
Os Estados Unidos e a Arábia Saudita assinaram, nesta quarta-feira, um amplo acordo de cooperação nuclear civil que poderá permitir ao reino desenvolver um programa atômico com participação de empresas americanas. O pacto, firmado pelo secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, e pelo ministro da Energia saudita, príncipe Abdulaziz bin Salman, é apresentado pelo governo Donald Trump como uma parceria estratégica de várias décadas, mas já desperta críticas de parlamentares americanos e autoridades israelenses preocupados com o risco de proliferação nuclear.
Contexto: Governo Trump anuncia acordo nuclear com a Arábia Saudita, em grande vitória para o reino
Temor sobre os impactos do conflito: Aliados árabes dos EUA se dividem entre desescalada e tomada de Ilha de Kharg, estratégica para o Irã
O acordo será agora encaminhado ao Congresso americano para um período obrigatório de revisão. Embora o governo afirme que o pacto inclui salvaguardas contra o desenvolvimento de armas nucleares, alguns dos termos negociados com Riad representam um afastamento das exigências adotadas por Washington em acordos anteriores com países da região.
Initial plugin text
Entenda os principais pontos do acordo
1. Acordo nuclear civil de 30 anos
O pacto firmado entre Washington e Riad é conhecido como “Acordo 123”, instrumento jurídico utilizado pelos EUA para regular a cooperação nuclear com outros países. Segundo autoridades americanas, ele terá duração de 30 anos e estabelece a base legal para uma parceria de longo prazo entre os dois governos na área nuclear civil.
2. Enriquecimento de urânio na Arábia Saudita
O ponto mais sensível do acordo prevê que a Arábia Saudita possa, futuramente, enriquecer combustível nuclear em seu próprio território.
Antes disso, uma equipe conjunta dos dois países deverá realizar estudos para avaliar se a produção local de combustível nuclear é economicamente viável e justificada. Caso a iniciativa avance, empresas americanas ficariam responsáveis pela construção da instalação necessária para o enriquecimento de urânio.
Entenda: Missão da UE emite alerta a navios ligados a Israel, EUA e Arábia Saudita, e grupo diz que houthis estão prontos para atacar
3. Participação de empresas americanas
Segundo autoridades, empresas dos EUA fornecerão tecnologia, treinamento, assistência técnica e componentes necessários para o desenvolvimento do programa nuclear saudita. A Westinghouse, que projeta muitos dos reatores nucleares exportados pelos Estados Unidos, é apontada como uma das principais beneficiadas.
O governo Trump estima que o acordo movimentará bilhões de dólares para a indústria nuclear americana.
4. Limitações ao programa saudita
Embora abra espaço para o enriquecimento de combustível nuclear, o acordo prevê restrições. De acordo com informações divulgadas pelo Wall Street Journal e pela CNN, a Arábia Saudita não poderá desenvolver sua própria tecnologia de enriquecimento nem adquiri-la de outros países durante um período de dez anos. Além disso, os americanos construirão as instalações necessárias sem transferir aos sauditas a tecnologia considerada mais sensível.
Viagem interrompida: Petroleiros ligados à Arábia Saudita dão meia-volta no Mar Vermelho após ameaça de ataque dos houthis
5. Salvaguardas diferentes do ‘padrão ouro’
Outro aspecto que vem gerando debate é o modelo de fiscalização adotado. Ao contrário dos Emirados Árabes Unidos, que em 2009 assinaram o chamado Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) ao firmar um acordo nuclear com Washington, a Arábia Saudita não será obrigada a aderir ao mesmo mecanismo.
Em vez disso, os dois países negociaram um acordo bilateral de salvaguardas que, segundo autoridades americanas, mantém medidas de controle e não proliferação, mas exclui pontos que eram considerados problemáticos pelo governo saudita.
6. Acordo desvinculado da normalização com Israel
Durante o governo de Joe Biden, a cooperação nuclear era discutida como parte de um pacote mais amplo que incluiria a normalização das relações diplomáticas entre Arábia Saudita e Israel.
Após os ataques do Hamas contra Israel em outubro de 2023 e a guerra na Faixa de Gaza, essa estratégia perdeu força. O governo Trump decidiu avançar com a cooperação nuclear sem exigir que Riad reconhecesse formalmente o Estado israelense.
Aliados de Teerã: Houthis anunciam bloqueio naval contra Arábia Saudita enquanto mediadores tentam retomar diálogo entre Irã e EUA
O que ainda não foi divulgado?
Embora os termos centrais do acordo tenham sido anunciados, parte da negociação permanece sob sigilo. Segundo o New York Times, o pacto inclui duas cartas paralelas negociadas entre Washington e Riad cujos conteúdos não foram divulgados.
O governo americano argumenta que os documentos tratam de informações comerciais confidenciais e de questões sensíveis de segurança nacional. Ainda assim, alguns integrantes do Congresso podem se recusar a votar o acordo caso esses anexos permaneçam secretos.
Críticas ao acordo
O principal temor de críticos do acordo é que um programa nuclear civil possa, no futuro, servir de base para o desenvolvimento de armas nucleares.
Ofensiva com mísseis e drones: Maior ataque dos houthis à Arábia Saudita em anos ameaça ampliar conflito regional no Oriente Médio
Autoridades israelenses e parlamentares americanos de ambos os partidos argumentam que a capacidade de enriquecer urânio representa um passo importante para qualquer país que deseje produzir uma bomba atômica. O receio é ampliado pelas declarações do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que já afirmou que a Arábia Saudita buscará desenvolver armas nucleares caso o Irã faça o mesmo.
O governo Trump rejeita essas preocupações e sustenta que o acordo fortalece os mecanismos de não proliferação nuclear ao manter o programa saudita sob cooperação e supervisão americanas. Defensores da iniciativa também argumentam que, sem a participação dos EUA, a Arábia Saudita poderia recorrer a países como Rússia ou China para desenvolver seu setor nuclear civil.
(Com New York Times e AFP)
