uma semana após o início do inverno trouxe um fenômeno raro em países tropicais: as chamadas “agulhas de gelo” — conhecidas em inglês como “needle ice”. O registro das pequenas colunas cristalizadas no solo ocorreu entre a madrugada e o amanhecer desta quarta-feira na região Sul do país. Moradores compartilharam imagens nas redes sociais.
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Mais comuns em países de clima temperado ou subtropical e em regiões de maior altitude, as agulhas de gelo já foram registradas no Brasil em outras ocasiões, especialmente no Sul. Desta vez, o fenômeno foi observado em diversas cidades catarinenses e gaúchas, como Videira (SC), Erechim (RS), Ronda Alta (RS) e Campinas do Sul (RS).
Segundo a meteorologista Andrea Ramos, a formação das agulhas está ligada a um processo chamado segregação de gelo, que ocorre em solos porosos — como argila ou terra fofa — quando estão úmidos e com temperatura acima de 0°C. Ao mesmo tempo, o ar precisa estar entre -6°C e -4°C para que o contraste de temperaturas permita o surgimento das estruturas.
— Em solos sem vegetação, o fenômeno é mais visível. As agulhas são extremamente frágeis e costumam derreter com os primeiros raios de sol — detalha a meteorologista.
Ernani Nascimento, professor de meteorologia da Universidade Federal de Santa Maria, explica que os filetes de gelo desaparecem assim que a temperatura do ar começa a subir. Ele compara o surgimento das “agulhas” ao movimento de um elevador:
— A água de baixo vai subindo e, logo que chega acima da superfície, congela. Mas continua empurrando o gelo para cima. E fica nesse ciclo: congela, empurra; congela, empurra. Para ver, é preciso coragem de acordar bem cedo — destaca o professor.
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Noites com pouca ou nenhuma nebulosidade favorecem o fenômeno, já que permitem que o calor do solo se dissipe com mais facilidade para a atmosfera, resfriando a superfície, segundo Andrea Ramos. A ausência de vento também ajuda a manter o ar frio rente ao chão, completando as condições ideais para a formação das agulhas.
(*estagiária sob supervisão de Luã Marinatto)